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‘Caos informacional’ nas redes sociais coloca a democracia em risco

Debate sobre comunicação e democracia relaciona propostas para combater a desinformação de uma extrema-direita que luta contra a razão
Publicado por Tiago Pereira, da RBA
20:19
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Renata Mielli: 'A gente vivia um momento da comunicação que era racional, e passamos para um momento em que é totalmente irracional'

São Paulo – Com o domínio das grandes plataformas digitais, como Google, Facebook e Twitter, que passaram a exercer a função de intermediários dos fluxos de informação, funcionando a partir de algoritmos desconhecidos, que coletam dados dos usuários, e que entregam conteúdos para que estes permaneçam cada vez mais tempo nessas mesmas plataformas, institui-se um “caos informacional” em que não é mais possível dialogar com o diferente, colocando em risco a democracia. É como analisa a coordenadora do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), Renata Mielli.

“A gente vivia um momento da comunicação que era racional, e passamos para um momento em que é totalmente irracional“, afirmou Renata, em debate realizado nesta segunda-feira (29) no Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé, na região central de São Paulo. Segundo ela, essas plataformas nos mostram aquilo que “a gente concorda e gosta”, baseados em perfis emocionais dos usuários, nos colocando em “zonas de conforto”, onde nenhum debate é possível.

“A modelagem econômica dessas plataformas rompeu qualquer possibilidade de debate público. Ninguém mais dialoga entre diferentes. Ocorre que qualquer democracia pujante precisa de um mínimo de desconforto e diálogo”, afirmou a coordenadora do FNDC. Antes, na fase “analógica” da comunicação, os acesso à imprensa era absolutamente restrito e limitado, mas as regras do jogo eram conhecidas.

“Sabíamos como iam editar a notícia no Jornal Nacional para manipular a informação, como construíam as manchetes, como selecionavam o que virava notícia. A gente denunciava tudo isso”, ressaltou. Agora, sequer conhecemos as regras. Ela acusou a falta de transparência do funcionamento desses novos distribuidores da notícia. “Não sabemos quais são os parâmetros que utilizam para definir o algoritmo. Sabemos menos ainda como esses algoritmos aprendem. Vamos ficando cada vez mais reféns de uma plataforma que não tem nenhum compromisso com a liberdade de expressão e com o debate democrático.”

Ao “caos informacional” causado pela fragmentação da comunicação, soma-se,  a atual crise civilizacional e econômica. A saída, segundo Renata, é reconstruir pontes que restabeleçam o diálogo democrático. “Precisamos reconstruir pontes de diálogos na sociedade. Quando falamos em liberdade de expressão, não estamos falando apenas no direito de produzir e distribuir conteúdo em qualquer plataforma. As pessoas precisam ouvir, ler e compreender o que estamos falando. Temos que refazer a roda, num processo de reorganização da comunicação.”

Contra a racionalidade

A desinformação e a defesa do absurdo se transformaram em bandeiras da ascensão da extrema-direita, como argumenta o sociólogo da UFABC e ativista de software livre Sérgio Amadeu. Ele falou, durante debate com Renata promovido pelo Barão de Itararé, sobre a gênese do caos, a partir de 2009. “Surgiu um texto sobre o iluminismo das trevas neste ano. Os adeptos, em determinado momento, caras escanteados como Steve Bannon (um dos gurus do bolsonarismo), vários outros, foram pra internet com a seguinte linha: a racionalidade aponta para o marxismo.”

Amadeu destaca como isso fomenta discursos de ódio de toda ordem. “Aí eles apontam para a destruição da racionalidade. O politicamente correto é o cara que quer violar a liberdade. Então, se um cadeirante tiver que cair, dê risada, humilhe, seja livre. Aí transformaram qualquer imbecil em militante político. Isso foi replicado no Brasil. O cara incomodado com o feminismo, com pobre no aeroporto, com avanços sociais”, disse.

Isso chega com maior força no Brasil, lembra Amadeu, após, em 2012, a então presidenta Dilma Rousseff sancionar uma lei que garantiu direitos trabalhistas para empregadas domésticas. “Quando a Dilma falou que empregada tinha direitos trabalhistas, o amor acabou. Em 2012, nunca tinha visto isso. Era feliz Natal e fora PT.” A partir desse pensamento, o sociólogo aponta que, as jornadas de junho de 2013, não foram o nascimento da extrema-direita. Para ele, a revolta foi cooptada, mas que a participação é essencial.

Cooptaram com alguns artifícios, como o uso massivo de recursos de grupos políticos que se beneficiaram com o momento. “Usaram dinheiro para capitalizar. O MBL surge em 2014, monetizado. Aquilo foi uma ação, um esquema com dinheiro. Agora secou a fonte e eles estão com um papo furado indo praa a Tabata Amaral. O neoliberalismo rompeu com a democracia.”

Como uma ideia para reversão do caos, Amadeu pede, por fim, a articulação pensada e estruturada, com base também na tecnologia: “A luta política tem que estar nas redes mas não só. Temos que unir profissionalismo, inteligência de máquina e militância”.

Ampliar a bolha

Para o jornalista Leandro Fortes, da agência digital Cobra Criada, as mídias digitais já não são novidade e fazem parte do cotidiano das pessoas. Ainda assim, é preciso desmistificar certos mitos, como o que aponta a necessidade de “furar a bolha” para falar com o outro lado. Ele cita a bem-sucedida campanha virtual da campanha de Jair Bolsonaro à Presidência para desmentir o mito. “Bolsonaro não estourou bolha nenhuma. O que fez a onda da extrema-direita foi uma ativação completa, perfeita, de pessoas que já viviam nessa bolha, mas não tinham sido ativadas. O trabalho do nosso lado é estender a nossa bolha e ativar pessoas que estão inativas.”

Agora, com fóruns adequados para que as pessoas manifestações suas opiniões protegidas pelo isolamento das telas digitais, pessoas que já tinham inclinações conservadoras foram ativadas para participarem da campanha. “Monstros foram localizados, segmentados, organizados, disciplinados e ativados. Daí criou-se uma multidão trabalhando dentro da sua bolha. Temos que localizar as pessoas que, por razão de empatia, necessidade ou sobrevivência, querem se relacionar com as nossas ideias. Assim, naturalmente se tornam disseminadoras das nossas ideias.”