Íntimas relações

Envolvimento da família Bolsonaro com a milícia não pode ser naturalizado, diz cientista político

Vitor Marchetti avalia que investigações que rondam o presidente e seus filhos podem apontar provas do envolvimento em crimes cometidos por milicianos

Isac Nóbrega/PR
Governo Bolsonaro deve enfrentar dificuldades nas ruas, no Congresso e na Justiça nos próximos meses

São Paulo – Para o cientista político Vitor Marchetti, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), o relacionamento da família do presidente Jair Bolsonaro com a milicia no Rio de Janeiro ainda não produziu a devida reação popular. As investigações do assassinato da vereadora Marielle Franco e do esquema de “rachadinha” no gabinete de Flávio Bolsonaro quando ainda era deputado estadual no Rio de Janeiro pode revelar o envolvimento da família presidencial com crimes cometidos por milicianos.

“A questão a saber é a seguinte: dessa relação com os milicianos, quais crimes podem ser imputados ou tiveram a participação e envolvimento da família Bolsonaro? A sua relação com as milícias não resta dúvida. E aparentemente essa relação não produziu o estarrecimento que a gente imaginava que deveria produzir”, afirmou o analista às jornalistas Marilu Cabañas e Nahama Nunes, para o Jornal Brasil Atual, nesta quarta-feira (18).

Também hoje,  ex-assessores de Flávio Bolsonaro foram alvo de mandados de busca e apreensão que fazem parte de investigação sobre lavagem de dinheiro e desvio de dinheiro público.  O Ministério Público foi até o endereço do ex-policial militar Fabrício Queiroz e de parentes de Ana Cristina Siqueira Valle, ex-esposa de Bolsonaro – e mãe de Flávio, Carlos e Eduardo. Queiroz é suspeito de comandar esquema de “rachadinha” no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Pelo gabinete, também passaram parentes de milicianos.

Obstrução

Já na terça-feira, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o arquivamento de dois pedidos – um do PT e outro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) – para que o presidente Jair Bolsonaro e o vereador Carlos Bolsonaro (sem partido-RJ) respondessem por obstrução de Justiça no caso que investiga a morte da vereadora Marielle Franco (Psol). Ambos reconheceram que tiveram acesso aos dados da portaria do Condomínio Vivendas da Barra, onde também morava o ex-policial militar Ronnie Lessa, acusado de cometer o assassinato.

“Há indícios de que o gabinete do então deputado servia de espaço para  essas pessoas que têm protagonismo nas milícias do Rio de Janeiro. Isso não é especulação. Não precisa muita investigação para mostrar que a ligação é umbilical dos Bolsonaro com as milícias do Rio. Tem várias histórias de medalhas que foram concedidas a milicianos, fotos tiradas em momentos íntimos com milicianos”, destacou Marchetti.

Já sobre o arquivamento do inquérito de obstrução de Justiça, ele diz que essa ação aponta o “aparelhamento” dos órgãos de investigação, do ministério da Justiça, comandado por Sergio Moro, e até mesmo do STF. O ministro Alexandre de Moraes acatou pedido do procurador-geral da República, Augusto Aras, que foi nomeado pelo presidente. Segundo o professor, a decisão pelo arquivamento do caso aponta para a necessidade de “encobrir” possíveis indícios do envolvimento da família presidencial com o assassinato de Marielle.

Insatisfação

Além do envolvimento com milicianos, Marchetti avalia que o baixo crescimento econômico, somado à deterioração das condições de trabalho da maioria da população, devem conduzir a uma piora ainda maior na avaliação pessoal do presidente e de seu governo. Bolsonaro já é o presidente com o menor nível de apoio no primeiro ano de mandato, desde a redemocratização, segundo diversas pesquisas de opinião.

“Os insatisfeitos ainda não foram às ruas se queixar do governo, esta também é uma verdade”, diz o cientista político. “Os insatisfeitos ainda não se organizaram, mas acredito que nos próximos três anos, a manter esse cenário, a tendência é que comecem a produzir algo mais orgânico. O governo vai enfrentar bastante dificuldade em termos de mobilização e resistência, além de  pressões sobre o Parlamento para impedir a continuidade de sua agenda.”

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