Cabeça fechada

Bolsonaro estabelece ‘orgulho em ser ignorante’, diz cientista político

Postura de presidente e de seus apoiadores são risco à saúde e à vida da população, segundo Paulo Nicoli Ramirez (FESPSP)

Marcos Corrêa/PR
"Não é momento de contar com achismos e percepções que não ficam longe de um terraplanismo"

São Paulo – Ao negar, sem nenhuma base científica, a importância do isolamento social como estratégia no combate à disseminação do coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro cria atritos com o seu próprio ministro da Saúde, com governadores, representantes dos poderes Legislativo e Judiciário, especialistas e também com organismos internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS). “De um lado temos a civilidade, a ciência e o conhecimento. Do outro lado, o orgulho de ser ignorante”, afirma o cientista político Paulo Niccoli Ramirez, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

As posturas “incivilizadas” do presidente são acompanhadas pelo que resta dos seus apoiadores, que acabam atuando como disseminadores da doença. Como o presidente, afirmam se tratar apenas de uma “gripezinha“, alegam que a doença é uma “invenção” da China ou atribuem à mídia alarde desproporcional sobre o tema.

Nicoli afirma que é uma espécie de “terraplanismo”, que não encontra respaldo na ciência. “Não é momento de contar com achismos e percepções que não ficam longe de um terraplanismo. (…) Chega a ser uma ignorância birrenta. O pior dos ignorantes é aquele que não reconhece o erro, nem abre a cabeça para ouvir especialistas”, afirmou em comentário na Rádio Brasil Atual nesta quarta-feira (15). Ouça.

Mandetta e Weintraub

Não bastasse Bolsonaro e seu orgulho, o time de ministros não fica muito atrás. Segundo Nicoli, o atual ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, trabalhou com todas as forças para enfraquecer a saúde pública, quando era deputado, inclusive votando a favor da Emenda Constitucional (EC) 95, que congelou os gastos na área. “Diante da crise, muda de discurso. Passa a elogiar e a usar o colete com a marca do SUS. Ele não é esse anjo que parece ser.”

Pior ainda é o ministro da Educação, Abraham Weintraub, que teve pedido de abertura de inquérito, pela Procuradoria-Geral da República (PGR), para investigar crime de racismo cometido contra chineses. Na semana passada, Weintraub fez piada, no Twitter, dizendo que os chineses sairiam “fortalecidos” na geopolítica mundial após a crise decorrente da pandemia de coronavírus.

“É curioso que parte dos ministros sequer são especialistas nas pastas que ocupam. O que dirá em outros assuntos, como relações internacionais. Weintraub é um exemplo disso. É um indivíduo absolutamente despreparado, preconceituoso”, disse o cientista político. Segundo ele, as relações entre o Brasil e a China só não estão piores devido à pandemia, que também garante sobrevida a Bolsonaro. Em situação de normalidade, o Congresso já teria se movido para afastá-lo, em função dos crimes em série que vem comentendo.