vírus ou economia?

Bolsonaro está acuado, mas sua reação custa vidas, diz professor da Unicamp

Para Oswaldo Amaral, governadores vão ter que reagir se população obedecer ao comando do presidente e sair às ruas

Eduardo Maretti
Comércio de São Paulo em grande parte fechado nesta sexta-feira, apesar de comando irracional de Bolsonaro

São Paulo – A aprovação, pela Câmara dos Deputados, na quinta-feira (26), do projeto de lei que garante renda emergencial para a parcela da população mais vulnerável à pandemia do coronavírus, representa inegável diminuição de poder do presidente Jair Bolsonaro e o grupo palaciano que o cerca, incluindo seus filhos. “Isso é indiscutível. O Congresso e os governadores conseguiram pressioná-lo”, afirma Oswaldo Amaral, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Embora o presidente da República tenha o “poder da caneta” e com ele liberar recursos para políticas de combate a crises, Bolsonaro “perdeu qualquer capacidade de coordenação”.  

O que acontece no país é que, na conjuntura caótica na qual “o governo é incapaz de comandar iniciativas contra a crise”, formou-se um vácuo político, considerando o sistema presidencialista brasileiro.

“Administrar tudo isso está além da capacidade do governo. Quando digo governo me refiro basicamente à presidência da República, seu entorno palaciano e o ministério da Economia. Nesse quadro, obviamente, alguém toma a frente. O poder detesta o vazio, como como diria o velho Ulysses Guimarães”, destaca Amaral.

O isolamento de Bolsonaro é claro. Diante das recorrentes atitudes irracionais e fanáticas do presidente da República, na quarta-feira (25), 26 governadores do país realizaram uma reunião virtual da qual só não participou Ibaneis Rocha, do Distrito Federal. O encontro aconteceu no dia seguinte ao pronunciamento do presidente na terça, que deixou as lideranças políticas e o país perplexos ao voltar a classificar a covid-19 como “gripezinha” e a desdenhar das recomendações científicas e da Organização Mundial de Saúde. 

A atuação do Congresso e dos governadores mostra que Bolsonaro está acuado? “Ele está acuado. Mas se ele só estivesse acuado, tudo bem.  O problema é que a resposta dele custa vidas”, diz Amaral. Em sua opinião, os governadores vão ser obrigados a reagir se as pessoas obedecerem ao comando do presidente e saírem às ruas de cidades grandes, como São Paulo.

No mesmo dia da votação na Câmara que aprovou a renda emergencial, o governo voltou a incentivar a população a não aderir ao isolamento social, contrariando determinações científicas e sanitárias mundiais, desta vez oficialmente.

“Isso é um crime, é absolutamente irracional. E vai continuar acontecendo, até o momento em que os governos dos estados colocarem a polícia na rua e começarem a multar as pessoas. Porque a outra opção é morrer muita gente, o que os governadores não vão querer bancar”, diz Amaral.

A sociedade se pergunta: diante desse quadro, qual seria a saída política? O analista da Unicamp observa que a tarefa de tirar o presidente de seu cargo não é fácil. “O que as lideranças estão tentando fazer é isolar o presidente. Porque  o impeachment é um processo demorado.” Na atual conjuntura de crise, o Congresso Nacional gastaria enorme energia no processo.

“Mas a questão é que não sei até que ponto esse cálculo ainda faz sentido hoje. Bolsonaro continua com suas práticas. Talvez o consenso para forçar uma renúncia ou abrir um processo de impeachment esteja aumentando”, pondera Oswaldo Amaral. “Pode-se perguntar: não seria melhor entreter Bolsonaro, fazê-lo brigar contra um pedido de impeachment, do que ele continuar? Talvez esse seja um cálculo que começa a ser feito.”

O outro lado da moeda é que, a favor de Bolsonaro, a crise obriga justamente que as pessoas fiquem em casa. Não há movimento de rua.  O presidente da República conta ainda com alternativas extra-institucionais que poderiam levar o país de fato ao caos social e à conflagração. É o caso dos caminhoneiros, que ameaçam parar para forçar governadores e prefeitos a reabrir o comércio.

Pesquisa científica

O professor da Unicamp menciona um estudo científico realizado conjuntamente pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (Massachusetts Institute of Technology – MIT, em inglês) e pelo Federal Reserv (o banco central americano) cujo objeto é a pandemia de gripe espanhola em 1918 nos Estados Unidos.  

Segundo a pesquisa, as cidades que intervieram mais rapidamente e de forma mais agressiva contra a pandemia não apresentaram desempenho econômico pior.  Ao contrário: crescem mais rapidamente depois que a pandemia acaba. Em outras palavras: as intervenções não apenas reduzem a mortalidade como diminuem as consequências econômicas nefastas de uma pandemia.

O que o governo Bolsonaro defende, contra o isolamento, as pesquisas e as recomendações de especialistas de todo o mundo, “é uma mentira, uma falácia, uma brincadeira com a população”, segundo Oswaldo Amaral. “Dependendo do número de pessoas que morrerem, será um genocídio.”