Depois de 55 anos

Filho de Jango repudia celebração de 1964: ‘Projeto de nação ainda os assusta’

Para João Vicente, ordem do presidente ajuda a criar uma nova consciência de resistência. 'Está na hora de pensarmos em uma grande frente política, de todos os democratas'

Geraldo Magela/Agência Senado
Jango

João Vicente: ‘O problema para que gosta de atirar com armas é não fazê-lo com o cano sujo, pois o tiro pode sair pela culatra’

São Paulo – A determinação do governo de “celebrar” o golpe dado há 55 anos não surpreende o filho do principal personagem daquele período, o ex-presidente João Goulart, o Jango, que teve o mandato constitucional interrompido e morreu no exílio, em 1976. “Não esperávamos outra coisa de um presidente que que durante toda sua vida nada mais fez do que pregar o ódio e praticar o aprofundamento divisional da diversidade ideológica, política e comportamental da uma sociedade como a brasileira”, diz João Vicente, filho mais velho do ex-presidente.

Ele tinha 7 anos em 31 de março de 1964. Em seu livro de memórias, lançado em 2016, conta estava em Brasília com a mãe, Maria Thereza, e a irmã, Denise, enquanto Jango se encontrava no Rio de Janeiro. No dia seguinte, a família viajou às pressas para o Rio Grande do Sul. 

“Lembro-me de que não foi possível levar alguns dos brinquedos que queríamos, como sempre fazíamos nas viagens ao Rio, a Porto Alegre ou a São Borja. Levávamos tudo o que queríamos, mas nessa viagem, não. Parecia uma viagem diferente. E seria diferente para sempre”, escreveu.

Para João, a postura de Jair Bolsonaro tem um viés positivo: “Nada mais mostra o medo que o projeto de nação proposto por Jango ainda subsiste nos pesadelos da casta militar. Isto nos mostra cada vez mais que Jango vive! E com ele, os anseios da construção do nacional-desenvolvimentismo”.

Candidato à Presidência da República em 2018 pelo PPL – que acaba de se incorporar ao PCdoB –, ele acredita que é momento de pensar em uma ampla frente política. “De todos aqueles que repudiam o fascismo, o totalitarismo, de todos os democratas, de esquerda ou direita que respeitam as divergências ideológicas, mas que sabem que só a verdadeira democracia pode avançar, construindo um caminho onde soluções de desenvolvimento possam ser alcançadas com a participação de várias correntes políticas.”

 

Como filho do presidente deposto em 1964, como o senhor recebeu a determinação do atual presidente de “comemorar” a data no próximo fim de semana?

Na verdade, não nos surpreendeu em nada. Não esperávamos outra coisa de um presidente que durante toda sua vida nada mais fez do que pregar o ódio e praticar o aprofundamento divisional da diversidade ideológica, política e comportamental da uma sociedade como a brasileira que, evidentemente, como outras tem na formação na sua origem civilizatória, diferentes matizes culturais e éticos na construção de nossa brasilidade.

Considera-se pessoalmente ofendido por essa postura?

Não. Depois de 55 anos do golpe de Estado de 1964, depois de 21 anos de opressão, censura e manipulação da mídia através de tratativas não só da obsessão da perseguição, cassação, e prisões de políticos e jornalistas que não podiam falar sobre liberdade, democracia e justiça social, e ainda hoje, esta postura do Bolsonaro nada mais mostra o medo que o projeto de nação proposto por Jango ainda subsiste nos pesadelos da casta militar. Isto nos mostra cada vez mais que Jango vive! E com ele, os anseios da construção do nacional-desenvolvimentismo.

O Ministério Público Federal recomendou aos comandos militares que evitem celebrações. O sr. acha suficiente?

É uma grande atitude dos instrumentos democráticos, mas o mais importante é que a ordem de comemoração de um período por eles instalado, onde se matou dentro dos quartéis, se torturou, se praticaram torturas dentro dos quartéis, onde desapareceram pessoas sobre a tutela do Estado, onde se cassaram mandatos eletivos, onde se fechou o Congresso Nacional pela força das baionetas, está criando uma consciência novamente de resistência, e isto é bom. Está na hora de pensarmos em uma grande frente política, de todos aqueles que repudiam o fascismo, o totalitarismo, de todos os democratas, de esquerda ou direita que respeitam as divergências ideológicas, mas que sabem que só a verdadeira democracia pode avançar, construindo um caminho onde soluções de desenvolvimento possam ser alcançadas com a participação de várias correntes políticas.

O senhor acredita que é uma bravata, ou algo dessa natureza, ou uma estratégia para desviar atenção sobre assuntos de interesse do governo?

