Entrevista

Enio Verri: quando a população entender motivos da crise, situação do Bolsonaro vai piorar muito

Deputado do Paraná, que será o líder do PT na Câmara em 2020, defende "construir a união das esquerdas desde já", pensando nas eleições municipais e em 2022

Luis Macedo/Câmara dos Deputados
"Bolsonaro toda vida foi assim, o limite intelectual dele é gigantesco", afirma parlamentar

São Paulo – Escolhido para ser o líder do PT na Câmara em 2020, para ocupar o posto hoje de Paulo Pimenta (RS), o deputado federal Enio Verri (PR) defende uma unidade da esquerda brasileira em duas mãos. O PT estaria disposto a compor uma aliança com Marcelo Freixo (Psol) pela prefeitura do Rio de Janeiro, ou com Manuela d’Ávila (PCdoB), em Porto Alegre – ela aparece liderando pesquisa de intenção de voto do Instituto Methodus, divulgada em outubro pelo jornal Correio do Povo.

“Essa unidade se faz olhando por exemplo para o Rio de Janeiro, no caso do Freixo, ou Porto Alegre, no  caso da Manuela d’Ávila. Mas também queremos que  o Psol e o PCdoB olhem realidades nossas, para que possamos construir alianças onde o PT tem bons candidatos, para que eles também nos apoiem. Essa é a ideia de uma grande aliança de uma frente de esquerda”, diz Verri. “Reconhecer Rio, Porto Alegre, como espaços importantes do Psol e do PCdoB, mas também que eles nos reconheçam em outras cidades, para que possamos trabalhar juntos.”

Manuela já manifestou interesse em disputar a prefeitura da capital gaúcha, e Freixo deve ser o candidato do Psol no Rio, apesar de sua disposição em compor com o PT ter causado insatisfações no partido local. Freixo defende uma frente de esquerda para combater o avanço da extrema direita.

No contexto da Câmara dos Deputados, “a esquerda está unida”, avalia Verri. “Claro que cada partido tem sua característica. Se todos pensássemos igual, estávamos em um partido só. Se você pegar as principais votações da Câmara, a esquerda tem lutado junto”, afirma. “Se você pegar PT, PCdoB, Psol, PDT, PSB e Rede, temos conseguido construir um diálogo muito bom. Na Câmara o diálogo da esquerda avança.”

Para o futuro líder petista, com um “limite intelectual gigantesco”, o presidente Jair Bolsonaro “faz o jogo da fumaça, do circo”, por exemplo ao se referir ao educador Paulo Freire como “energúmeno”. “Ele faz um discurso só para a base dele, aqueles 17%, segundo pesquisas, que acham que tudo o que ele fala é verdade. A análise dele não é para o povo brasileiro, é para no máximo 30% que são próximos a ele, que poderiam lhe garantir a ida ao segundo turno em 2022.”

Na opinião de Verri, o “discurso fascista, ultrapassado” do presidente da República começará a não surtir efeitos quando a população começar a entender que os motivos da crise e do desemprego são consequências das políticas do governo. “A situação do Bolsonaro vai piorar muito, porque boa parte das pessoas que votam nele são as que estão sendo empobrecidas pelas políticas econômicas”, diz o deputado.

Você assume a liderança em 2020 com alguns desafios, como trabalhar pela unidade da esquerda e pautas como a reforma tributária. Sobre o primeiro ponto, se tanto se fala da necessidade de unir a esquerda, é porque ela não está unida?

Olhando sob a lógica da Câmara dos Deputados, a esquerda está unida. Claro que cada partido tem sua característica. Se todos pensássemos igual estávamos em um partido só. Se você pegar as principais votações da Câmara, a esquerda tem lutado junto. Claro que tem diferença: alguns partidos mais de centro-esquerda, outros mais de esquerda, mas se você pegar PT, PCdoB, Psol, PDT, PSB e Rede temos conseguido construir um diálogo muito bom. Na Câmara o diálogo da esquerda avança. Claro que às vezes temos dificuldades em alguns pontos.

A grande questão é como transformar essa força que temos na Câmara também para nossos partidos fora. Por exemplo, o PDT vota muito próximo da gente, mas temos divergências, com o Ciro, que nos ataca de forma muito incisiva.

É viável que Lula e Ciro dialoguem?

