Truculento

Bolsonaro se destaca em produzir adversários e pode entrar em rota de colisão com Moro

Segundo cientista político, tentativa de esvaziar os poderes do ministro da Justiça acabou saindo pela culatra. Condução errática do governo no Congresso também deve fortalecer Maia e Alcolumbre

Marcos Corrêa/PR
Menos "estúpido e agressivo", Moro tem mais condições de avançar sobre o centro, segundo Cláudio Couto (FGV-SP)

São Paulo – O mais recente episódio que quase colocou o presidente Jair Bolsonaro em rota de colisão com o ministro da Justiça, Sergio Moro, o mais popular integrante do seu governo, mostra que ele tem especial capacidade de produzir adversários políticos, em vez de aliados. Segundo o cientista político Cláudio Couto, professor da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP), o presidente é “paranoico” em relação àqueles que enxerga como eventuais concorrentes nas próximas eleições.

“Ao criar conflitos, em vez de consolidar um arco de alianças, o que ele faz é criar adversários. Em vez de ver em Moro um aliado para a sua  reeleição em 2022, o que conseguiu produzir foi um provável adversário”, afirmou Cláudio ao jornalista Glauco Faria, em entrevista no Jornal Brasil Atual desta segunda-feira (27). Ele citou como exemplo a demissão do secretária-geral da Presidência, Gustavo Bebianno que, de um dos mais próximos aliados, se tornou opositor do governo.

Durante a semana, Bolsonaro chegou a cogitar retirar de Moro as atribuições da sua pasta sobre a Segurança Pública, recriando o ministério que foi fundido com a chegada do ex-juiz. Diante da repercussão negativa junto aos partidários do “lavajatismo”, Bolsonaro recuou e disse ser “zero” a chance de recriar o ministério. Deixou, contudo, a porta aberta para uma eventual retomada da decisão, alegando que “em política, tudo pode mudar”.

Segundo Couto, Moro pode vir a ser um candidato “espaçoso”, ocupando desde as franjas da extrema-direita bolsonarista, passando pela direita, até setores do chamado “centro”, que ainda o enxergam como suposto “paladino” do combate à corrupção. O analista afirmou que uma eventual candidatura do ministro pode criar problemas para nomes como o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), e o apresentador Luciano Huck, que também almejam participar da próxima disputa presidencial. “Ele não tem esse estilo tão estúpido e agressivo. Moro é mais capaz de dialogar com o centro em busca de uma certa agregação”, destacou.

Agenda parlamentar

Essa capacidade do presidente de “produzir conflitos e cisões”, segundo Couto, deve criar novos problemas para o governo ver aprovadas as pautas de seu interesse no Congresso Nacional. Os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), devem gozar de grande protagonismo, frente à falta de habilidade do governo na articulação política. “Hoje, se for aprovada uma reforma tributária, por exemplo, uma coisa aclamada por diversos setores do país há muitos anos, a tendência é que seja muito mais uma reforma vinda do Congresso do que uma proposta apresentada pelo Executivo”.

Conservadorismo religioso

Um trunfo do presidente, avalia o cientista,  é a sua aliança com setores religiosos por conta da sua pauta conservadora nos costumes. Ele comparou Bolsonaro com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, que também congrega o apoio de grupos religiosos conservadores. Esse modelo também se estende a nomes como o presidente da Turquia, Recep Erdogan, do primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, dentre outros líderes mundiais.

“Não se trata de uma religiosidade calcada numa única denominação, mas pega tudo aquilo que a gente pode chamar de religiosidade tradicional. Um tradicionalismo do ponto de vista de valores. São valores muito conservadores, até mesmo reacionários. E que produz uma certa simbiose nesses grupos”, afirma.

Couto afirma que a pauta dos costumes deve estar presente nas eleições municipais deste ano, mas que apesar da proximidade de Bolsonaro com tais grupos, pode não tirar o proveito, devido a inexistência de um partido político estruturado. O grupo do presidente corre contra o tempo para colocar de pé o Aliança pelo Brasil, mas a legenda não deve estar pronta para a disputa municipal deste ano. Para o campo progressista, a dificuldade de lidar com temas como a legalização do aborto também devem prevalecer na avaliação do cientista político.

Confira a entrevista na íntegra

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