O problema é que o presidente Bolsonaro ainda está em campanha, não se deu conta que já assumiu a Presidência da República e hoje é presidente de todos os brasileiros. Sua lógica é a perseguição constante a todos os adversários, que para ele são inimigos. Sua lógica é sempre embaixo do travesseiro ter uma arma, engatilhada pelas dúvidas que apareça um inimigo dentro de seu quarto no Palácio da Alvorada. Por isso acredita piamente em suas bravatas. O problema para quem gosta de atirar com armas é não fazê-lo com o cano sujo, pois o tiro pode sair pela culatra.

A Comissão Nacional da Verdade fez várias recomendações que até hoje não foram seguidas. O Brasil, diferente de países vizinhos, segue tendo dificuldades de fazer o resgate da memória daquele período. Por quê?

Na verdade, tivemos no país uma auto-anistia. Isto foi muito debatido na Comissão da Verdade e em outras associações de perseguidos e desaparecidos políticos, que continuam a lutar para que em algum momento possa-se ajustar estas deficiências da lei, e incluir cláusulas de direito internacional que não podem faltar em nenhum país que preze e defenda os direitos humanos, como a “imprescritibilidade dos crimes de lesa-humanidade” , assim como a condução da investigação de crimes praticados por agentes do Estado, não estejam incluídos nesta “anistia”.

A condução da investigação criminal deve ser feita por um juiz e não por procuradores do MPF, pois a dificuldade de agir em outros países é imensa. E muitas vezes os crimes cometidos eram internacionais. A Operação Condor é um exemplo. Há três anos, o Ministério da Justiça brasileiro solicitou ao Itamaraty que enviasse o pedido aos Estados Unidos, através de Departamento de Estado, a oitiva dos agentes sob proteção, que foram citados na investigação da morte de Jango, e até hoje apesar de já ter sido entregue pelo embaixador brasileiro em Washington, o governo americano sequer deu resposta ao governo brasileiro. Para que, se eles já compraram nossa soberania? Receberam agora, na visita de Bolsonaro a Trump, a escritura quitada.

Passados apenas três meses, o governo enfrenta desgaste e queda da popularidade. O sr. acredita que consegue se manter? 

Cair 15% em três meses é, sem dúvida, um precipício vertiginoso. Mas para quem tem guru de cabeceira, e o mesmo vaticinando que seguindo assim em seis meses estaria liquidado o governo, é bom termos atenção no movimento do tabuleiro. Para quem não presta atenção, o xeque-mate pastor é bem possível. 

Mourão é uma opção?

Democraticamente ele é o vice-presidente. A evolução do quadro político é de fundamental interesse para as oposições, pois temos que fortalecer as opções de luta e analisarmos as correlações de força. Sabemos que ele está longe de ser um Lott, mas quem sabe, todos algum dia evoluímos. Ele deve saber que o golpe não foi para colocar um freio no comunismo. Foram cassados quase 7 mil militares nacionalistas que apoiavam as reformas nacionalistas de 1964. Tem muito militar que não quer bater continência e pedir licença para entrar na Base de Alcântara, dentro de nosso território, para militares americanos

A democracia está sob ameaça?

Ela não está sob ameaça nos moldes pelos quais o conceito democrático nos é expressado pelo dicionário. Ela já foi corroída, e suas instituições, sem o menor pudor se locupletaram dela, desta democracia, para atrapalhá-la, para subvertê-la, e submetê-la à tutela da “interpretação” constitucional, pelo Judiciário de uma forma política interpretando leis com novos conceitos moldados ao momento político, assim como pelo legislativo através do acesso a ele pelo volumem de recursos aplicados na obtenção de mandatos, transformando a representação do exercício parlamentar a serviço de empresas e não dos interesses populares, e no executivo favorecendo subsídios, vantagens, e outras benesses econômicas que colocam e drenam pelo ralo recursos que deveriam ser canalizados para educação, saúde pública, segurança, moradia e outras reformas estruturais necessárias ao desenvolvimento do povo brasileiro.

Nos últimos dias, houve uma reunião entre o governador Flávio Dino (PCdoB), o ex-prefeito Fernando Haddad (PT), o ex-governador Ricardo Coutinho (PSB), o ex-candidato Guilherme Boulos e sua vice, Sonia Guajajara (Psol), para discutir ações comuns. A oposição tem condições de organizar resistência e de se articular para apresentar projetos alternativos? 

Temos sim, desde que não coloquemos os cavalos à frente da diligência que trasportará nosso povo à redenção.