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Gilmar admite erros do STF e diz que a Lava Jato é melhor em publicidade do que em justiça

Cientista político Paulo Niccoli Ramirez destaca entrevista do ministro nesta segunda (6) como a prova do projeto de retirada do PT do poder, apoiado "às cegas" pela própria imprensa que fez "lavajatismo militante"
Publicado por Clara Assunção
13:10
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Arquivo EBC

Críticas à operação Lava Jato e à imprensa, feitas pelo ministro Gilmar Mendes, foram apoiadas nas denúncias do The Intercept Brasil

São Paulo – A atuação política da operação Lava Jato não se resume à prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas também ao processo de deposição da presidenta Dilma Rousseff e impedimento à participação de Lula nas eleições em 2018. Essa relação foi descrita nesta segunda-feira (7) pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, durante participação no programa da Roda Viva, TV Cultura, como avalia o cientista político, Paulo Niccoli Ramirez, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo Paulo .

Para Ramirez, o ministro do STF deixou claro que o objetivo a Lava Jato visava sobretudo a retirar o PT do poder, tanto que a própria imprensa brasileira comprou a operação “às cegas”, fazendo o que Gilmar descreveu como “lavajatismo militante”. “No final das contas, Gilmar Mendes deixou claro que a Lava Jato é melhor publicitária do que jurista”, diz Ramirez, à Rádio Brasil Atual

O cientista político avalia que diante das reportagens do The Intercept Brasil, que denunciam os desvios de conduta entre os membros da operação, Gilmar Mendes “se mostra como uma das figuras mais sóbrias” ao conferir a “falta de republicanismo” e os “excessos” cometidos, mas não deixa de soar como uma reflexão “tardia”.

Ramirez aponta para o próprio interesse do ministro do STF em municiar a si mesmo e seus aliados do MDB e PSDB, principalmente, chegando a inclusive a dar aval para cassar a nomeação de Lula à Casa Civil com base em uma gravação ilegal vazada pelo atual ministro da Justiça, Sergio Moro. A Vaza-Jato confirmou que impedir a nomeação foi o objetivo dos áudios ilegais vazado seletivamente por Moro, excluindo do processo as conversas em que Lula dizia que recusaria o cargo.

“A gente não pode se esquecer que o próprio STF e o Gilmar Mendes não foram contra outras nomeações de indivíduos citados na Lava Jato durante o governo Temer, que chegaram inclusive a Casa Civil e outros ministérios. Gilmar Mendes não é uma figura idônea para criticar a Lava Jato mesmo porque no primeiro momento ele se voltou a favor dessa investigação, a ponto de ir afastando qualquer possibilidade de governabilidade da Dilma, entre elas a nomeação de Lula à Casa Civil (…) Isso vai mostrando que houve uma orquestração e armação, um verdadeiro vale-tudo para tirar a Dilma e na sequência para prender o Lula, desrespeitando direitos básicos e constitucionais”, afirma o cientista político.

Progressão de regime

O ministro do STF comentou que o ex-presidente não tem direito de recusar a progressão da pena para o regime semiaberto, mas o fato de o pedido ter sido feito pelos próprios procuradores da Lava Jato não deixa de ser intrigante. “Nunca foram legalistas, nunca foram garantistas, mas agora se convenceram?, se convenceram porque é conveniente”, criticou Gilmar Mendes.

Ramirez concorda com observação do ministro. “Me parece que existe uma estratégia da Lava Jato em libertar Lula para provocar nas eleições do ano que vem um sentimento de recusa e de ataque ao PT com essa sensação de impunidade”.

Hoje, para o cientista político, a sociedade brasileira vive os custos desse processo propiciado pela Lava Jato com série de violações de direitos, como no caso do Lula, e um presidente “absolutamente despreparado”. “Agora a gente tem também as questões entorno de um presidente que pouco respeita o meio ambiente e olha para imprensa com deboche. A própria imprensa que apoiou a Lava Jato é hoje a mesma que ataca e critica o Bolsonaro. A gente vive num paradoxo em relação a nossa imprensa”.

Moro atua para encobrir denúncias contra Bolsonaro 

O mesmo governo que cientista político e professor Paulo Niccoli Ramirez descreve pelas posturas polêmicas, também protagoniza denúncias de corrupção, como reportou o jornal Folha de S. Paulo deste domingo (6), mostrando depoimento e planinha apreendidas pela Polícia Federal que sugerem desvios de recursos do chamado laranjal do PSL, em Minas Gerais, para as campanhas do ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio e também de Bolsonaro.

Durante entrevista, o jornalista Glauco Faria, da Rádio Brasil Atual, observou que a reportagem também chamou atenção pela reação de Moro. Em seu perfil no Twittter, Moro saiu em defesa do presidente. Essa não é a primeira vez que o ministro da Justiça sai em defesa de Bolsonaro que já declarou, durante uma visita presidencial ao Japão, ter tido acesso a um inquérito sigiloso da PF sobre o laranjal do PSL vazado por Moro.

O que para o cientista político coloca em xeque não só o papel do chefe da pasta, mas a própria Polícia Federal, que embora seja um órgão autônomo, está submetida ao Ministério da Justiça. “Isso mostra que nunca o Sergio Moro teve uma postura considerada neutra ou técnica”, afirma Ramirez. “Agindo conforme o calor da hora e tentando salvar o posto no Ministério da Justiça, ele de alguma maneira está tentando blindar o posto de Jair Bolsonaro”.

Ouça a entrevista completa