Agenda de 'reformas'

Caso Queiroz e crise com Flávio Bolsonaro não devem afetar agenda neoliberal

Para analista do Diap, base de 255 deputados deve defender pautas de 'reformas' de Paulo Guedes. E, apesar de Flávio Bolsonaro, mídia 'assina embaixo da agenda econômica'

Luis Macedo/Câmara dos Deputados
Congresso

De acordo com contas do Diap, governo ainda precisa de 53 deputados para aprovar emenda à Constituição

São Paulo – A crise desencadeada pelas denúncias contra o senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), envolvendo o militar, seu ex-motorista e assessor Fabricio de Queiroz, não deve diminuir o “apoio consistente” de 255 deputados ao governo governo na Câmara dos Deputados. A agenda econômica, cujo principal projeto é a reforma da Previdência, leva em conta esse número.

A avaliação é do analista Antônio Augusto de Queiroz,  o Toninho, diretor licenciado do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). Assim, o governo precisaria de mais 53 parlamentares para mudar o sistema previdenciário (por emenda constitucional), o que exige 308 votos na Câmara.

Para Toninho, em relação a questões culturais, de comportamento, família e valores, esse quadro de apoio pode se alterar (para baixo) em função dos episódios recentes. Mas não em relação à pauta neoliberal. “Pelo comprometimento desses parlamentares com a agenda econômica, dificilmente eles votariam diferente das pautas do governo.” O grupo dos 255 deputados é formado por PSL, PP, PR, DEM, PSD, PTB, PRB, Pode, PSC, PHS, PRB e DC – legendas que já vinham dando apoio ao governo Temer.

Na opinião do analista, o governo está estruturado em dois núcleos mais extremados. O primeiro defende a pauta de costumes, muito conservadora, com a oposição da imprensa. Esse núcleo procura atrair os progressistas e os movimentos sociais para uma “guerra ideológica”. O outro grupo, representado pelo ministro Paulo Gudes (Economia), cuida de encaminhar os temas que realmente interessam no Congresso.

“A lógica é que a imprensa está fazendo exatamente esse jogo: defende a agenda econômica e combate a cultural”, diz o analista. Se praticamente todos os veículos da grande imprensa estão bombardeando Flávio Bolsonaro, por outro lado, na opinião do analista do Diap, a mídia “assina embaixo a pauta econômica”, que vai contra os interesses da população com desnacionalização e desmonte do Estado. “Quanto a isso, mídia e governo estão juntos.”

Já a pauta irrealista que engloba a ideologia de gênero, os comunistas, a escola sem partido, o meio ambiente e outros temas verbalizados pelos ministros Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Damares Alves (ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos) são parte de uma “manobra diversionista”, na opinião de Queiroz.

A rigor, para ele – e de acordo com análise do professor da Fundação Getúlio Vargas e presidente do Instituto Luís Gama, Silvio Almeida –, o governo seria estruturado em três grupos: além dos já citados ideológico-diversionista e econômico, o “policial-jurídico-militar”, representado por Sergio Moro (Justiça) e Hamilton Mourão, o vice-presidente.

Segundo a avaliação do analista do Diap, os escândalos envolvendo Flávio Bolsonaro podem, sim, ter consequências mais graves. “Porque uma parte dos bolsonaristas mais radicais e ligados à defesa de valores ficou com vergonha ou com culpa, apesar de haver os que radicalizam mais ainda a favor do governo, acusando que isso é coisa de inimigos.”

A questão é que a opinião pública tem reflexo sobre os políticos “de modo imediato”. “Os políticos não podem abandonar o barco agora, mas na medida em que a opinião pública for abandonando o governo, para alguns parlamentares e políticos vai começar a cair a ficha, apesar de que alguns devem se manter fiéis até o final.”

Reprodução/TwitterBolsonaro em Davos
Bolsonaro e Netanyahu, de Israel, foram alvo de protestos no Fórum Econômico Mundial

Davos

Antes mesmo de chegar a Davos, para a reunião do Fórum Econômico Mundial, Jair Bolsonaro já foi objeto de protestos de sindicatos suíços. Em um cartaz contra ele e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu (acusado de corrupção em seu país), no fim de semana, podia-se ler: not welcome (“não são bem-vindos”), entre outros recados.

Após chegar à Suíça, o presidente da República postou vídeo no Twitter em que se dirige aos investidores. “Nós queremos mostrar que o Brasil tomou medidas para que o mundo restabeleça confiança, que os negócios voltem a florescer entre o Brasil e o mundo, sem viés ideológico, que nós podemos ser um país bom para investimentos, e em especial para o agronegócio, nossas commodities mais caras”, declarou.

No fim de semana, Mourão, presidente em exercício, questionou o ministro das Relações Exteriores à revista Época. “Ele não falou o que pretende fazer”, disse. “Vai todo mundo virar israelense desde criancinha? Vai todo mundo virar fã dos americanos de qualquer jeito? A diplomacia são métodos e objetivos, não um fim”, acrescentou, em referência à anunciada mudança da embaixada do Brasil em Israel, de Tel Aviv para Jerusalém.

Para Queiroz, do Diap, “faz parte do projeto” colocar no governo figuras como Ernesto Araújo, para chamar a atenção. “As pessoas se ocupam do enfrentamento com ele, e enquanto isso as coisas que interessam (na economia) estão andando”.