Espero que esse diálogo exista, e se não existir não é por causa do Lula. Quando você ouve o Lula falar, sempre é em nome do diálogo, em nome da construção da união da esquerda. Quem destoa no discurso é o Ciro, não somos nós. O PDT tem tido uma posição muito progressista nos estados, nossa relação no Nordeste é muito boa e na Câmara é ótima. Por isso, vejo espaço para construir esse diálogo. No caso do PDT, se não conseguirmos isso no primeiro turno (de 2022), pelo menos que a gente consiga viabilizar num possível segundo turno. Mas o ideal é que consigamos construir a união das esquerdas desde já, no dia a dia. Na luta é que se faz a unidade.

E 2020?

Em 2020 claro que vamos procurar conversar com todos os partidos de esquerda, construir frentes, mas uma eleição municipal tem muitas questões regionais. Mesmo no caso do PT, um partido de caráter nacional, sempre tem um ou outro problema local. Vamos trabalhar de todas as maneiras para estarmos juntos. O melhor exemplo disso foi o ato ontem no Rio de Janeiro. Teve uma demonstração de que podemos trabalhar juntos com o Psol, na candidatura do Freixo à prefeitura do Rio.

Freixo falou no evento da necessidade de unidade (“Temos o compromisso de unificar todo o campo progressista”, disse o deputado carioca no Circo Voador).

Claro, e essa unidade se faz olhando por exemplo para o Rio de Janeiro, no caso do Freixo, olhando Porto Alegre, no  caso da Manuela d’Ávila. Mas também queremos que  o Psol e PCdoB olhem realidades nossas, para que possamos construir alianças onde o PT tem bons candidatos, para que eles também nos apoiem. Essa a ideia de uma grande aliança de uma frente de esquerda. Reconhecer Rio, Porto Alegre, como espaços importantes do Psol e do PCdoB, mas também que eles nos reconheçam em outras cidades, que possamos trabalhar juntos.

A Câmara hoje tem a composição talvez mais conservadora desde a redemocratização. O governo tem maioria para aprovar suas pautas, como mostrou o caso da reforma da Previdência. Se a oposição tem cerca de 140 votos, como combater essa maioria ampla do governo?

O PT é a maior bancada da Câmara. O PSL, com a divisão, deve ficar em terceiro ou quarto. O nosso tamanho  nos permite ter uma presença maior na Câmara. Mas temos um trabalho a fazer coletivamente. Com a liderança da minoria, com a Jandira Feghali (PCdoB-RJ), e da oposição, com Alessandro Molon (PSB-RJ), trabalhamos juntos.

Você tem razão, temos 140 deputados, no máximo. Depende da pauta. Quando é muito anti-Brasil, a gente chega a 170 votos. Temos os votos independentes dos partidos do Centrão que se aproximam da gente. Mas temos conseguido, graças a esse trabalho unificado, criar ‘redução de danos’, vamos chamar assim. Da reforma da Previdência que veio para a que foi aprovada foi diminuído muito o impacto. A capitalização não passou, a questão da trabalhadora do campo. Reduzimos muita coisa ruim. A nossa tarefa é manter a esquerda unificada, mas também um diálogo pontual com o Centrão em agendas excessivamente anti-Brasil.

A chamada Lei Anticrime, que tinha aqueles exageros, licença para matar, conseguimos retirar isso. Com bom diálogo e unificação da oposição é possível, senão avançar,  pelo menos reduzir danos, o que já é uma conquista num momento tão difícil como esse.

Como é o diálogo com Rodrigo Maia?

Ele é literalmente um liberal. O diálogo é positivo. Não quer dizer que ele pense como nós. Como um liberal, ele é liberal nos costumes – e isso nos aproxima em algumas pautas – mas é absolutamente conservador na questão econômica, o que nos afasta. Até porque o Rodrigo Maia teve papel fundamental em toda essa pauta econômica aprovada da qual discordamos. Mas temos que reconhecer que ele é aberto ao diálogo, o que como presidente é fundamental, respeita o regimento, a construção de acordos. Mas não temos esperança de que venha a votar conosco no campo da esquerda e centro-esquerda. Nunca foi o perfil dele.

Como recebeu o anúncio do Davi Alcolumbre (presidente do Senado) e Maia sobre a criação da comissão mista da reforma tributária, já que a oposição apresentou na comissão da Câmara uma proposta de “reforma solidária”?

A posição do PT, na Câmara e no Senado, é contrária a ter uma comissão mista em pleno recesso. Isso afasta o debate. Uma comissão como essa tem o papel de trazer pessoas que pensam diferente para o debate para que os deputados cheguem a uma conclusão. Se faz isso no recesso, é só para contar prazo, porque não vai resolver nada.

