Capitalismo sem ética

Boaventura: vacina contra coronavírus não interessa à indústria farmacêutica

Para o sociólogo, as farmacêuticas ganham dinheiro com a doença, por isso não fazem. “Vamos voltar às ruas, aos bares, aos amigos e depois haverá outra pandemia. E nada democrática”

Reprodução/TVT
Em seu novo livro, Boaventura Sousa Santos prevê tempos de muita agressividade. Para ele, os senhores da crise não admitirão que o neoliberalismo terminou e farão tudo para que tudo fique como está

São Paulo – Boaventura de Sousa Santos, que costuma se definir como um otimista trágico, afirma que o “novo normal”, caso o modelo de sociedade não mude, será a vida em meio a pandemias intermitentes. “As lições são muitas, se quisermos aprender”, avisa. “Não vamos sair da pandemia, vamos entrar no novo normal, que é a pandemia intermitente, se não houver mudança no modelo de capitalismo.” Para ele, já poderíamos até ter uma vacina para conter essa pandemia do coronavírus, mas isso não interessa às indústrias farmacêuticas.

“As farmacêuticas querem ganhar dinheiro (com a doença), por isso não fazem. Seria possível fazer vacina para mutações do coronavírus. (Como não tem) Vamos voltar às ruas, aos bares, aos amigos e depois haverá outra pandemia”, prevê.

Boaventura observa que a pandemia é mundial, e nem as guerras foram mundiais. “Mas ao contrário do que se diz, não é democrática. Basta ver quem está a morrer. As classes médias estão sendo atingidas, mas os grupos vulneráveis são os mais atingidos. Já eram vulneráveis e estão mais”, diz. Um quarto da população mundial vive em favelas. “Não têm agua potável. Como podem se lavar com água e sabão?”

Capitalismo e ética

O otimista trágico, no entanto, vê crescer a importância da lógica da solidariedade. “O homem empreendedor deu lugar à solidariedade. E ela é tanto melhor, quando mais vulneráveis são as pessoas. Não encontramos solidariedade entre os bancos e os cidadãos (incluídos).”

E cita que Portugal, um dos países com melhores resultados no combate ao coronavírus, chamou banqueiros para conversar: “Em 2008, salvamos os bancos. Agora, queremos salvar as famílias é e tempo de os bancos ajudarem”, relatou.

“O capital financeiro brasileiro é o mais voraz e selvagem do mundo, não existe outro país com o capital tão selvagem. No caso deles, é uma solidariedade a contragosto”


Boaventura é categórico sobre o capitalismo – “não tem alma nem ética social” – e destaca que no Brasil os bancos são ainda piores. “Estão, por relações públicas, a fazer moratórias, hipotecas, créditos. O capital financeiro brasileiro é o mais voraz e selvagem do mundo, não existe outro país com o capital tão selvagem. No caso deles, é uma solidariedade a contragosto.”

Ele já identifica cenas de um capitalismo mais sanguinário. “As empresas distribuindo lucros e dividendos ao mesmo tempo em que pedem ajuda ao Estado. Há países que roubam máscaras dos outros, como corsários”, critica, mencionando a ação de funcionários a serviço dos Estado Unidos para ficar com equipamentos como máscaras, respiradores que viriam para o Brasil.

Já entre os pobres, o sociólogo vê solidariedade real. Ele conta que faz lives com comunidades em muitos países. E enfatiza como estão organizados. “Presidentes de rua, nas comunidades brasileiras, vão dando conselhos, distribuindo material, sabendo se há necessidade de cuidados especiais. Em outros países estão a fazer o mesmo. As comunidades defendem, não deixam que entrem nelas casos importados. Estão fazendo vigilância, com autonomia, não podem esperar o Estado.”

Dominação evangélica

Coordenador científico do Observatório Permanente da Justiça da Universidade de Coimbra, Boaventura recomenda às esquerdas do mundo, especialmente à brasileira, deixar de viver iludida pelas instituições e parlamentos, e estar nas favelas, nas periferias, para participar das vidas das pessoas. “Só pregadores evangélicos sabem falar com essas pessoas”, adverte.

