Recado ao governo

Desmentido por OMS e até por aliados, Bolsonaro será alvo de novo panelaço

OMS reafirma defesa de isolamento e de que o Estado proteja os mais frágeis. Movimentos marcam panelaço e Bolsonaro fala em cadeia

Reprodução
Bolsonaro e Ghebreyesus: governo brasileiro tenta distorcer declaração da OMS

São Paulo – Está anunciado para as 20h30 desta terça-feira (31) mais um pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro. Em sua última apresentação em cadeia nacional de emissoras, Bolsonaro falou por quatro minutos e foi duramente criticado por amplos setores da sociedade, de opositores a aliados. Hoje, a informação é de que falará por oito minutos. Por essa razão, no mesmo horário, das janelas de todo o país deve ecoar um forte panelaço, possivelmente o maior desde o início da crise de desgoverno em que o presidente atola o Brasil.

O barulho é convocado pelas frentes Brasil Popular e Povo sem Medo, movimentos sociais, estudantis, sindicatos de trabalhadores e ativistas digitais independentes. O pronunciamento de Bolsonaro foi anunciado depois da convocação do panelaço.

Os movimentos exigem que o presidente sancione rapidamente o pagamento do auxílio emergencial de R$ 600 a R$ 1.200, aprovado pelo Congresso sem nenhum voto contrário. E que precisa chegar urgentemente a famílias mais vulneráveis aos efeitos da pandemia de coronavírus na saúde e na economia. A hashtag #PagaLogoBolsonaro subiu no Twitter logo depois de o Senado ratificar a aprovação do benefício, ontem (30).

Há uma expectativa geral de que a ida de Bolsonaro à cadeia nacional de emissoras agrave a crise de comando em meio à pandemia. O presidente tem defendido que as pessoas saiam do isolamento para trabalhar. Chegou a apresentar uma versão de que a Organização Mundial de Saúde (OMS) apoia sua posição. Um apoio que não encontra em seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e já o afasta de colegas mais próximos, como Paulo Guedes (Economia) e Sergio Moro (Justiça).

Desmentido da OMS

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, usou as redes sociais nesta terça-feira para responder a Bolsonaro. Depois que Ghebreyesus deu entrevista coletiva ontem, em Genebra, convocando os países a se ocupar dos mais pobres durante a crise, o governante brasileiro sustentou na entrevista da manhã de hoje que o líder da OMS havia se posicionado contra o isolamento e que as pessoas têm de sair de casa para trabalhar, contrariando a orientação das autoridades de saúde, do país e do mundo.

“As pessoas sem renda regular ou qualquer colchão financeiro merecem políticas sociais que garantam a dignidade e lhes permitam cumprir as medidas de saúde pública, recomendadas pelas autoridades nacionais de saúde”, afirmou o diretor-geral da OMS. “Eu cresci pobre e entendo essa realidade. Exorto os países a desenvolver políticas que forneçam proteção econômica para pessoas que não podem ganhar ou trabalhar em meio à pandemia de # COVID19. Solidariedade! #coronavirus”, afirmou ainda Ghebreyesus, em recado claro ao governo brasileiro.

“Vocês viram o presidente da OMS ontem?”, perguntou Bolsonaro em sua tentativa de adotar o africano como aliado – Ghebreyesus é etíope. “O que ele disse, praticamente, em especial com os informais, têm que trabalhar. O que acontece? Nós temos dois problemas: o vírus e o desemprego. Não podem ser dissociados, temos que atacar juntos”, afirmou o presidente.

Mas o que o diretor da OMS defendeu não é que as pessoas que não têm renda garantida voltem a trabalhar. Sua mensagem foi de solidariedade, responsabilidade dos governos com a promoção de políticas públicas voltadas à crise, e em favor da segurança alimentar, para que o problema da doença não seja mais um vetor de fome no mundo.

A insistência de Bolsonaro em bater de frente com a necessidade de isolamento social para combater o coronavírus está levando-o ao isolamento político.

Segundo reportagem de Igor Gielow na edição de hoje do jornal Folha de S.Paulo, Bolsonaro chegou a chorar em ocasião recente “ante interlocutores no Palácio do Planalto que não faziam parte de seu círculo mais íntimo”. E teria pedido apoio de militares para fazer frente ao isolamento.