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Flávio Dino: ‘Se um juiz aconselha uma das partes, perdeu a imparcialidade e sua sentença é nula’

Em entrevista ao Roda Viva, governador do Maranhão falou sobre seu estado, a Lava Jato, a esquerda brasileira no contexto atual e a violência como a que vitimou a menina Ághata Felix, no RJ
Publicado por Eduardo Maretti, da RBA
06:48
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Reprodução

"Há no Brasil a ideia de que um governante para ser bom tem que dar tiro"

São Paulo – Em entrevista ao programa Roda Viva, na noite desta segunda-feira (23), na TV Cultura (São Paulo), o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), falou sobre segurança pública, violência, políticas para gerar emprego e renda, religião, eleições de 2020 e de 2022 e operação Lava Jato, entre outros temas. “A parcialidade é inerente à natureza humana.” Por isso, os controles institucionais devem atuar “para impedir que essa subjetividade não degenere em autoritarismo”, afirmou, ao responder se as revelações do site The Intercept Brasil colocaram em xeque a Lava Jato.

Sobre a força tarefa comandada pelo ex-juiz e atual ministro da Justiça, Sergio Moro, o governador defendeu expressamente que haja uma atuação “mais enfática” dos órgãos de controle para garantir direitos no país. “Se um juiz se associa a uma das partes, ele perdeu a imparcialidade Quem diz isso é o Código de Processo Penal. Se um juiz aconselha uma das partes, ele perdeu a imparcialidade e sua sentença é nula.” Ele defendeu que o combate à corrupção prossiga, mas respeitando as leis.

“Somente os fascistas tomam a parte pelo todo”, acrescentou. “A Lava jato é a parte e o combate à corrupção é o todo.” Para o governador, até recentemente, quem no país criticasse a Lava Jato era identificado como uma pessoa praticamente a favor da corrupção. Mas, para ele, “essa armadilha foi desmontada” com as revelações do Intercept. “Estamos vivendo uma calibragem.”

Na opinião de Dino, “o bolsonarismo nunca foi lavajatista e o lavajatismo levou ao bolsonarismo. Isso serve para que reflitamos”. Esse foi um “casamento mal sucedido”, disse. Ele afirmou não poder avaliar Augusto Aras, indicado por Bolsonaro para chefiar a Procuradoria Geral da República, por não o conhecer. Mas sua receita para um ocupante do cargo é de que o procurador geral “não pode ser nem um engavetador geral nem um perseguidor geral”.

Ao contrário do que é apregoado pelo governo e seus aliados para justificar as reformas como da Previdência, “o Brasil não está quebrado”, disse Dino. “Querem destruir o que o Brasil construiu nas ultimas décadas.” O entrevistado lembrou a fala do atual presidente, Jair Bolsonaro, nos Estados Unidos. “Ele afirmou que não veio para construir, mas para destruir”.

Muito questionado sobre a questão da segurança pública, o governador reconheceu que esse tema está entre as bandeiras perdidas pela esquerda nos últimos anos. “Perdemos algumas bandeiras: segurança pública, corrupção.” Segundo ele, o campo progressista precisa voltar a usar o verde amarelo e atualizar seu programa. “A segurança pública demagógica seduziu a sociedade.”

Porém, rebateu que somente a esquerda precise fazer uma autocrítica, depois do processo que levou Bolsonaro ao poder. “A revisão tem que ser na prática e não pode ser cobrada somente da esquerda. Precisamos ter clareza. Não somos responsáveis por 13 milhões de desempregados, pelo menos não sozinhos. Ou pelo teto de gastos.”

Dino comentou a disseminação da violência como a que vitimou a menina Ághata Felix, morta com um tiro no Rio de Janeiro. “Estamos vendo que a palavra tem poder. Deve ser apurada responsabilidade de quem profere esse discurso (de ódio). Precisa apurar os fatos, mas que há no Brasil a ideia de que um governante para ser bom tem que dar tiro, infelizmente há.”

PDT, PSB, Psol, PT e PCdoB apresentaram nesta segunda-feira uma notícia-crime ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) contra o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), para que ele responda pelos crimes que vêm sendo praticados pela Polícia Militar no estado.

Eleições

Flávio Dino defendeu que o campo progressista deve procurar a unidade para as próximas eleições. Citou duas vertentes políticas fundamentais ao desenvolvimento de um projeto de inclusão social nacional:  o trabalhismo, que criou no Brasil o BNDES, a CLT e a Petrobras, e o lulismo. Foram os períodos em que “conjugamos crescimento econômico, distribuição de renda e plena democracia”.

O governador afirmou ainda que a união da esquerda deve respeitar o fato de que “a sociedade é plural” e que é preciso que as forças políticas de progressistas respeitem essa característica brasileira ao pensar em uma frente para as próximas eleições. Para Flávio Dino, uma união entre vários setores em defesa da democracia deve aceitar pensamentos diferentes, desde que respeitem os princípios da democracia, do direito dos mais pobres e da soberania, que devem balizar os caminhos dessa frente.