Memória

Henry Sobel simboliza a força da unidade inter-religiosa contra a opressão

Ao lado de católicos e protestantes, nos anos 1970, rabino – que morreu ontem nos EUA – protegeu perseguidos, deu sentido humanista à religiosidade e construiu a resistência contra a barbárie

Wilson Dias/ABR
Henry Sobel (1944-2019), a religiosidade a serviço da dignidade humana. No detalhe, o histórico ato ecumênico na Sé em 1975

São Paulo – A morte do rabino Henry Sobel nesta sexta-feira (22), nos Estados Unidos, onde vivia, traz à memória a força da unidade inter-religiosa como forma de resistência à opressão. Sobel estava ao lado de lideranças católicas, como dom Paulo Evaristo Arns e dom Hélder Câmara, e protestantes, como o reverendo James Wright, no enfrentamento à ditadura assassina brasileira (1964-1985), na proteção aos por ela perseguidos e na projeção da batalha humanista que ajudaria a restaurar a democracia hoje novamente violentada.

Sobel, aos 75 anos, perdeu a batalha contra um câncer de pulmão e será enterrado neste domingo (24), em Nova Jersey, nos Estado Unidos. Nascido em 1944 em Portugal, o rabino formado em 1970 em Nova York mudou-se para o Brasil ainda naquela década e fez história ao recusar-se a enterrar o corpo do jornalista Vladimir Herzog, também judeu, e assassinado nos porões do DOI-Codi em outubro de 1975, na ala dos suicidas do cemitério israelita.

O rabino também estava, junto com os religiosos citados acima, no ato ecumênico realizado por Herzog. “Realizado na Catedral da Sé, em São Paulo, o protesto aconteceu em 31 de outubro de 1975, seis dias após a morte de Vlado e dando início ao processo que culminaria na redemocratização do país”, lembra em nota o Instituto Vladimir Herzog (IVH).

“No caso Herzog, Sobel usou sua autoridade e o lugar que ocupava para refutar a narrativa oficial sobre a morte de Vlado. Ele não admitiu que o enterro fosse feito na ala reservada aos que se suicidam no cemitério israelita. Foi assim que Vladimir Herzog, torturado e assassinado no DOI-CODI, órgão de repressão do governo brasileiro, teve assegurado o direito a um sepultamento que respeitasse os ritos judaicos, parte de sua origem e memória, no Cemitério Israelita do Butantã.”

Para o IVH, a trajetória do rabino “reafirma o impacto das atitudes de lideranças religiosas” e “a importância de tais figuras se comprometerem com valores que protejam e defendam os direitos civis e a dignidade da pessoa humana em qualquer tempo”.

Também radicado no país, o jornalista Glenn Greenwald, do The Intercept Brasil, observou: “O amor pelo Brasil não é determinado por onde a gente nasce, mas pelo que está no coração”, postou em sua rede social o responsável pela Vaza Jato, a série de reportagem do Intercept, que denuncia os abusos e ilegalidades da força-tarefa Lava Jato.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva registrou que chegou a participar de várias cerimônias em memória das vítimas do Holocausto na Congregação Israelita Paulista. “Nenhum de nós pode deixar que a memória do Holocausto seja apagada e que tais tragédias se repitam. E cabe também a todos nós, brasileiras e brasileiros, preservarmos a memória das ações de Sobel pela democracia e pela tolerância e liberdade religiosa”, afirmou Lula, em nota.

O protagonismo na unidade inter-religiosa é também citado pelo colunista da RBA, Laurindo Lao Leal Filho: ” Antes de tudo isso, Sobel ao chegar dos Estados Unidos para liderar a Congregação Israelita Paulista. a CIP. renovou os ares da entidade animando jovens judeus com seu vigor, entusiasmo e espírito progressista. Deixa um exemplo de vida, tão importante nestes dias sombrios.”

“A morte do rabino, neste momento, serve para tornar ainda mais aguda a nossa tragédia”, diz o jornalista Leandro Fortes, no site Brasil 247. “Em mundo onde o poder sionista tornou-se uma máquina de triturar humanos, na Palestina, e em um País onde a bandeira de Israel passou a ser empunhada por nazistas, a figura do rabino Henry Sobel parece um borrão perdido em alguma página arrancada de nossa história.”