Lembrança da terra

Em live do MST, Chico Buarque canta e faz homenagem a trabalhadores sem-terra e Moraes Moreira

Enquanto alguns demitem, sem-terra doam alimentos, diz compositor, que ao lado de Lula participou de programa do MST em redes sociais

Reprodução
Enquanto Lula e os líderes sem-terra ouvem, Chico canta um trecho de 'Assentamento', que compõs em 1997

São Paulo – O cantor, compositor e escritor Chico Buarque participou, inclusive cantando, de uma transmissão pelas redes sociais, na qual esteve também o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. No programa Café com o MST, levado ao ar na noite desta sexta-feira (17), Chico homenageou os sem-terra, no dia em que se completam 24 anos do massacre de Eldorado dos Carajás (PA), e – após lembrança de Lula – o cantor Moraes Moreira, que morreu segunda-feira (13). “Grande Moraes”, disse o compositor.

O ex-presidente falou também do compositor Aldir Blanc, internado no Rio de Janeiro. Chico informou que ele foi removido para o hospital Pedro Ernesto. “O estado é grave, mas parece que ele vai superar”, afirmou, aproveitando para lembrar da situação dos músicos em geral, ainda mais neste momento. “Os técnicos estão desempregados, não têm nenhum outro sustento. Há uma ilusão de que os músicos levam a vida na flauta, de que é tudo fácil para eles, mas não, a vida é difícil.”

Ao lado da jurista Carol Proner, Chico disse que mandava “um abraço” ao MST na lembrança do massacre, “que foi um marco dos trabalhadores sem-terra, não só pela brutalidade da execução de 21 trabalhadores (na verdade, 19), como pela impunidade que aliás vigora até hoje”. Segundo ele, continua sendo comum a morte de sem-terras, indígenas e quilombolas, “com o silêncio cúmplice do governo federal”.

Assentamento

O compositor lembrou da edição do livro Terra, lançado em 1997, que fala da vida no meio rural. A obra, do fotógrafo Sebastião Salgado, inclui textos do escritor português José Saramago e quatro canções de Chico. No final da live, ele apanhou um violão e cantou trecho de Assentamento, uma das compostas para um CD que foi encartado no livro.

Quando eu morrer, que me enterrem
Na beira do chapadão
Contente com minha terra
Cansado de tanta guerra
Crescido de coração

Chico também manifestou alegria ao ver as doações que o MST têm feito pelo país, para combater a fome, agravada desde o início da pandemia de coronavírus. “Enquanto grandes empresários estão dispensando trabalhadores, trabalhadores sem-terra estão doando seus produtos orgânicos para o povo mais necessitado”, comentou.

Para Lula, o país está em uma situação “quase insuportável”. Sobre o novo ministro da Saúde, Nelson Teich, afirmou que aparentemente é mais um “representante de fundos do setor de oncologia do que médico mesmo”. “Ele não disse nada que pudesse despertar qualquer expectativa na sociedade”, acrescentou, para em seguida falar de Jair Bolsonaro.

Crescimento econômico

“O Bolsonaro continua dizendo que a culpa é dos movimentos sociais, dos governadores, dos prefeitos… Só tem um jeito de criar emprego, alguém tem que dizer ao presidente da República: é a economia voltar a crescer.” Para isso, disse Lula, é preciso investimento em infra-estrutura. “Tem muita obra parada neste país. Não existe possibilidade de este país voltar a crescer enquanto a gente tiver o Bolsonaro na presidência.”

O programa foi apresentado pelo dirigente do MST João Paulo Rodrigues. Convidado, outro líder do movimento, João Pedro Stédile, disse que as doações feitas durante o dia representaram “um gesto para homenagear os mártires e dizer que o tipo de reforma agrária que queremos”, prestando solidariedade aos mais pobres.

Esse modelo, segundo ele, deve combinar uma matriz de agroecologia, com respeito à natureza, e à agroindústria. “Que era o sonho já desde o Celso Furtado“, acrescentou, lembrando do economista e ex-ministro do Planejamento (1962-1964). “A economia camponesa só vai agregar valor ao seu trabalho se estiver combinado com a agroindústria.” Stédile também ressaltou a importância dos programas de educação no campo.

Além deles, participaram do programa o deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP), a secretária agrária do PT, Elisângela Araújo, e o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag), Aristides Veras.