Chamuscados

‘Fracasso de Bolsonaro é também um fracasso dos militares no poder’, diz analista internacional

Para Amauri Chamorro, permanência de Mandetta no governo mostra que ala militar tenta “preservar a reputação” das Forças Armadas “do abismo que o Bolsonaro já caiu”, avalia

José Cruz/EBC
"Se o governo continuar nesse desastre obviamente arrasta junto com ele a reputação dos militares", destaca Chamorro

São Paulo – A notícia de que a permanência do ministro Luiz Henrique Mandetta à frente da pasta de Saúde, nesta segunda-feira (6), seria mais uma vitória momentânea da ala militar do governo de Jair Bolsonaro, revela que as Forças Armadas “não estão dispostas a jogar no lixo sua reputação que, até agora no Brasil, é relativamente respeitada apesar de terem mantido uma ditadura por 21 anos em que assassinaram, torturaram e desapareceram com pessoas”. 

A ponderação é do analista e consultor internacional Amauri Chamorro, em entrevista aos jornalistas Marilu Cabañas e Glauco Faria, na edição desta terça-feira (7) do Jornal Brasil Atual. Ele avalia que “a falência do governo Bolsonaro também seria o fracasso dos militares no poder”. 

Depois de um dia de boatos cogitando que o presidente assinaria a demissão de Mandetta, a imprensa divulgou que Bolsonaro teria sido convencido pelo núcleo militar a manter o atual ministro da Saúde no cargo, sob o risco de que uma demissão imediata poderia tirar sua capacidade de governar. 

Com a crise em meio à pandemia, fortalecida por Bolsonaro e sua família, os ministros da Defesa e da Casa Civil, os generais Fernando Azevedo e Walter Braga Netto, respectivamente, estariam tentando “apaziguar os ânimos” em nome da ala militar para tentar garantir governabilidade. 

Para Chamorro, no entanto, apesar do empenho, todo esse panorama demonstra que Bolsonaro tem “claro descontrole de seu gabinete”, já reduzido ao papel de “rainha da Inglaterra”, como um dos seus apoiadores chegou a sugerir no último domingo (5).

“É evidente que ele já não tem controle sobre seu gabinete. Um presidente que faz um joguinho para ameaçar a saída de um ministro, e seus subordinados avisam que, na verdade, tudo está certo e que o ministro da Saúde fica, isso quer dizer que ele não tem controle. Quem conhece o poder sabe que isso nunca aconteceria com um presidente que realmente tem um mando”, finaliza o analista internacional.