Mas achamos que isso não atrapalha o processo porque na Câmara temos um acúmulo de muitos debates e seminários. Apresentamos como proposta da oposição a reforma tributária solidária, e caso a comissão mista passe a existir a partir de 1° de fevereiro, quando começa o ano legislativo, vamos levar a proposta de reforma  e nossas emendas para essa comissão e aprofundar o debate. Nossa proposta é baseada em experiências internacionais e incentiva a tributação sobre renda e patrimônio e diminui sobre o consumo. Não será fácil avançar, até pelo perfil do Congresso, hoje muito conservador e ligado ao grande capital. Mas caso a gente não consiga passá-la integralmente, estou convencido de que boa parte de nossas emendas serão aprovadas.

Alcolumbre disse que a comissão mista seria instalada hoje (19).

Na verdade, a secretaria da liderança do PT não recebeu nada até agora. Não fomos oficialmente notificados de nada. Só se isso ocorrer durante até amanhã, o último dia antes do recesso. Caso sejamos notificados, vamos manifestar nosso descontentamento com essa decisão do Alcolumbre e do Rodrigo Maia.

Analistas dizem que Bolsonaro não dialoga com o Congresso, que despreza os políticos e a política, mas no entanto tem conseguido passar pautas como a da Previdência. Como vê isso?

Bolsonaro tem um ministro que representa o interesse dos bancos. As pautas do Paulo Guedes, todas horríveis, com redução de direitos, isenção para grandes empresas, vantagens para o capital financeiro… Guedes traz uma pauta muito ligada ao pensamento do Rodrigo Maia, dos liberais, e a ampla maioria da Câmara é composta por esses que representam os interesses do grande capital. Então a pauta do Paulo Guedes ecoa dentro da Câmara.

Agora, o Jair Bolsonaro faz o jogo da fumaça, do circo, falando esse monte de besteira, como falou do Paulo Freire. Bolsonaro toda vida foi assim, o limite intelectual dele é gigantesco. Então ele faz um discurso só para a base dele, aqueles 17%, segundo pesquisas, que acham que tudo o que ele fala é verdade. A análise dele não é para o povo brasileiro, é para no máximo 30% que são próximos a ele, que poderiam lhe garantir a ida ao segundo turno em 2022.

Mas isso não está dando certo, porque o respeito que a população tem por ele está diminuindo. Esse discurso fascista, ultrapassado, chega a uma hora de desgaste. A população está sentindo a crise, mas não sabe. Quando começar a entender os motivos da crise, a situação do Bolsonaro vai piorar muito, porque boa parte das pessoas que votam nele são as que estão sendo empobrecidas pelas políticas econômicas. Ali na frente vai estourar. Vai chegar uma hora em que não vai ter como segurar só com cortina de fumaça.

Mas não houve mobilização de rua como se esperava.

Não houve porque a coisa foi muito bem pensada. A reforma trabalhista tirou a capacidade de financiamento do movimento sindical. Como os sindicatos vão fazer grandes mobilizações se mal têm dinheiro para pagar o aluguel do prédio e seus funcionários? A reforma trabalhista atingiu diretamente os sindicatos.

Que repercussão pode ter a operação do Ministério Público do Rio contra Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz?

Boa parte dos deputados do PSL é formada por aqueles que representam as pessoas “de bem”. Bolsonaro e seus filhos se elegeram com esse discurso de gente “de bem”. Estamos vendo que de gente de bem eles não têm nada, com rachadinhas, envolvimento com milícias, incentivo à violência. A análise que se pode fazer é que Bolsonaro é gente do mal, não do bem. Esse cenário começa a ser desmascarado. O seu comportamento e seu discurso é um, a prática é outra. Sem dúvida essa questão do Queiroz e do Flávio vai respingar no presidente e na família toda. Vai ficar muito mais nítido o que fizeram e terão que explicar, e será um grande início para se desmascarar todo esse discurso mentiroso, de fake news do Bolsonaro, somado à crise econômica.

O que espera a relação ente o Legislativo e o STF no ano que vem?

Somos poderes independentes, mas temos que ter uma relação harmônica. Espero ter essa relação com o Supremo. Nosso partido foi construído dentro da lógica da lei e da Constituição. Esses seguidores de Bolsonaro acham que têm que fechar o Congresso, o Supremo. Na verdade defendem a ditadura, porque ficaria só o Executivo. Esperamos do Supremo menos respostas à pressão popular e mais compromisso com a Constituição brasileira. Que o conjunto da sociedade respeite a Constituição e o Supremo garanta seu cumprimento.