estado de exceção

Partido de Bolsonaro queria criar ‘carrocinhas de crianças’. STF barrou

PSL ingressou com ação para que os governos pudessem apreender arbitrariamente crianças e adolescentes nas ruas

EBC
Número de crianças vivendo nas ruas aumentou em todo país. Partido de Bolsonaro queria poder prende-las

São Paulo – O Supremo Tribunal Federal (STF) negou ontem (8), por unanimidade, a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 3.446, proposta pelo partido do presidente Jair Bolsonaro (PSL). A legenda queria criar uma espécie de “carrocinha de crianças”, liberando os governos para apreender arbitrariamente crianças e adolescentes nas ruas de todo o país. Para isso, o partido de Bolsonaro pedia que fossem declarados inconstitucionais o inciso I do artigo 16, do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que garante a liberdade de locomoção da criança e do adolescente, bem como o artigo 230, que prevê punição a quem os privar de liberdade sem justificativa legal.

Para o relator do processo, ministro Gilmar Mendes, a remoção dessas garantias é que criaria uma situação de violação de direitos das crianças e adolescentes. Para ele, seria “verdadeiro cheque em branco para que detenções arbitrárias, restrições indevidas à liberdade dos menores e violências de todo tipo pudessem ser livremente praticadas”. “A existência da norma não impede a apreensão em flagrante de menores pela prática de atos análogos a crimes”, completou.

O partido de Bolsonaro questionou ainda a inexistência da aplicação de medidas socioeducativas para crianças que cometem ato infracional. Mendes ressaltou que a decisão de não aplicar medidas mais severas é compatível com a percepção de que a criança é um ser em desenvolvimento e com maior vulnerabilidade, quando comparadas aos adolescentes e às pessoas adultas, que precisa, “acima de tudo, ser protegida e educada”.

Para o advogado e membro do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana de São Paulo (Condepe) Ariel Castro Alves, a decisão do STF “rechaçou a higienização social e a criminalização da pobreza” defendida pelo partido de Bolsonaro. “Se essa ação fosse deferida pelo STF, o recolhimento compulsório de crianças e adolescentes pobres seria autorizado. O PSL queria que fosse instituída a ‘detenção de menores para averiguação’, mesmo que não fossem suspeitos de crimes, pratica proibida inclusive para adultos, com base nos direitos fundamentais previstos na Constituição Federal. O partido de Bolsonaro pretendia instituir verdadeiras ‘carrocinhas de menores’”, afirmou.