Mesmos problemas

‘Tensão entre Bolsonaro e Ministério da Saúde vai se manter’, diz especialista

Na avaliação do cientista político Jacques Mick, a disputa narrativa entre a defesa da ciência e o negacionismo continuará no governo federal

Isac Nóbrega/PR
Cientista político critica a troca de ministro, durante a maior crise sanitária do século, que pode atrasar medidas urgentes a serem adotadas

São Paulo – A saída de Luiz Henrique Mandetta e a entrada Nelson Teich no Ministério da Saúde não deve acabar com a tensão entre a pasta e o presidente Jair Bolsonaro. Na avaliação do cientista político Jacques Mick, a disputa narrativa entre a defesa da ciência e o negacionismo continuará no governo federal.

Apesar de se colocar “alinhado ao presidente”, Teich disse, em discurso, que priorizará o lado técnico, o que pode causar novas discordâncias com o presidente da República. “A tensão que havia entre Mandetta e Bolsonaro vai se manter, pois ele terá que se amparar na ciência contra o discurso de Bolsonaro, que é de mentiras”, afirma Mick, em entrevista à Rádio Brasil Atual.

O cientista político critica a troca no Ministério da Saúde, durante a maior crise sanitária do século, que pode atrasar medidas urgentes a serem adotadas. “É um problema que o governo cria para ele mesmo. A partir de hoje vamos assistir cenas trágicas de superlotação de UTIs, em várias regiões do país, porque o governo federal que não atende a demanda dos estados para lidar com a pandemia”, disse.

Sem unidade

Nesta quinta-feira (16), Bolsonaro voltou a criticar as medidas de isolamento e apontou como “exagero” as políticas tomadas por governadores e prefeitos no combate ao coronavírus.

Jacques Mick acredita que as falas são uma estratégia do presidente para manter o apoio de sua base, já que pesquisas apontam a queda de popularidade. Entretanto, esse acirramento criará um problema para reconstrução do Brasil pós-pandemia.

“Há uma crise sobre a ideia de nação. Tem uma disputa por símbolos que compõem a identidade nacional, desde 2013. O problema é que essas estratégias têm seu limite, já que o governo foi incapaz de construir uma liderança para um problema de fato nacional. Governos democráticos e autoritários aproveitam essas crises para reforçar a liderança política e inspirar a população, o Bolsonaro não teve essa competência e vai pagar um preço alto”, afirma o cientista político.

O especialista acrescenta que, com o aumento da crise provocada pelo coronavírus, o presidente irá se fragilizar ainda mais. “O número de corpos empilhados se tornará frequente, mostrando a responsabilidade pessoal do presidente da República em não contribuir na estruturação do sistema de saúde, além de estimular comportamentos que ajudam a propagar o vírus.”


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