Direitos humanos

Maria do Rosário: perigo do fascista é ele convencer que a violência é natural

“Nunca fizemos uma justiça de transição. O Brasil não puniu os crimes de tortura e agora os torturadores estão no poder”, diz deputada no Entre Vistas

Michel Jesus/Câmara dos Deputados
Sobre Damares Alves: "o ministério é dirigido por uma mulher, mas a política não é de direitos humanos, é de opressão"

São Paulo – “Acredito em manifestação muito grande (no dia 8 de março), mas a gente não pode mais medir a mobilização social só pelo número de pessoas nas ruas. Existe uma mobilização que não está nas ruas.”  A avaliação é da deputada federal Maria do Rosário (PT-RS), no programa Entre Vistas, que vai ao ar nesta quinta-feira (5), às 22h, na TVT. Exemplo significativo, segundo ela, foi o carnaval de 2020. “Quantos milhões foram às ruas com uma agenda demolidora sobre o que significa o governo Bolsonaro!”, observa.

Para a parlamentar e ex-ministra da Secretaria de Direitos Humanos, a violência que perpassa as relações no país hoje, e que ameaça qualquer cidadão, mas principalmente mulheres, negros e LGBTs, se relaciona a um aspecto histórico mal resolvido no Brasil.

“Nunca fizemos uma Justiça de Transição. O Brasil não puniu os crimes de tortura e agora os torturadores estão no poder”, diz. Com um grupo que prega a violência no comando do país, os cidadãos comuns se sentem incentivados a seguir o mesmo pensamento – e com ações . “Quando isso acontece no ambiente público, o ambiente privado é do poder machista, da violência, da quebra dos limites.”

Para ela, o presidente Jair Bolsonaro não é um caso patológico, como algumas pessoas definem. “Patológico se refere a um adoecimento. Estamos diante do autoritarismo mais vil e covarde. A agressão é o mote pelo qual esse senhor que ocupa a presidência da República se relaciona com o Brasil”, afirma.

Na opinião de Maria do Rosário, “o perigo do fascista é ele conseguir convencer, com sua atitude populista, que aquilo é natural, normal, que é o melhor, que está colocando ordem, e que todos os demais agredidos por ele é que estão fora do sistema. Ele é o próprio sistema”.  

Questionada pelo jornalista Juca Kfouri sobre a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, Rosário responde que “não basta ser mulher”. “Não carregamos o poder de princípios humanos da mesma forma. Hoje, o ministério é dirigido por uma mulher, mas a política não é de direitos humanos, é de opressão, violência contra as mulheres, retirada de direitos.”

Nesse ambiente, naturaliza-se a morte das mulheres, “com um discurso dentro do governo, seja da ministra, do presidente, dos apoiadores desse governo que constroem essa violência”. Os ataques de Bolsonaro às jornalistas Patrícia Campos Mello e Miriam Leitão são simbólicos do atual cenário de incentivo à violência no país.

Na opinião da deputada Lidice da Mata, (PSB-BA), relatora da CPMI das Fake News, os ataques contra jornalistas mulheres são uma “senha” para ameaças feitas de maneira generalizada.

Questionada por Kfouri sobre quanto tempo o país terá para resgatar o que se perdeu em direitos desde o impeachment de Dilma Rousseff para cá, Maria do Rosário se mostra cética.

“Talvez haja questões que a gente não vai conseguir resgatar.” Segundo ela, alguns destes pontos estão relacionados à estrutura do Estado brasileiro, à soberania, ao desmonte da Petrobras, à diversidade ambiental. “É de tal forma destrutivo o que esse governo faz, que se esse governo continuar, estamos marcados para viver como colônia.”

Confira o Entre Vistas:


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