PF 'de quintal'

Ramagem é mais uma peça no ‘mundo de capanga e capachos’ de Bolsonaro

Para cientista política Jacqueline Muniz, presidente faz “manipulação política partidária para fins particulares”. Além de proteger filhos, Bolsonaro quer com chefe da Abin um “caça às bruxas”

Valter Campanato/EBC
"Clientelização da polícia, ou do serviço da polícia está dada, explícita", observa especialista em segurança pública

São Paulo – A escolha do presidente Jair Bolsonaro, pelo nome de Alexandre Ramagem para a direção-geral da Polícia Federal, deixa evidente o “aparelhamento e a ingerência que tem ocorrido em vários órgãos da República” pelo atual governo, analisa a cientista política, antropóloga e especialista em Segurança Pública pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Jacqueline Muniz. 

Amigo pessoal da família Bolsonaro, homem de confiança do presidente e atual chefe da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Ramagem deverá ser mais uma peça-chave no “mundo de capangas e capachos” criado desde a chegada de Bolsonaro ao poder. Ele agirá principalmente para manobrar investigações, processos que estão em curso e que podem afetar ou chegar perto da família do presidente, destaca Jacqueline. Mas não apenas.  

Em entrevista aos jornalistas Marilu Cabañas e Glauco Faria, da Rádio Brasil Atual,  a cientista política aposta que a razão da escolha também revela interesses internos da PF. 

“Não diria que a presidência da República seria tão simplória assim: ‘vou lá tirar porque está chegando perto do meu menino na rachadinha, na milícia, ou vou tirar porque está chegando perto dos casos de fake news e gabinete do ódio’. Até porque a presidência da República dispõe de um conjunto de ferramentas capazes de secar por dentro a Polícia Federal, se assim ela quiser. Isso quer dizer que tem um jogo aí, que também está atendendo aos interesses internos da Polícia”, aponta. 

Inteligência para caça às bruxas

Ao indicar um chefe da Abin, a impressão que Bolsonaro passa é a que ele precisa ter “instrumentos contra os outros”, criando, a partir da atuação na agência de inteligência de Ramagem, que é também delegado, uma espécie de “central de fofocas” na PF, com risco de promoção de uma verdadeira “caças às bruxas”, afirma Jacqueline. 

O risco desse tipo de aparelhamento é sério porque, lembra a cientista política, não há nenhuma regulamentação sobre a inteligência policial no Brasil e, principalmente, sobre a PF. Na prática, antes mesmo da interferência direta de Bolsonaro, o órgão já não contava com “uma grande unidade”. 

“Ela é dividida em grupelhos. Não existe a Polícia Federal como uma grande unidade. Lá dentro nós temos sindicatos, visões concorrenciais, e cada superintendência é um Vaticano dentro de Roma, ela é altamente independente”, porque “não temos mecanismos de governabilidade dos meios de força das espadas no Brasil”, afirma a especialista, chamando atenção para a importância de se exercer governo sobre a polícia para a construção de políticas públicas – o que não se confunde com a manipulação político-partidária, como almeja Bolsonaro.

“Não fizemos repactuação federativa do poder de polícia no Brasil, que segue com um cheque em branco, um mandado em aberto que cada um preenche com convivência, conveniência e conivência. Essas três coisas são nomes bonitinhos para o que a chama chama de corrupção, que é desvio de função. É você apropriar, aparelhar instituições para propósitos pessoais e particulares. Então essa clientelização da polícia, ou do serviço da polícia está dada, explícita”, observa. 

“É isso que estamos falando. E isso é perigoso”, adverte a cientista política. “A pergunta agora é: cadê os dispositivos de controle interno e externo da Polícia Federal que é uma garantia de fato de independência político partidária? Até agora não se mostrou. Vamos ver se com essas mudanças, os setores da polícia vão reagir sabotando e resistindo a essa forma de aparelhamento ou não”, adverte Jacqueline Muniz.

Ouça a entrevista da Rádio Brasil Atual