nada mudou

Mídia esconde caso envolvendo irmão de Bolsonaro, aponta cientista política

Renato Bolsonaro, sem cargo público, atua como lobista e faz intermediação de verbas do governo federal e prefeituras. "O combate à corrupção é seletivo por parte da imprensa", diz professora da PUC-SP Rosemary Segurado

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De acordo com a Folha de S.Paulo, foram mais de R$ 110 milhões repassados pelo governo federal aos municípios, após a atuação de Renato Bolsonaro

São Paulo – O governo Jair Bolsonaro não cumpre o que prometeu durante a sua campanha, em 2018, e manteve o tal “toma lá dá cá”. Na análise de Rosemary Segurado, cientista política e professora da PUC-SP e da Fespsp, a denúncia de que Renato Bolsonaro, irmão do presidente, tem atuado como lobista para intermediar verbas do governo federal e atender demandas de prefeitos mostra a falta de transparência da atual gestão.

Apesar de a matéria ter sido publicada pela Folha de S.Paulo, a especialista critica a falta de repercussão do caso pelo restante da mídia tradicional. “Ele se dizia a nova política, mas vemos que não é bem assim. E a cobertura jornalística colaborou com o golpe de 2016, dizia defender a transparência e atacava a corrupção, mas se silencia sobre esses fatos envolvendo a família Bolsonaro. O combate à corrupção é seletivo por parte da imprensa”, disse em entrevista aos jornalistas Glauco Faria e Nahama Nunes, da Rádio Brasil Atual.

Sem cargo público, o irmão de Bolsonaro participa de solenidades de anúncio de obras, assina como testemunha contratos de liberação de verbas, discursa e recebe agradecimentos públicos de prefeitos pela ajuda no contato com a gestão federal. De acordo com a Folha, foram mais de R$ 110 milhões repassados aos municípios, após a atuação de Renato.

Conselho da Amazônia

O presidente Jair Bolsonaro informou, na última terça-feira (21), que determinou a criação do Conselho da Amazônia e de uma Força Nacional Ambiental, que atuará na “proteção do meio ambiente da Amazônia”. O anúncio foi feito um dia após o ministro da Economia, Paulo Guedes, responsabilizar as populações mais pobres pelo impacto ambiental, com repercussão negativa no mercado.

Bolsonaro informou ainda na publicação que o vice-presidente Hamilton Mourão será o coordenador do conselho. “Colocar o ministro Mourão é mostrar que os militares irão supervisionar o meio ambiente e o conselho, onde nem sabemos se os verdadeiros defensores da proteção ambiental participarão. Os militares, que já predominavam no governo Bolsonaro, ficam mais fortalecidos”, acrescenta Rosemary.

A política ambiental se tornou foco de atritos para Bolsonaro ao longo de seu primeiro ano de governo. O presidente brasileiro protagonizou embates com ONGs, demitiu pesquisadores e foi alvo de críticas por parte de políticos estrangeiros, como o presidente francês Emmanuel Macron e a chanceler alemã Angela Merkel, pela falta de ação contra os incêndios na Amazônia.

Reverenda Jane Silva

Rosemary Segurado comentou também a indicação feita pela atriz Regina Duarte, cotada como nova secretária de Cultura, para o o cargo de secretária-adjunta da pasta: a atual secretária de Diversidade Cultural da Secretaria Especial da Cultura, Janicia Silva, conhecida como reverenda Jane por ser pastora evangélica.

Jane Silva é ainda presidente de uma empresa batizada como Associação Cristã de Homens e Mulheres de Negócios, fundada em 1996. O nome da secretária também aparece na sociedade da agência de viagens JS Publicidade Turismo e Viagens LTDA que não está mais em atividade.

Para a cientista política, o posicionamento de Regina Duarte mostra que, ao contrário do que parte da classe artística imaginava, a atriz não abrirá dialogo. “A Regina Duarte, para a geração mais antiga, é carismática, com imagem de boa moça. Alguns setores da cultura vão achar menos pior, mas ao indicar a reverenda, ela mostra que não vai mexer em coisa alguma ou abrir diálogo com a classe artística. Colocar a Regina Duarte é estratégico para o governo, mas nada positivo para o setor artístico”, critica.

Ouça a entrevista na íntegra