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Livro faz balanço do movimento estudantil entre 1964 e a reabertura democrática

Pesquisadora conta a história da mobilização dos estudantes contra as arbitrariedades do governo civil-militar, em reflexão importante para os dias atuais
Publicado por Helder Lima, da RBA
09:12
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Reprodução

“Minha intenção com a pesquisa de mestrado que deu origem ao livro era, desde o início, resgatar as principais lutas, experiências, contribuições e, sobretudo, a construção teórica do movimento estudantil", diz a autora

São Paulo – Governo anuncia a intenção de instituir cobrança de mensalidade nas universidades públicas. Seguindo ditames das agências internacionais subordinadas aos Estados Unidos, o Ministério da Educação prepara acordos bilaterais para restringir cursos de ciências humanas, como História e Filosofia, com o objetivo de priorizar cursos voltados aos interesses empresariais, para formar mão de obra especializada em finanças, administração e outras disciplinas mais “úteis” ao progresso econômico.

Como alternativa à dificuldade de acesso da população aos cursos superiores, projetos governamentais anunciam que será dada maior importância aos cursos profissionalizantes. Complementando as ações oficiais na área de Educação, técnicos e ministros também anunciam redução de verbas para as universidades públicas e ampliação de mercado para a iniciativa privada.

Os enunciados acima parecem saídos de manchetes recentes da imprensa brasileira, mas não são.

Todos são passagens da política educacional instaurada após o golpe civil-militar de 1964. Tudo sob a égide do conceito de “civilização ocidental e cristã”, valores maiores a proteger diante da “ameaça comunista” que rondava o mundo, com a ajuda de projetos alinhavados a partir dos Estados Unidos de John Kennedy.

No entanto, nem só de lembranças como essas é feita a repetição da História. Daquele período, sobressaem também notícias como greve de estudantes e grandes mobilizações de rua contra a política educacional do governo autoritário de então.

O livro Atuação Política do Movimento Estudantil no Brasil: 1964 a 1985, que será lançado no próximo sábado (30), em São Paulo, traz uma panorâmica daquele período, com ênfase na capacidade de mobilização e formulação política dos estudantes organizados, tanto no combate à ditadura quanto na apresentação de propostas de mudança ao país.

Escrito pela jornalista e doutora em História Social Flávia de Angelis Santana, o livro é resultado da pesquisa de mestrado defendida e aprovada na USP em 2007. Flávia, que trabalha na Escola Nacional de Formação do PT, entidade mantida pela Fundação Perseu Abramo, foi militante do movimento estudantil nos anos 1990, quando começou a acalentar o desejo não só de entender melhor, mas escrever sobre os modos de organização e ação políticas dos estudantes.

“Minha intenção com a pesquisa de mestrado que deu origem a este livro era, desde o início, resgatar as principais lutas, experiências, contribuições e, sobretudo, a construção teórica do movimento estudantil, no período da ditadura, pois apesar da intensa repressão, esse foi também um momento muito rico da produção e da atuação política dos estudantes. E como muito dessa memória se perdeu, com a destruição de documentos do movimento pelo regime, eu acredito ser importante esse resgate para que os jovens de hoje possam conhecer e se apropriar dessa história, bem como dos processos históricos atravessados pelo país, para que se fortaleçam e encontrem alternativas de luta e resistência para enfrentar os desafios da atualidade”, explica a autora.

O livro começa com um breve resgate dos anos de governo João Goulart, quando o movimento estudantil, UNE à frente, posicionou-se fortemente contra o golpe pretendido logo após a renúncia de Jânio Quadros e, depois, quando formulou um projeto de reforma educacional cujo conteúdo faz Flávia afirmar que os estudantes, naquela época, mostravam capacidade de elaboração teórica e política que não foi ainda igualada.

“Acredito fortemente no potencial de mobilização popular do movimento estudantil, pela sua história e vigorosa contribuição em diversos momentos históricos da política nacional. Entretanto, por inúmeras razões que, inclusive, aponto nas Considerações Finais do meu livro, não vejo no movimento estudantil atual o mesmo vigor e entusiasmo que marcaram a geração de estudantes que lutou contra a ditadura, tanto em termos de mobilização quanto no sentido da elaboração política”, avalia Flávia.

Ao transitar do golpe de 1964 até o período da chamada reabertura política, o livro tem como foco elementos da disputa política então travada, que provavelmente são desconhecidos das novas gerações, ou talvez já embaralhados nas memórias dos que viveram aqueles tempos. Como a proliferação de grupos de esquerda de diferentes tendências no interior do movimento e o forte debate que precedeu a opção pela luta armada, que tanto seduziu estudantes. Disputa que o livro conclui ter sido equivocada.

Em uma de suas passagens, o texto também revela a forte influência exercida pela UNE nos diferentes setores que se opunham ao regime. O próprio Congresso Nacional, segundo o livro, teria sido contagiado pela ação estudantil ao defender o mandato do deputado Márcio Moreira Alves. O episódio serviria depois como justificativa para o endurecimento do golpe com a edição do AI-5.

Na opinião de Flávia, o movimento estudantil pode ser novamente um dos condutores de mobilizações capazes de romper o estado de coisas no Brasil, tão assemelhadas ao período ditatorial. Porém, além da retomada da capacidade de elaboração teórica e de propostas concretas para a sociedade como um todo, o movimento precisará retomar o diálogo permanente com amplos setores da juventude – as duas coisas, afinal, estão umbilicalmente ligadas.

“Obviamente, os cenários são diferentes, tanto na política quanto no campo educacional, o que resulta em uma prática bem distinta por parte do movimento”, observa a autora. “Mas é preciso abrir-se, efetivamente, para o diálogo com amplos setores da juventude, ouvindo, atentamente, as diversas reivindicações e demandas que trazem consigo, pois esses jovens precisam se sentir representados por essas entidades nas lutas que empreendem nacionalmente. Acredito que, sem encarar esses desafios, o movimento estudantil não conseguirá ampliar seu potencial de mobilização no nível que necessitamos neste momento crucial da nossa conjuntura”.

A tese de doutorado de Flávia também analisou o movimento estudantil brasileiro, mas virou livro, por enquanto, só na Alemanha.

Serviço

Lançamento do livro Atuação Política do Movimento Estudantil no Brasil: 1964 a 1985
Quando: sábado, dia 30, das 16h às 18h
Onde: Tapera Taperá, av. São Luís, 187, 2º andar, loja 29 – República, São Paulo
Ficha técnica: editora Brazil Publishing, 272 páginas. Preço sugerido: R$ 52