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Maduro toma posse e afirma que extrema-direita venezuelana ‘infectou’ o continente

Em meio a ameaças de boicotes, governo é reconduzido. Para professor da UFABC, Maduro tem 'conduta reprovável' em várias frentes, mas sua legitimidade não pode ser contestada

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Maduro está à frente da Venezuela desde 2013

São Paulo – O presidente reeleito da Venezuela, Nicolás Maduro, toma posse na tarde desta quinta-feira (10), em Caracas. Vencedor das eleições realizadas em maio do ano passado com quase 70% dos votos, ele chefia a nação desde 2013, como sucessor de Hugo Chavez. Maduro afirmou que seu governo é democrático e acusou parte da oposição, a extrema-direita, de ser golpista e de ter “infectado o continente”. Como exemplo disso, citou a ascensão de Jair Bolsonaro (PSL) no Brasil.

Bolsonaro declarou não reconhecer o resultado das eleições, bem como outros países liderados pela direita no continente. Na última semana, o Brasil, aliado a 13 nações de tal orientação ideológica, se encontraram em um foro chamado Grupo de Lima. Lá, decidiram não reconhecer o governo de Maduro, além de indicar uma série de medidas, ameaçando o país de boicotes.

A Venezuela passa por uma grave crise política e econômica. O professor da Universidade Federal do ABC Gilberto Maringoni afirma em texto em sua rede social que parte da responsabilidade pela situação crítica é de Maduro. “É difícil apoiar o governo Maduro, tamanha é sua incompetência e conduta reprovável em várias frentes”, observa.

O professor pondera, porém, que a legitimidade de seu governo não pode ser contestada e que não há na Venezuela alternativa a Nicolás Maduro dentro do campo democrático. Para Maringoni, o país vizinho é parte de uma estratégia geopolítica que envolve diretamente interesses políticos e econômicos norte-americanos.

“As pressões por sua queda se originam na cobiça de Washington pelas reservas petrolíferas venezuelanas (as maiores do mudo) e por forças políticas internas que combinam obscurantismo, autoritarismo e submissão ao Império”, explica. “Não é possível contestar a posse de Nicolás Maduro sem jogar água no moinho do outro lado.”

A atitude do presidente brasileiro de boicotar Maduro foi criticada pelo PT, que enviou a presidenta da legenda, a senadora Gleisi Hoffmann, ao ato solene. O partido vê em Bolsonaro uma agenda de submissão aos Estados Unidos. “A posição do governo autoritário de apoiar a política de Donald Trump (presidente dos EUA) em relação à Venezuela visa a desestabilizar o governo daquele país e acirrar seu conflito interno”, afirma a legenda em nota.

As eleições venezuelanas foram boicotadas por parte da oposição, além de não ter contado com auditoria internacional, o que motiva as críticas. O presidente é reconhecido pela Suprema Corte venezuelana, mas não pela Assembleia Nacional.

Para o PT, o não reconhecimento do governo de Maduro incita um golpe de Estado no país, contrariando “as mais altas tradições da diplomacia brasileira que, atendendo aos princípios constitucionais de não-intervenção e da solução pacífica das controvérsias, sempre apostou no diálogo e na negociação como únicas formas de resolver o conflito interno daquele país irmão”.

Países como Bolívia, Cuba, China, Turquia e México enviaram representantes de Estado para a posse de Maduro. Gleisi divulgou uma nota apontando alguns motivos para sua presença, além dos já citados pela legenda. Entre eles, a oposição a uma “postura  belicista da Casa Branca”, e o reconhecimento do “voto popular pelo qual Maduro foi eleito, conforme regras constitucionais vigentes, enfrentando candidaturas legítimas da oposição democrática”.

Nas urnas, Maduro derrotou seu opositor Henri Falcón. O governo acusa os setores que boicotaram o pleito de serem golpistas e não aceitarem o resultado da vontade da maioria.

Discurso de posse

Em um longo discurso, Maduro reafirmou que “a Venezuela é uma democracia radical e participativa, com o povo atuando nas decisões econômicas e políticas.” Ele disse que sua origem é “a escola da luta sindical da classe trabalhadora e honesta que luta por seus direitos econômicos e sociais. Uma escola que não é a das ditaduras nem do imperialismo. Uma escola que não é de gorilas ditadores, dominadores imperialistas. Uma escola que segue as lutas sociais, assembleias de bairro e de estudantes.”

Ao criticar a oposição mais radical, o presidente lamentou que, em sua visão, ela tenha se espalhado pelo continente. Em um momento de reflexão de seu discurso, disse: “Já me perguntei quem sou frente a tantos ataques brutais de uma direita extremista e fascista. A extrema-direita venezuelana infectou a América Latina, o que resultou no governo fascista de Jair Bolsonaro no Brasil.”

“Conversando com um amigo brasileiro, lembramos que dizíamos que era exagero chamar a direita venezuelana de fascista. Mas sabíamos que tínhamos de ter cuidado para que ela não contaminasse a direita democrática do continente com ideias fascistas”, completou.

Maduro fez um apelo ao diálogo entre as nações do continente, sem intervencionismo. Chamou o Grupo de Lima de cartel, e agradeceu o apoio de China e Rússia. “O cartel de Lima mandou um documento ofensivo e violatório. Intervencionista. O cartel da direita agride o direito internacional. Cartel, porque ataca um país pacífico. Esses governos de direita querem nos dar ordens do que fazer dentro da Venezuela, como se fossemos colonizados. Atuam de maneira grosseira e insultam nosso país”, disse.

Por fim, pediu a revisão do tratado, ameaçando inclusive pegar em armas, se necessário. “Peço que retifiquem em 48h se não, não resta outro caminho se não uma resposta firme às agressões. Peço união cívica e militar para defender os sagrados interesses de nosso país. Não podemos deixar que a extrema-direita destrua a união do continente que estava sendo criada. Que escutem a Venezuela, a diplomacia e a paz para retomarmos o caminho da cooperação.