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Mudanças no governo ‘militarizam’ o Planalto

Presidente fez novas trocas hoje, ampliando presença militar no Palácio do Planalto

Fernando Frazão/Agência Brasil
Levantamento mostra pelo menos 2.500 militares em órgãos governamentais. Eles também respondem por um terço do ministério

São Paulo – Com mudanças anunciadas no final da tarde desta quinta-feira (13), o governo Bolsonaro terá em seu núcleo, no Palácio do Planalto, apenas ministros militares. Entre os civis, hoje o presidente anunciou que Osmar Terra sai do Ministério da Cidadania, sendo substituído por Onyx Lorenzoni. Este deixa a Casa Civil, como já se especulava, para dar vez ao general Walter Souza Braga Netto, que atualmente é chefe do Estado-Maior do Exército e comandou a intervenção militar no Rio de Janeiro.

Ironicamente, nem no período mais agudo da ditadura, no governo Médici, a pasta da Casa Civil, então chamada Gabinete Civil, foi ocupada por um militar. Na época, o titular era o jurista Leitão de Abreu.

No Gabinete de Segurança Institucional, está o também general Augusto Heleno. Na Secretaria de Governo, outro general, Luiz Eduardo Ramos, que substituiu um colega de patente, Carlos Alberto dos Santos Cruz – dispensado após atritos com o “guru” Olavo de Carvalho. Só não veio do Exército o secretário-geral da Presidência da República, Jorge Oliveira, major da reserva da Polícia Militar do Distrito Federal. E o vice-presidente é o general da reserva Hamilton Mourão.

Onyx vinha tendo funções esvaziadas em sua pasta. Agora, assume a Cidadania, pasta responsável pelo Bolsa Família e que nos últimos dias apareceu no noticiário por contratação uma empresa suspeita de ser “laranja” para desvio de recursos. Na semana passada, Bolsonaro já havia mexido no Ministério do Desenvolvimento Regional (que cuida do programa Minha Casa Minha Vida), pondo Rogério Marinho no lugar de Gustavo Canuto – Marinho, que ocupava a secretaria especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia, foi autor do substitutivo da “reforma” trabalhista e comandou a tropa para aprovar a “reforma” da Previdência, no ano passado.

Levantamento do jornal Folha de S.Paulo, divulgado em outubro, mostra ampliação da presença militar no governo. Havia pelo menos 2.500 militares em cargos de chefia ou assessoramento, conforme dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação. Eles também respondem por aproximadamente um terço do ministério.

Reportagem da emissora alemã Deutsche Welle também aponta crescimento da presença militar no aparelho estatal, com efeitos financeiros. “Facilitou-se a entrada deles na política. Eles recebem um adicional de 30% sobre seus soldos ou pensões. A rigor, isso deveria ser desnecessário. Assim como as autoridades judiciais, os militares de alta patente estão entre os funcionários públicos altamente privilegiados que continuam a receber vencimentos obscenamente altos mesmo após a aposentadoria”, avalia o jornalista Alexander Busch, correspondente de América do Sul para diversos veículos alemães.

Para Busch, provavelmente muitos militares não teriam mudado para cargos civis sem incentivos financeiros. “Porque o presidente – que no final de sua breve carreira militar por pouco escapou de ser exonerado do Exército com desonra – trata seus antigos superiores como se fossem moleques de escola. Quem faz qualquer crítica discreta é substituído. Bolsonaro quer receptores e executores de ordens totalmente submissos.”