Surpresa no DF

Cristovam Buarque declara apoio a Haddad e se opõe aos que preferem a omissão.

Senador, que não se reelegeu, disse que sua postura é “contra o autoritarismo e a intolerância de Bolsonaro”. Ele afirmou que não tem ilusões, nem quer assumir cargos e sim manter a democracia no país

Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

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Buarque: democracia permite impedir gestos autoritários, proteger a natureza e garantir os direitos humanos

Brasília – O senador Cristovam Buarque (PPS), que foi governador do Distrito Federal pelo PT, ministro da Educação no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, e está rompido com os petistas desde 2005, ano em que foi demitido do cargo de ministro, declarou ontem (11) seu apoio a Fernando Haddad, no segundo turno das eleições presidenciais.

Buarque, que votou favorável ao impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, surpreendeu muita gente, sobretudo os políticos do Distrito Federal, onde haverá  segundo turno e ainda estão sendo feitos os arranjos eleitorais com as duas candidaturas presidenciais.

O senador preferiu se manifestar por meio de redes sociais, onde disse que continua sonhando “com uma democracia tolerante com as divergências e protegida contra a corrupção, com absoluta liberdade de ideias e opinião e com imprensa livre”.

Ele disse que sua posição se dá porque pretende votar contra o autoritarismo e a intolerância de Jair Bolsonaro (PSL).  “A democracia nos permite impedir gestos autoritários, barrar intolerância, proteger a natureza, garantir direitos humanos e, se necessário, reorientar o governo, dentro da Constituição. Por isso, sem ilusões, votarei Haddad”, acrescentou.

“Sem democracia a oposição ficaria impedida, os crimes e erros ficariam escondidos pela censura, como sofremos durante 21 anos de governos ditatoriais, desenvolvimento concentrador da renda e depredador da natureza, e com corrupção escondida”, afirmou.

O parlamentar, ex-reitor e professor da Universidade de Brasília (UnB), que foi derrotado nas últimas eleições, disse que está saindo da vida pública e que não quer assumir mais cargo algum, no Distrito Fderal e nem no Executivo federal. Segundo contou, pretende continuar fazendo o que sempre fez, mas em outras trincheiras, expressando sua posição política por meio de artigos e de palestras.

“Não votarei para abrir outra vez a porta do Brasil para o autoritarismo e a intolerância, mesmo quando voto sabendo dos riscos do novo governo carregar os erros do passado recente. Democracia sem equilíbrio nas contas públicas mergulhará outra vez o Brasil na ilusão do populismo e da inflação e terminará aprofundando nosso atraso e nossa injustiça, porque a justiça social só pode ser construída sobre uma economia eficiente e com estabilidade monetária. Sem isso, vamos continuar com os ‘fake avanços’ dos governos passados”, reiterou Buarque.

Renda básica

Cristovam Buarque foi governador de 2005 a janeiro de 2009 e seu governo foi elogiado por órgãos institucionais diversos. Foi ele o criador de programas de repercussão internacional, como os intitulados ‘médico da família’ e ‘renda básica da cidadania’ – este último, uma espécie de embrião do Bolsa Família, implementado no governo Lula. Também foi um dos colaboradores dos programas na educação que terminaram sendo consolidados na gestão de Fernando Haddad no ministério.

Em entrevista recente ao jornal Folha de S. Paulo, em que avaliou sua performance nas últimas eleições, ele disse que entende o fato de não ter sido eleito porque esse ano as pessoas se preocuparam mais em derrotar políticos e não em eleger.

Reconheceu, ainda, que pagou um preço com o desgaste eleitoral que teve pelas suas atitudes dos últimos anos, como o voto pelo impeachment de Dilma Rousseff e por ter votado com o governo Temer na proposta que congelou os gastos públicos e na emenda constitucional que fez a reforma trabalhista, mas não se arrepende. Argumentou que continua achando necessário o teto de gastos “porque o governo não pode gastar mais do que arrecada”.  E justificou ter sido a favor da reforma trabalhista porque, a seu ver, “o Brasil precisa modernizar suas relações entre capital e trabalho”.

Cristovam Buarque chegou a ser alvo de insultos públicos por sua postura em locais comerciais de Brasília, pouco tempo depois do impeachment de Dilma. Ele vinha sendo um crítico contumaz do PT. Por isso, sua atitude no sentido de apoiar Fernando Haddad passou a ser um dos assuntos mais comentados ao longo do dia e suscitou comparações com outros líderes políticos que preferiram a omissão como alternativa, como fizeram Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede), após o segundo turno.

Nesta sexta-feira (12), em entrevista ao site da BBC Brasil, o doutor em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP) Fernando Luanjo disse que “líderes responsáveis não têm o direito de se isentar diante da insanidade de Bolsonaro, porque o que está em jogo é a barbárie”.