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Lula: ‘Quem se preocupa com 800 milhões de pessoas que passam fome no mundo?’

Em seminário sobre a desigualdade, ex-presidente defendeu a criação de uma agenda ampla em busca de justiça social

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"É preciso que o avanço tecnológico tenha uma finalidade coletiva. Sou favorável ao ser humano continuar a ter sentimento, ser solidário, estender a mão"

São Paulo – O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou hoje (31) de seminário que discutiu a desigualdade social no país. Em pauta, pensamentos e formulação de ações para combater o cenário de extrema desigualdade que vem se agravando exponencialmente em todo o mundo, especialmente no Brasil. Em 2018, de acordo com dados do IBGE, o 1% mais rico dos brasileiros teve ganho médio mensal de R$ 27.744. Já os 50% mais pobres ganharam R$ 820.

“Ando muito inquieto (…) Minha preocupação é saber quem é que se preocupa com as 800 milhões de pessoas que ainda passam fome no mundo. Mesmo sabendo que o mundo produz alimento suficiente. Como um socialista, um comunista vai dormir sabendo que tem uma criança na rua dele que não tomou um copo de leite?”, disse o ex-presidente. Para Lula, é essencial que o tema da desigualdade seja público, que todos saibam da gravidade do problema, que “a fome não seja apenas estatística”.

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Participaram do debate, promovido por PT, TV 247, Fundação Perseu Abramo e Instituto Lula, entre outros, o ex-ministro Aloizio Mercadante, o agrônomo José Graziano (ex-diretor-geral da FAO, o Fundo das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação), os economistas Tereza Campello e Eduardo Moreira, o sociólogo Jessé Souza, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad e a presidenta do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR).

Mercadante explicou que haverá uma série debates. “Temos o tema da desigualdade regional, territorial, racial e étnica, desigualdade por faixa etária, desigualdade por gênero. Temos também a desigualdade no acesso à educação, à saúde pública, à justiça. É uma agenda inadiável”, disse.

Para o ex-ministro (Educação e Ciência e Tecnologia), é preciso as forças progressistas abraçarem o tema. “A direita, historicamente, sempre tentou usar a corrupção para não discutir desigualdade, pobreza e exclusão social. Não podemos perder o eixo fundamental do país que é essa brutal pobreza. Temos 13 milhões de pessoas vivendo com menos de cinco reais por dia. Temos 3 milhões vivendo com menos de três reais por dia. São Paulo tem 24 mil pessoas em situação de rua.”

Questão de narrativa

Para a presidenta do PT, a discussão sobre o tema passou por uma manipulação de forças da direita conservadora, que detém grande parte da riqueza e que se beneficia da desigualdade, com a pobreza da maioria. “O Estado é alocador de riquezas e, por isso, tão atacado pela direita. Estado mínimo, desestruturado. Hoje, os pobres não estão vendo os ricos como os que exploram, e sim o Estado. Perdemos essa narrativa. Vamos ter que reconquistá-la”, disse Gleisi.

O ex-candidato a presidente Fernando Haddad disse são ser possível desconsiderar os efeitos da mudança na concentração de renda na política. “Temos que dialogar com setores conservadores refratários às mudanças estruturais. Precisamos consolidar um processo de desenvolvimento com amplo apoio social que não sofra rupturas. Precisamos explicar para que a sociedade aproprie.”

Lula defendeu o legado de 13 anos de governos petistas para a distribuição de renda, e lamentou o desconhecimento dos brasileiros sobre os avanços. “Fico preocupado que não tivemos competência ou capacidade de tentar fazer com que as pessoas conhecessem o que fizemos. Foi um conjunto de tantas pequenas políticas que fizeram com que o resultado aparecesse nos gráficos. Precisávamos governar com coração de mãe, dar o bife maior para o mais fragilizado”, disse.

Desumanização

É consenso e estatístico a piora na desigualdade social, especialmente no Brasil. Justamente o país que conseguiu criar um processo reverso, parte da população acabou se voltando contra os agentes que tiraram o Brasil do Mapa da Fome da ONU, por exemplo. “Eu vi nesse país pela primeira vez a luta de classes vir de cima pra baixo. Não era o pobre que estava incomodado com o rico, mas o rico que estava incomodado com a ascensão do pobre. Eles não aceitaram”, disse Lula. “Se inventou de dar 13º para empregada doméstica, dar férias. Criamos 20 milhões de empregos formais. Remamos contra a maré e ficamos demais”, completou.

“O Brasil cresceu muito de 1930 a 1980. Cresceu muito mas não houve distribuição de riqueza. No frigir de cada período, o que sobravam eram mais pobres e mais acúmulo de riquezas. Mesmo com o Brasil crescendo 10% ao ano. Conseguimos mostrar que um outro Brasil era possível. Não fizemos tudo que tínhamos que fazer, mas o que fizemos nem nós sabemos”, constatou o ex-presidente. “Costumam dizer que nosso governo foi um sucesso por conta do boom de commodities. Chegaram a dizer que o governo foi bom porque estabeleceu uma economia só de consumo. Na minha ignorância, quero ter um pouco de razão.”

A elite econômica teria agido com objetivo de manter e ampliar privilégios, ao mesmo tempo em que ocorre no planeta uma feroz alteração nos métodos de produção e no mundo do trabalho. Diante disso, Lula defende o papel do Estado como agente de distribuição.

“As coisas estão ficando piores. Se fala tanto em tecnologia, indústria 5.0, não precisa mais de trabalhador para produzir carro, para dirigir carro. Estamos criando uma sociedade de algoritmos e de seres humanos desumanizados. É preciso que o avanço tecnológico tenha uma finalidade coletiva. Sou favorável ao ser humano continuar a ter sentimento, ser solidário, estender a mão.”

Assista à íntegra do seminário

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