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Coragem poética

Mauricio Rosencof: uma vida de resistência apoiada no território da imaginação

Escritor uruguaio, que esteve preso com Pepe Mujica por quase 12 anos, foi o convidado do programa "Entre Vistas", da TVT
Publicado por Luciano Velleda, para a RBA
05:55
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Reprodução/Youtube/TVT

“A vida começa no dia seguinte. Temos toda vida à nossa frente. E aqueles anos, não voltaria a escolhê-los, se isso estivesse nas minhas mãos, mas também foram dias de vida", diz Mauricio Rosencof, sobre os 11 anos, seis meses alguns dias preso numa solitária

São Paulo — Preso numa solitária, sem saber dia ou mês exato, Mauricio Rosencof ouviu gritos de alegria e viu luzes de fogos de artifício através de uma janela que ficava no alto do calabouço em que estava. Desconhecia sua localização — muito tempo depois saberia que era um quartel em Santa Clara de Olimar, no interior do Uruguai – e sabia apenas que tinha a companhia dos amigos Jose “Pepe” Mujica e Eleuterio Fernández Huidobro, “El Ñato”, assim como ele, ambos igualmente presos isoladamente. 

Ñato estava no calabouço ao lado, separado por uma parede. E foi por meio de batidas na parede, naquela noite, que Mauricio Rosencof e o companheiro de luta contra a ditadura uruguaia começaram a inventar uma comunicação. “Assim, lentamente, começa a dar curso rítmico e descubro a intenção de me passar alguma mensagem, sem nenhum de nós conhecer o Código Morse. Então eu pego um pedaço de gesso da parede e vou marcando as batidas que dá. De vez em quando se produz um silêncio”, explica Rosencof ao jornalista Juca Kfouri, no programa Entre Vistas, da TVT, gravado em Montevidéu.

A primeira palavra ditada por Ñato, associada as movimentações vindas do exterior, seria a “chave” para entender a mensagem. “Felicidades.” Era a noite do natal de 1973. Rosencof estava então preso numa solitária há três meses, desde setembro. Naquele momento, nem ele, nem Pepe e Ñato poderiam imaginar que assim permaneceriam por mais 11 anos, três meses e alguns dias.

Mauricio Rosencof nasceu em Florida, no Uruguai, em 1933. Escritor, jornalista e dramaturgo, é autor de diversas peças de teatro, poesias e romances. Tem sua obra traduzida para vários idiomas, como holandês, francês, turco, alemão e inglês. Em português, até o momento, apenas o livro As cartas que não chegaram. Foi dirigente do Movimento de Libertação Nacional (Tupamaros) e preso pela ditadura uruguaia em 1972. Tinha 39 anos de idade e só saiu da prisão aos 51. Atualmente tem 87 anos e vive em Montevidéu. Recentemente, foi diretor de Cultura da Intendência da capital uruguaia.

O episódio da noite na prisão, no natal de 1973, e o início da comunicação via batidas na parede com o amigo Ñato, são retratados no filme Uma noite de 12 anos, aclamado longa metragem que conta a história desses três homens mantidos reféns pela ditadura que vigorou no Uruguai entre 1973 e 1985. Sem nunca conseguirem ver o rosto um do outro durante todo o período, pelo código criado, Rosencof e Ñato contaram histórias, fizeram “revoluções”, abriram seus sentimentos.

As comunicações através da parede serviram inclusive para discutir qual era a função de militante deles como presos. A conclusão se resumiu em uma única palavra: resistir.

“Resistir implicava muita coisa. Não arruinar-se, não deprimir-se. Comer as unhas para recuperar proteína. E se aparecesse uma visita, tínhamos que consolar a visita e não esperar que nos tratassem como coitadinhos. Tínhamos essa atitude porque tínhamos filhos e eles nos viam. E por mais que nós nos recompuséssemos, não se tratava de um passeio dominical”, afirma Rosencof.

Chegaram ao ponto de conseguir jogar xadrez, um entretenimento que alcançou o caráter de disputa e levou a uma situação “séria” entre os dois, quando estavam presos em Paso de los Toros. “Tínhamos todo o tempo do mundo para pensar, sem interferências”, comenta, com humor, o escritor, considerado um dos grandes nomes da literatura uruguaia de todos os tempos. No episódio, o movimento de um bispo desencadeou uma discussão entre eles, com Ñato alegando que a peça não estava naquele lugar do tabuleiro imaginário.

“Entramos em uma discussão como se fosse uma discussão política, para saber que dia faríamos o lançamento da revolução latino-americana. Estava descarregando toda a raiva e me dei conta de que isso estava complicado”, lembra Rosencof. E então disse ao colega: “Às vezes, acho que falar com você, é como falar com a parede.” A frase resultou numa grande gargalhada de Ñato e pôs fim a discussão.

Esperança

Mauricio Rosencof diz que sua literatura talvez tenha influência da “obra mágica” de Jorge Amado. Como características semelhantes, destaca a proximidade com as pessoas, o sentimento, o humor e a intensidade. Classifica o livro O cavaleiro da esperança como uma obra importante em sua formação política, lido ainda quando era adolescente. O livro conta a história da marcha de Luis Carlos Prestes.

O humor é uma característica não só da obra literária de Rosencof como também na própria vida. Perguntado por Juca Kfouri como foi possível superar o desespero, a desesperança e a depressão durante quase 12 anos preso numa solitária, lascou: “Vivemos uma experiência muito interessante”, definiu, com um sorriso. “Estivemos na condição de reféns. Estivemos 13 anos em calabouços isolados, embaixo da terra, e não víamos os rostos durante todo esse tempo. Não tínhamos nem meia ração de comida. Aprendemos a racionar água, aprendemos a reciclar urina”.

A sobrevivência a uma experiência extrema, e o modo como enxerga tudo o que passou, faz com que transmita em palavras e gestos um permanente sentido de esperança e confiança.

“A vida começa no dia seguinte. Temos toda vida à nossa frente. E aqueles anos, não voltaria a escolhê-los, se isso estivesse nas minhas mãos, mas também foram dias de vida e eu consegui escrever, ter discussões, eu contei (para Ñato) um romance através da parede. Discuti com Pepe o problema da agricultura…fiz alguns exercícios de memória e é formidável se perguntar sobre sua própria memória e em que consiste. Em determinado momento, não tinha nada para fazer, não podia ler, não podia escrever, não podia falar com ninguém. A geografia das manchas de umidade na parede era tudo o que tinha de perspectiva. Então, a realidade tangível não se podia viver. Podia-se viver no território da imaginação, das lembranças. O que era muito arriscado, porque podia ficar deprimido.”

No calabouço, escreveu uma peça de teatro e poemas, que conseguia mandar para o mundo exterior escondendo pequenos pedaços de papel na costura de roupas que sua mãe vinha buscar para lavar. Foi assim que, inclusive, “perdeu” um romance: a mãe entregou a meia suja para a vizinha lavar e esqueceu de tirar o papel da costura.

Em determinado momento da prisão, num período em que Mujica acreditava ter tido um chip implantado pelos militares em sua cabeça para ouvir o que ele falava e pensava e, por causa disso, ter parado de se comunicar com os amigos, Rosencof e Ñato juraram que, se um dia saíssem vivos e tivessem condições, contariam toda a história que haviam passado. “Fizemos esse juramento debaixo da terra e através do mundo”, recorda.

A promessa foi cumprida logo após saírem da prisão, com o fim da ditadura uruguaia. “Ao poucos, começamos a cumprir e ficamos de passar uns dias num sítio. Conseguimos um gravador, compraram fitas cassete. Em 3 ou 4 dias, gravamos 47 fitas. De dia, a chimarrão, e de noite, a ‘combustível’.” Assim surgiu o livro Memórias do Calabouço, base para o filme Uma noite de 12 anos. Encontraram a liberdade em 1985 e o primeiro volume da obra foi lançado em 1987. “Cumprimos.”

Política e América Latina

O Uruguai está há 15 anos sendo governado pela Frente Ampla, um movimento de união de partidos de esquerda e movimentos progressistas. Mauricio Rosencof define a Frente com a metáfora de um trem composto por oito vagões, ocupados cada um por pessoas que pensam diferente. “Mas o importante é que o maquinista nos leve a um porto seguro”, sintetiza.

E demonstra evidente orgulho com os resultados que têm sido obtidos por esse “maquinista” que conduz a Frente Ampla.

“Conseguimos que os trabalhadores rurais tenham jornada de 8 horas, e não estejam 24 à disposição do patrão. Conseguimos que as trabalhadoras domésticas também tenham jornada de 8 horas. Fomos o primeiro país do mundo em que nos lugares mais humildes se tenha um laptop e contato com a tecnologia. No plano Ceibal, todos os estudante pobres receberam o primeiro computador. E agora, em povoados pequenos do interior, se ganha competições organizadas pela Nasa e outras organizações internacionais, são premiados porque sabem robótica”, afirma Rosencof.

A experiência bem sucedida da união da esquerda no Uruguai, para ele, não necessariamente é possível de ser replicada do mesmo modo em outros países latino americanos, em função das particularidades históricas e sociais de cada nação. Há um elemento, entretanto, que o escritor analisa como sendo comum entre os países do continente: o sentimento de igualdade.

Como exemplo, cita a influência da cultura inca nos povos andinos e dos guaranis no Uruguai, país onde o nome de muitas cidades tem origem indígena. “A palavra mais linda é a de um povoado chamado Tupambae, que quer dizer ‘terra de todos’. Os incas e os guaranis praticavam a coletividade da terra.” Vai mais longe no tempo e lembra que o livro Os primeiros cristãos relata que eles dividiam tudo e cada um só ficava com o necessário.     

Questionado se acredita em Deus, responde citando uma frase do físico alemão Albert Einstein, que certa vez disse: “Há demasiada harmonia no espaço para que seja obra da casualidade”, e complementou: “Mas não creio em nenhuma das religiões existentes.”

Para Mauricio Rosencof, é muito bom viver tendo perguntas sem necessariamente haver respostas satisfatórias.