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Há uma energia popular para barrar a volta da ditadura, diz Maria Rita Kehl

Em evento na Fundação Perseu Abramo, psicanalista afirma ver ressurgir a tradição da esquerda e centro-esquerda brasileiras de lutar pelos direitos da população
Publicado por Eduardo Maretti, da RBA
07:35
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Reprodução

Dois anos depois do relatório da Comissão da Verdade, Dilma Rousseff foi derrubada, lembrou a psicanalista

São Paulo – “O autoritarismo nunca acabou, ele recrudesce. Não só a ditadura, mas também a oposição à ditadura está muito viva. Há uma politização da sociedade pelo lado da esquerda. Não são só restos da ditadura que estão voltando (com a eleição e as práticas do presidente Jair Bolsonaro), mas também uma força, uma energia popular para não permitir esses desmandos todos.”

A opinião é da psicanalista Maria Rita Kehl, na abertura dos Seminários Avançados propostos pelo curso de Estado, Governo e Políticas Públicas, da Fundação Perseu Abramo (FPA) e Flacso Brasil, na noite desta terça-feira (17), com o seminário “Psicanálise e política: O que resta da ditadura?”

Pelo fato de enxergar uma politização da sociedade e uma reafirmação  da tradição da esquerda e centro-esquerda libertárias brasileiras de lutar por direitos, contra a opressão e a tortura, ela afirmou estar otimista. Por outro lado, a realidade mostra “resquícios” da opressão. Exemplo: “nossas polícias continuam militarizadas”.

O contexto, de acordo com Maria Rita, mostra que, embora tenha sido eleito, Bolsonaro “está se deslegitimando a cada vez que ataca uma parte da população brasileira”. “Ele ataca todo mundo, atraca os gays, os índios, os camponeses, e os trabalhadores não ataca diretamente, mas com medidas (como) falta de aumento de salário”.

Na sua opinião, o presidente ataca tantos setores da sociedade que parece provável que, assim como na segunda metade da década de 1970, a mobilização continue e aumente, diante das ameaças à democracia, à liberdade e aos direitos. “Não basta democracia com voto, mas democracia com redução da desigualdade.”

Para ela, o próprio Exército brasileiro “está mais comprometido com a democracia do que o presidente”. No entanto, para que haja retrocesso para um cenário mais autoritário do que se mostra com o governo atual, “talvez não seja preciso um golpe militar”, acrescentou, porque a sociedade elegeu uma pessoa “com uma voracidade autoritária muito perigosa”.

Ela lembrou também que o sucessor de Michel Temer tem o menor índice de aprovação entre os presidentes em primeiro mandato desde Fernando Collor (1990-92).

Maria Rita comentou também o fato de que, como a Comissão da Verdade (CV), da qual foi membro, não tinha poder de condenar, o apoio da população ao colegiado foi pequeno. Durante o período de funcionamento da CV (2011-2014) surgiu a “teoria de dois lados, nas confusas passeatas de 2013”, segundo ela. “De repente (aquelas manifestações) viraram nada, mas um nada poderoso, e pela primeira vez, lá, vi cartazes pedindo intervenção militar, (com) a Comissão da Verdade ainda trabalhando”.

Ela destacou que “a grande consequência” da CV foi, ao fim e ao cabo, a derrubada da então presidente da República, Dilma Rousseff. “Dois anos depois do relatório da comissão, ela caiu.” Segundo a interpretação de Maria Rita, a ideia de que houve crimes cometidos tanto pela ditadura quanto pela esquerda que lutava contra ela “fortaleceu a teoria dos dois lados”.

“O Brasil foi o único país dos que tiveram ditadura na América do Sul que terminou com um acordo entre civis e militares”, lembrou, em referência às consequências da anistia ampla. “Aceitou-se o acordo para os dois lados e os generais ficaram impunes”.

A psicanalista observou que, na Argentina, por exemplo, os julgamentos de torturadores continuaram por muito tempo, abrangendo todos os escalões. “Até guardinha de cidades do interior foram julgados”, disse.

No Brasil, pontuou, em consequência da solução a que se chegou, de anistia para os dois lados, foi criada depois “uma teoria errada que estabeleceu que eram dois lados em luta e houve vítimas dos dois lados”. Mas, para ela, em uma guerra se justifica a ideia de que são dois lados em luta, o que não foi o caso do período iniciado em 1964 no Brasil. “Numa ditadura, de um lado é o Estado com todo o seu poder, até de matar, e de outro pessoas defendendo a liberdade. Mesmo que peguem em armas, é pra defender a democracia.”

Os encontros da FPA serão realizados todas terceiras terças-feiras do mês. Abertos ao público, serão transmitidos ao vivo pela TevêFPA.

Confira a programação dos próximos seminários:

15/10, das 19h30 às 21h30, Henrique Parra – Política, tecnologia e redes: tecnopolítica, vigilância e democracia
19/11, das 19h30 às 21h30, Jacqueline Moraes Teixeira – Religião e políticas: novos e antigos conservadorismos
10/12 das 19h30 às 21h30, Francisco Teixeira – Militarismo e democracia: para compreendermos os novos tempos