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'Nova Política'

DEM vai articular bancadas da bala, do boi e da Bíblia, diz Haddad

Partido herdeiro da Arena, dos tempos da ditadura, concentra poderes com as presidências da Câmara e do Senado, e passa a ser o fiador e articulador do governo Bolsonaro
Publicado por Tiago Pereira, da RBA
Política
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Valter Campanato/Fabio Rodrigues Pozzebom/Ag Brasil
Maia e Alcolumbre

Com apenas 29 deputados e sete senadores, DEM levou a presidência das duas Casas com Maia e Alcolumbre

São Paulo – Com Rodrigo Maia (DEM-RJ) reeleito para comandar a Câmara dos Deputados e Davi Alcolumbre (DEM-AP) eleito presidente do Senado, o partido (ex-PFL, ex-PDS, ex-Arena) volta a comandar as duas Casas Legislativas depois de 36 anos (quando era PDS), passando a ter poderes ascendentes sobre o governo Bolsonaro. A aprovação de qualquer medida importante para o governo dependerá do apoio do veterano Maia e do novato Alcolumbre. Essa concentração de poderes pode, inclusive, causar rusgas com o próprio PSL, partido do presidente. 

Para o ex-ministro da Educação e ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT), o DEM no  comando da Câmara e do Senado vai articular e coordenar os interesses das chamadas bancadas da bala, do boi e da Bíblia. A primeira, interessada no endurecimento das penas e na liberação da posse e do porte de armas pela população. A segunda, representando os interesses do agronegócio. E, por último, parlamentares ligados a diferentes grupos evangélicos, que em suas pautas defendem o ensino religioso e são contra a educação sexual nas escolas, além de se oporem à descriminalização do aborto.

“O DEM, na Casa Civil e na presidência das duas Casas, se habilita para exercer a função em troca de poder. Desde o fim da ditadura espera esse momento”, afirmou Haddad, que disputou as eleições presidenciais contra Jair Bolsonaro (PSL) em outubro do ano passado.

A última vez que o partido controlou as duas Casas foi em 1983, ainda durante a ditadura civil-militar, com o deputado Flávio Marcílio (PDS-PI) e o senador Moacir Dalla (PDS-ES), durante o governo do general João Figueiredo. Na época o partido tinha abandonado a sigla Arena, que dava apoio ao regime. 

A presidenta do PT, deputada federal Gleisi Hoffmann (PR), frisou que o governo “volta a ser comandado por militares, com a antiga Arena dominando o Congresso”, em alusão à presença de representantes das Forças Armadas em diversos cargos na Esplanada dos Ministérios e à vitória do DEM (ex-Arena) no Congresso. “De nova essa política não tem nada! Logo vêm os resultados: velhas medidas contra o povo: menos previdência, menos direitos trabalhistas, menos renda. O mercado agora tem como implementar.”

Para o diretor licenciado do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap),  Antônio Augusto de Queiroz, o Toninho, a ascensão do DEM – que controla apenas a sexta maior bancada, na Câmara, e a terceira, no Senado – significa que o partido do governo, o PSL, não tinha quadros com “estatura, experiência e conhecimento” para disputar o comando do Congresso. Ele lembra ainda da proximidade entre Alcolumbre e o ministro-chefe da Casa Civil, Onix Lorenzoni (DEM-RS). O agora presidente do Senado emprega em seu gabinete Denise Veberling, esposa de Onyx, desde 2016. 

Toda essa campanha do governo Bolsonaro é contraditória. O Bolsonaro não é a nova política. Está aí a 28 anos. E agora, em nome da ‘nova política’, elegeram-se velhos políticos para conduzir as duas Casas, mas velhos políticos alinhados com o programa do governo Bolsonaro”, diz Toninho.

Apesar das velhas práticas, a inexperiência do novo presidente do Senado também pode trazer problemas ao governo, segundo o diretor do Diap. Ele também prevê que a concentração de poderes do DEM, se não for bem administrada a relação com o PSL, pode ser objeto de conflitos e rivalidades.

Toninho discorda de Haddad, no entanto, sobre eventual apoio do DEM às pautas conservadoras dos grupos evangélicos. Por outro lado, ele diz que o governo terá 100% de apoio do partido nas pautas econômicas que dizem respeito à redução do tamanho do Estado, com privatizações e reformas, como a da Previdência. “Maia já deu sinalizações de que se entrar o que chama de pauta cultural antes da pauta econômica pode inviabilizar todo o processo.”