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Entrevista

Haddad no ‘Jornal da Globo’: Lula é um líder político respeitado em todo o mundo

Candidato do PT acentua parcialidade da Justiça e da mídia em condenar, diz que a legenda é vítima de processos inconclusos e lembra Luiz Gushiken, 'inocentado já em seu leito de morte'
Publicado por Paulo Donizetti de Souza, da RBA
08:44
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Reprodução
Haddad no Jornal da Globo

Haddad teve mais espaço para responder do que em outras sabatinas da Globo. Mas não faltaram interrupções

São Paulo – O candidato do PT à Presidência da República, Fernando Haddad, defendeu o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como um líder político que precisa ser ouvido, e que também dá ouvidos aos interlocutores. Segundo Haddad, Lula não pode ser comparado ou reduzido a um suposto “cacique” partidário, mas visto como estadista, respeitado no Brasil e no mundo, depois de dois mandatos bem sucedidos no comando do país. 

“Nós vamos a Curitiba ouvir o Lula e para que ele nos ouça também. É o líder político que mais ouve que eu conheço”, disse Haddad à apresentadora Renata Lo Prete, do Jornal da Globo, em entrevista na madrugada desta quinta-feira (20). Renata procurou apresentar-se, na maior parte do tempo, como uma entrevistadora mais civilizada do que nas outras três entrevistas em que o candidato foi “inquirido” por veículos da emissora. Mas ela não deixou de mostrar algum “talento” para interromper o entrevistado.

O momento de mais interrupções se deu nos minutos finais, em que a perguntadora tentou reduzir a candidatura de Haddad à de um “indicado” por Lula (“O senhor não teme ser um presidente fraco?”). E desqualificar a liderança do ex-presidente como a de “mais um cacique” dos sistema político tradicional.

A apresentadora tentou expor uma possível contradição entre a defesa petista de uma reforma política e a suposta “reprodução” do sistema político envelhecido, por meio de uma subordinação ao líder preso desde abril. “Em que o PT se difere do modelo clássico (do sistema político que precisa ser reformado)?”, perguntou. “Nos seus filiados”, respondeu o ex-prefeito de São Paulo, ressaltando a influência das bases partidárias nas decisões da direção, e o fato de que nos partidos tradicionais os caciques “simplesmente mandam”.

A jornalista insistiu. “No que a figura de Lula se diferencia de outros caciques?”

“O PT é grande”, respondeu. Explica que Lula já perdeu muitas prévias. Mas que depois de dois governos reconhecido interna e externamente, é natural que seja mais ouvido. E reafirmou que por trás da legenda há um projeto.

“Existe uma decisão mais complexa do que parece, que é sobre quem pode melhor encarnar o nosso projeto. O Lula é quem melhor pode encarnar, mas teve a candidatura injustamente barrada. É uma personalidade mundial”, disse, evitando exaltar a si mesmo, mas ponderando que a transferência de votos do ex-presidente não “funcionaria para todos”.

Mudando de assunto

A cada momento em que começava a passear sobre os temas o entrevistado era convidado a mudar de assunto. Foi assim quando Haddad falava da reforma do sistema bancário, do papel da Caixa Federal para a habitação e do Banco do Brasil para o crédito rural – sem a necessidade de impor regras diferentes do jogo para bancos públicos e privados –, e ao defender tributação maior para os bancos que cobram juros mais altos.

Provocado se a “insegurança jurídica” não poderia afastar investidores diante da promessa de revogar a reforma trabalhista ou a emenda constitucional do teto de gastos, o candidato rebateu que o governo Temer é que a trouxe. 

“Insegurança jurídica vem das reformas do atual governo. Como governar com teto de gastos e baixo crescimento? Não existe nenhum lugar do mundo que tenha aplicado essa medida. A Grécia (crise mais grave da Europa) não fez isso, nem a Argentina (atualmente em grave crise), que acabou de fazer acordo com FMI. Não é inteligente”, sublinhou.

E lembrou que a suposta “austeridade” imposta pelo atual governo não é sinônimo de confiança, ao contrário do que ocorria no governo Lula: “Nunca houve tanto investimento estrangeiro no país como nos anos do governo Lula”, provocou, quando foi convidado a mudar de assunto mais uma vez. 

Depois de perder terreno na seara da ciência política, Renata saltou para o tema da corrupção, perguntando se os “ataques” do PT ao sistema judiciário é que não seriam parciais e injustos. Haddad acabara de lembrar que o processo que levou Lula à prisão era internacionalmente identificado como viciado e insustentável. “É unânime que o presidente Lula foi vítima de uma sentença injusta.”

Renata, como os demais entrevistadores nos outros episódios globais, ignorou solenemente a insustentabilidade das acusações contra o ex-presidente e procurou expandir o alcance da judicialização. Teve a “habilidade” de citar nomes envolvidos em circunstâncias diferentes. “José Dirceu, Antonio Palocci, João Vaccari Neto, André Vargas. Algum desses foi condenado injustamente?” 

Haddad admitiu não conhecer todos os processos. Mas exemplificou, por meio do caso de João Vaccari, que o Judiciário adota “dois pesos e duas medidas”. Lembra que na condição de tesoureiro, o ex-dirigente, que se encontra preso desde abril de 2015 com base em delações, apresentou à Justiça Eleitoral toda a contabilidade do partido, e todas foram aprovadas.

Acentuou que nem Vaccari, nem seus familiares, apresentaram qualquer sinal de se beneficiarem de recursos ilícitos e que a investigação e o processo de que foi alvo não se repetiram com nenhuma outra personalidade do PSDB, no máximo envolvido em denúncias de caixa 2, relegados a apreciação de tribunais eleitorais.

“As acusações de caixa 2 contra eles foram arquivadas e as de superfaturamento em obras do Rodoanel ou do Metrô não foram adiante”, alfinetou, demarcando os tratamentos diferenciados.

O candidato petista observou ainda que todos os nomes citados são alvo de processos que ainda estão em andamento, e não transitaram em julgado. “Um dos poucos processos que se conhece que transitou em julgado no STF foi o do Luiz Gushiken”, disse Haddad, lembrando do ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social do primeiro governo Lula.

Gushiken foi alvo de “reportagem” da revista Veja em 2006, acusado de manter conta secreta no exterior. Foi réu no processo do “mensalão” acusado de peculato. Em maio de 2013, sete anos depois do início do processo, o ex-ministro já lutava contra um câncer quando acabou absolvido e seu processo chegou ao fim. Morreu em setembro. “Gushiken foi inocentado em seu leito de morte”, registrou Haddad. Veja só acabou condenada no ano seguinte, oito anos depois da reportagem falsa – o termo fake news ainda não estava em voga.

Obsessão pela prisão

Outro tema recorrente nas entrevistas de Haddad a funcionários do grupo Globo é o temor de alguma medida que venha a pôr Lula em liberdade. A Globo não discute a desqualificação de sua prisão, mas menos ainda a possibilidade de vê-lo solto. Haddad reiterou que o direito de Lula ser candidato já foi obstruído injustamente, como quem diz “não basta?”. 

E a apresentadora insiste na questão do indulto, como se estivesse tentando extrair uma promessa para cobrar depois. “Promete que não vai ter indulto?” Haddad repetiu que o que Lula quer é justiça.

Assista à íntegra: