Cultura e liberdade

Esquenta do Festival Lula Livre traz à cena do Oficina a diversidade brasileira

Aberto com leitura do “Manifesto Lula Livre” por Sergio Mamberti e encerrado com fala da deputada trans Erica Malunguinho, evento convocou para o ato de domingo pela liberdade do ex-presidente

Ricardo Stuckert
Teatro Oficina recebe prévia do que será o festival político e cultural em defesa de democracia e da liberdade de Lula, no domingo

São Paulo – “Estamos aqui para defender a liberdade do maior cara, da maior representatividade política que esse país já teve. Estou falando daquele que deu dignidade para o nosso povo, que colocou nossos jovens na universidade, que levantou a autoestima do nosso povo de periferia. Estou falando dele: Luiz Inácio Lula da Silva.” A frase é de Bruno Ramos, que ao lado de Preta Ferreira conduziu as mais de três horas do “esquenta” para o Festival Lula Livre, que será realizado no domingo (2). E descreve não só o governo inclusivo conduzido por Lula entre 2003 e 2010, mas o que aconteceria durante toda a noite da terça-feira (28) no espaço histórico do Teatro Oficina, em São Paulo.

O evento foi aberto com a leitura emocionada do Manifesto Lula Livre pelo ator Sergio Mamberti. Emoção à flor da pele, a poesia ganhou o palco. Raquel Almeida anunciou: “Vamos de poesia, porque nossa luta é poética”. Sérgio Vaz, idealizador do Sarau da Cooperifa, avisou: “Cuidado, o acaso é traiçoeiro e o tempo é cruel, tome as rédeas do seu próprio destino”. O slam de Lucas Afonso ironizou o governo eleito após a prisão de Lula: “Não apareceu nos debates/ Não apresentou proposta/ E o povo que confiou, está esperando resposta/ E ainda tem quem posta e defende sem medo/ Mas a maioria tá falando que votou no Amoêdo”.

Lula livre e a defesa da educação

A defesa da educação pública e de qualidade também fez parte do Esquenta por Lula Livre. A presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE), Marianna Dias, convocou todos para a luta. “O que aconteceu no dia 15 foi histórico e precisa se repetir no dia 30, temos de chamar todo mundo para defender a educação no nosso país. A educação liberta, é o espaço da democracia, do questionamento e por isso eles têm ódio da universidade, da escola”, disse, lembrando dos tempos do governo Lula e do ministro da Educação, Fernando Haddad, quando a universidade brasileira deixou de ser “um espaço das elites”. “As pessoas da periferia puderam sentir o gosto do que é sentar no campus de uma universidade e melhorar sua vida através dos estudos.”

Ana Estela e Fernando Haddad subiram ao palco sob aplausos. A professora, responsável pela idealização do ProUni, convocou todos para as ruas no dia 30. Para o ex-ministro, o Brasil vive uma metáfora do que está acontecendo com Lula. “O Lula está preso, mas eles estão tentando aprisionar tanta coisa”, disse, elencando os ataques à cultura, às universidades, aos institutos federais, à educação básica, à ciência e aos direitos. “Hoje cortaram o dinheiro da restauração do Museu Nacional do Rio (de Janeiro). Vai sobrar o quê desse período?”

E responde: “essa demonstração que a juventude deu (com os atos de 15 de maio) é uma prova de que Lula livre é uma possibilidade tanta quanto o Brasil livre é uma possibilidade. Ou seja, a gente tem de estar junto, estar na rua para resgatar o país.”

Amor é tudo

Para o dramaturgo José Celso Martinez Corrêa, anfitrião da noite, esse estar junto é fundamental. Para ele, saber que Lula está amando foi a melhor notícia desses tempos. “O amor é tudo. O amor e o humor.”

Haddad ainda dividiu o palco com os músicos Edgard Scandurra e Taciana Barros. E cantou Ódio, música da Caetano Veloso.

Veio e não veio quem eu desejaria
Se dependesse de mim
São Paulo em cheio nas luzes da Bahia
Tudo de bom e ruim
Era o fim, é o fim,
Mas o fim é demais também
Odeio você, odeio você, odeio você
Odeio

Música, cordel, poesias, performances. A noite avançava e o esquenta para o Festival Lula Livre seguia diverso na cultura e na representação do seu povo. Teve rap, teve rock e teve o samba de Grazi Brasil, encerrando a festa com Mangueira e Paraíso da Tuiuti.. Professor, músico, pesquisador, Salloma Salomão trouxe a força de sua cantiga. A atriz trans Leona Jhovs cantou a dor da segregação.

Ricardo Stuckert

Edgar Scandurra e Fernando Haddad tocam “Ódio”, de Caetano, na companhia de Ana Estela. Érica Malunguinho avisa que Lula é preso político, e que todo preso preto é preso político. Leona Jhovs canta a dor da segregação. Sergio Mamberti e Raquel Almeida, manifesto com poesia

Antes de Grazi, a fala da deputada estadual Erica Malunguinho (Psol-SP), mulher trans e negra, deu o tom que, em sua visão, está no foco da prisão política de Lula, e da unidade na luta por sua liberdade. “Vivemos uma sequência de golpes que culmina na prisão de uma liderança popular que representa essas pessoas também, que são ceifadas constantemente”, afirmou a deputada. “É obvio que Lula tem de estar livre, tanto quanto é óbvio o genocídio da população preta, tanto quanto é óbvio o transfeminicídio, o feminicídio, a LGBTfobia. Ou a gente desmascara e desvela de vez esses projetos de poder ou daqui a 10 anos, 20 anos estaremos novamente convocando o povo preto e LGBT para travar uma luta que já deveríamos ter superado. Sejamos radicais para alcançar as mudanças urgentes de que tanto precisamos.”

Lula livre para o mundo

O Festival Lula Livre será neste domingo (2), a partir das 14h, na Praça da República, centro de São Paulo. Estão confirmadas as participações de Baiana System, Arnaldo Antunes, Fernanda Takai, Zeca Baleiro, Criolo, Odair José, Emicida, Dead Fish entre outros.

Os organizadores relatam que centenas de pessoas estão doando seu trabalho para a realização do festival “em defesa de liberdade para o presidente Lula e da democracia em nosso país”. E convocam o público a também colaborar com uma “vaquinha”, lançada custear a infraestrutura e a transmissão do Festival para o mundo. “Um financiamento coletivo, para que o grito de Lula Livre ecoe para além das nossas fronteiras”, afirma a organização do evento. “Sua doação irá garantir a transmissão das oito horas de música, cultura e arte por Lula Livre.”

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