Autoritarismo

‘Não vejo crime sendo cometido por Glenn, mas vejo com preocupação quando Moro insinua isso’

Afirmação é do presidente da Abraji, Daniel Bramatti, que vê ataque à liberdade de expressão com ameaças e tentativas de desqualificar jornalismo do 'Intercept'

José Cruz/EBC
Em nota pública, Abraji considerou ataques ao site e ao jornalista Glenn Greenwald como "descabidos" e típicos de "contextos autoritários"

São Paulo – As tentativas do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, de desqualificar as denúncias apresentadas pelo The Intercept Brasil, e as ameaças que vêm sendo feitas contra o site e o jornalista Glenn Greenwald foram repudiadas pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Em nota pública, a instituição considerou os ataques como “descabidos” e cobrou uma postura em prol da liberdade de expressão e imprensa por parte de Moro.

Desde a divulgação das conversas que mostram a interferência do ex-juiz no processo judicial que levou à prisão o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Moro tem procurado criminalizar o site jornalístico, como declarou em seu Twitter afirmando ser o The Intercept um “site aliado a hackers criminosos”. De acordo com a nota, o ministro “erra ao insinuar que o veículo é cúmplice de um crime”.

À jornalista Marilu Cabañas, da Rádio Brasil Atual, o presidente da Abraji, Daniel Bramatti, explica que a lei brasileira é muito específica quanto a regulação do trabalho jornalístico, não cabendo nenhum tipo de acusação ao profissional no caso do material divulgado ter sido obtido de maneira ilegal.  “Ninguém sabe como esse material foi obtido, ninguém tem evidências de que foi de fato um hacker (…) e esses jornalistas têm trabalhado de forma a publicar apenas o que eles consideram que seja de interesse público, eles não estão publicando nenhuma mensagem de caráter pessoal, nada que envolva as famílias das pessoas atingidas, nada disso”, destaca Bramatti.

“Não vejo crime sendo cometido aqui, mas vejo com preocupação quando se insinua isso em uma rede social, porque, de alguma maneira, incita todos os seguidores do ministro a atacarem o jornalista. E a gente sabe que esses ataques não acabam bem, que isso se chama assédio online e pode subir de nível e chegar à ameaças físicas”, ressalta o presidente da Abraji. Em nota, a instituição manifestou solidariedade à Glenn e à equipe, e considerou as ameaças como “ações típicas de contextos autoritários e não podem ser tolerados na democracia que rege o país”.

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