E cita um projeto político imperial, surgido em 1969, com o relatório Nelson Rockefeller. Intitulado A Igreja, o tratado produzido pelo então governador de Nova York (1959-1973), e futuro vice-presidente dos Estados Unidos, foi solicitado pelo então presidente Richard Nixon para avaliar o fracasso da chamada Aliança pelo Progresso. Era esse o nome de um programa de “cooperação para o desenvolvimento” da América Latina, mas sob a tutela dos norte-americanos e longe da sedução socialista, idealizado por John Kennedy.

“A carteira verde e amarela é o principio do fim. Se a esquerda souber capitalizar a energia popular, poderá ter visão não instrumental, poderá não estar com eles só nas eleições”

O relatório de Rockefeller identificou na Teologia da Libertação, uma ameaça à segurança nacional norte-americana. A Teologia da Libertação foi um desdobramento da opção pelos pobres, convenção que moveu a Igreja Católica no início dos anos 1960 com o papa João XXIII, teve sequência entusiasmada com Paulo VI. A ação política dos teólogos aproximou a igreja das comunidades mais vulneráveis e construiu um discurso humanista, solidário e uma visão de socialismo “livre” alternativa ao comunismo soviético.

Muy amigos

Os norte-americanos perceberam. “O relatório Rockefeller foi uma resposta conservadora de ação religiosa contra a Teologia da Libertação”. Foi também uma ofensiva de ocupação sobre o predomínio católico no continente. “E o Papa João Paulo II ajudou isso”, lembra o sociólogo. O papa polonês, opositor do regime comunista em seu país, tomou posse com a missão de romper o ciclo progressista formado por João XXIII (1958-1963), Paulo VI (1963-1978) e João Paulo I (que morreu com apenas um mês de papado, em setembro de 1978 e cujo nome homenageava os dois antecessores). E Jonao Paulo II o fez.

O período em que o catolicismo se afastou das comunidades de base coincidiu com o dedicação das forças de esquerda à luta institucional que experimentava um crescimento na ocupação de espaço de poder no Legislativo e Executivo.

“Foi essa a tragédia que criou no Brasil a ocupação dos evangélicos. A esquerda saberá fazer isso?”, questiona Boaventura, mencionando o trabalho das frentes Povo Sem Medo, Brasil Popular e as dificuldades de se constituir, de um lado, uma união de forças e, de outro, uma retomada do contato mais estreito com as bases, levando-lhes soluções e esperança. “Além disso, falta renovação à esquerda. O ex-presidente Lula, de quem sou amigo pessoal, é mais parte do passado que do futuro. Há uma posição controversa aí.”

Presidente miliciano

Boaventura considera que a popularidade do presidente Jair Bolsonaro está em queda. “O grande apoio dele é ser um presidente miliciano, ligado a um Estado paralelo. É um estado anti-institucional.” E que não deixa de executar suas “crueldades”. “A carteira verde e amarela é o principio do fim. Se a esquerda souber capitalizar a energia popular, poderá ter visão não instrumental, poderá não estar com eles só nas eleições.”

O sociólogo avalia que o maior partido de esquerda do Brasil não se recuperou do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, em 2016. “A demonização do PT foi de tal ordem, que quem não quer Bolsonaro, não quer Lula. Estão a tentar deslegalizar o PT”, afirma. “A Lava Jato quis destruir a economia brasileira concorrente dos Estado Unidos, e foi o que fez”, resume.

E sugere saídas. “Acho que a esquerda brasileira está numa situação muito complicada, para pensar o médio prazo. Por que não convocam grupos de cientistas para falar à sociedade?”, questiona, ponderando que por outro lado há uma extrema direita desacreditada como forma de governo.

Esses são alguns dos pensamentos que reúne para seu novo livro, O Futuro Começa Agora – ainda em fase de produção. Nesta sexta, em videoconferência promovida pela editora Boitempo, apresentou A Cruel Pedagogia do Vírus.

Sua obra prevê novos tempos de muita agressividade. “As lutas sociais vão se agravar. (Conhecer) As histórias das pandemias é fundamental, foram usadas para destruir os índios por exemplo.” Para ele, os senhores da crise não admitirão que o neoliberalismo terminou e farão tudo para que, passada esta pandemia, tudo fique como está.


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