Quem não tem cão, caça com gato

Fracasso de Alckmin joga Bolsonaro nos braços da mídia e do mercado

Para especialistas, o nome defendido, 'de centro”, era o do tucano, que é da direita. Mas tiveram de mudar os planos e escolheram Bolsonaro. Sem programa, mídia e mercado querem controle do governo

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O tucano Geraldo Alckmin era a aposta principal dos empresários de todos os setores, inclusive da mídia

São Paulo – O mercado e a mídia fizeram de tudo para levar o candidato Geraldo Alckmin (PSDB) para o Palácio do Planalto. Mas o tucano não deslanchou, apesar do tempo maior para a sua campanha na TV. E diante do naufrágio da candidatura, o jeito foi se aliarem ao candidato Jair Bolsonaro (PSL).

Para o filósofo e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Laymert Garcia dos Santos, era de se esperar que o apoio de última hora não fosse transferido para Fernando Haddad (PT). “A aliança com a mídia já se desenha desde o golpe, com as primeiras manifestações, especialmente quando Bolsonaro dedicou seu voto pelo impeachment de Dilma Rousseff ao coronel torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra. A mídia sequer se manifestou, cobrando o deputado pela postura que configura apologia ao crime de tortura. Isso já deu uma ideia da fascistização que viria”, diz.

Para Laymert, o apoio dos meios de comunicação a Bolsonaro é sutil, porque há vias indiretas de ajudá-lo sem demonstrar isso. Essa nuance, segundo lembra, começou a ser sinalizada desde o esfaqueamento sofrido durante campanha em Juiz de Fora (MG). “E tornou-se mais evidente com o movimento #EleNão, iniciado por grupos de mulheres. A Globo finge que não apoia, mas não deu o mesmo destaque para as manifestações contrárias ao candidato como deu para as favoráveis. Já a Folha de S.Paulo tem posição mais dúbia.”

“A Folha tem um papel meio duplo na história, porque ela conta algumas coisas. A Veja, por exemplo, alguns processos. Isso não me surpreende porque, antes de tudo, a mídia em geral é anti-PT. Então, ser anti-PT, neste momento, é ser Bolsonaro”

Já o apoio do mercado é mais explícito e coerente com seu próprio “evangelho”. “O ‘não propor nada’, e ao mesmo tempo sinalizar que o mercado será atendido em tudo, para o mercado é o que há de melhor. Ainda mais do ponto de vista ultraneoliberal. E a falta de programa do candidato também abre brecha para o controle do governo pelo capital. Para mim, não há novidade nisso, embora alguns setores finos das elites brasileiras fiquem muito incomodados por causa da brutalidade e da violência do Bolsonaro e todo mundo que está no entorno dele.”

O professor aposentado da USP e colunista da Revista do Brasil, Laurindo Lalo Leal Filho, lembra que antes de apostar em Alckmin, a mídia tentou nomes alternativos, chegando a incentivar o apresentador Luciano Huck. “E acabou apoiando Alckmin, que é considerado por eles de centro, e não de direita. Isso para dar um verniz de equilíbrio, de imparcialidade ao discurso jornalístico que apresentam. Mas houve um deslocamento da direita para um candidato que possivelmente fará um governo de extrema-direita se for eleito”, diz.

Lalo avalia que o atual processo político é o mais alinhado com a extrema-direita de toda a história do Brasil. Até então, apenas durante o movimento da Ação Integralista Brasileira, na década de 1930. Mas seu líder, Plínio Salgado, não foi tão longe.

“Em eleição na década de 1950, nem ficou entre os primeiros mais votados”, lembra. “Daqui a 50 anos, os alunos estudarão esse momento que vivemos, de uma candidatura cercada por intelectuais de extrema-direita, como Olavo de Carvalho. Bolsonaro e seus filhos são desprovidos de uma análise política mais profunda. Mas a mídia tem muita responsabilidade na criação do candidato ao demonizar a política”.

O professor lembra ainda que a eleição do atual candidato do PSDB ao governo de São Paulo, João Doria, para a prefeitura paulistana, em 2016, é resultado dessa negação da política, que se expandiu por boa parte do país.