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Eleição 2018

Haddad defende soberania do voto popular e reafirma combate à especulação financeira

Em entrevistas ao Congresso em Foco e à Globo News, vice de Lula diz que quem especular contra o Brasil vai perder, e lembra que desrespeito às urnas trouxe a atual crise institucional e econômica
por Redação RBA publicado 07/09/2018 11h11, última modificação 07/09/2018 11h20
Em entrevistas ao Congresso em Foco e à Globo News, vice de Lula diz que quem especular contra o Brasil vai perder, e lembra que desrespeito às urnas trouxe a atual crise institucional e econômica
Haddad

"Nem a Argentina, nessa medonha crise, aprova teto de gastos. Nós, sem precisar, aprovamos"

São Paulo – O candidato a vice-presidente pelo PT, Fernando Haddad, participou de duas baterias de entrevistas nesta quinta-feira (6). Uma ao site Congresso em Foco e canal de videojornalismo MyNews, onde falou por 90 minutos. E à noite no canal pago Globo News, quando foi sabatinado por mais 70 minutos. Haddad, disse que, num eventual governo eleito pela coligação O Povo Feliz de Novo, a gestão da política econômica vai coibir a especulação e o sistema bancário vai ser racionalizado.

No Congresso em Foco, disse que formou-se um mito de que a centro-esquerda não sabe administrar a economia. “O campo da centro-esquerda zela mais pelas contas públicas. Os prefeitos de direita em São Paulo quebraram a cidade”, disse. “O mercado especula muito. Vamos saber estabilizar e fazer cair a dívida pública. Mas fazer isso não é cortar dinheiro do Museu Nacional, cortar dinheiro de 1 milhão de famílias do Bolsa Família, cortar bolsa permanência de 170 mil universitários. Quem está especulando contra o Brasil vai perder.”

Um governo da coligação e do PT, segundo ele, propõe mudar a relação dos bancos com a economia. “O sistema bancário brasileiro é o mais anômalo do mundo." Na entrevista à Globo News, por exemplo, rodeado por Merval Pereira, Miriam Leitão, Cristiana Lôbo, Gerson Camarotti, Andréia Sadi e Heraldo Pereira, o petista era o tempo todo "cobrado" por assuntos de corrupção e "erros" na economia. 

No tempo em que conseguiu falar de projeto, reiterou o objetivo de regular a atuação dos bancos como meio de estimular a concorrência e o acesso ao crédito. Disse que a crise econômica é decorrência da crise institucional forçada ("sabotagem") após a derrota do PSDB nas eleições de 2014 e a traição de Michel Temer. E desafiou os apresentadores da emissora da Globo a levar aos seus programas economistas que pensem diferente das teses deles e que ponham em conta o impacto da crise política na situação enfrentada hoje pelo Brasil. 

Questionado sobre denúncias recentes do Ministério Público contra ele, Haddad calou Merval ao dizer que não é a primeira vez e que em todas as outras o MP não ganhou nenhum. "Nem nunca vai ganhar." E ironizou ainda as acusações baseadas em um único delator, Ricardo Pessoa, da UTC – "uma bandido" – empresa com quem a prefeitura desfez contratos superfaturados após "44 dias de gestão" do petista.

Antes, já havia dito que a interpretação de que o governo Temer estaria fazendo um ajuste necessário às contas do país é um “mal entendido”, na opinião de Haddad. “O governo Temer, que tem o discurso do ajuste, está gastando os tubos sem critério. Não está havendo zelo pelas contas públicas. Não há rigor na politica econômica. Quem está precisando está sem, e quem já tem recebe aumento. O déficit primário não tem trajetória sustentável. O governo está entregando o país em desordem. Nem a Argentina, nessa medonha crise, aprova teto de gastos. Nós, sem precisar, aprovamos.”

Segundo Haddad, o ex-presidente Lula chegou a sondá-lo para ser seu ministro da Fazenda. Apesar de propor um governo que racionalize as relações econômicas, faça uma reforma tributária progressiva (quem tem mais, paga mais), combata a especulação, diminua o spread, entre outras propostas, Haddad afirma que não se nega a dialogar com o mercado ou qualquer outro setor da economia.

Perguntado se tem conversado com o mercado, respondeu: “Tenho. Saiu uma reportagem no The New York Times recente, feita pela Reuters, que falou com não sei quantos CEOs do mercado financeiro, e todos eles disseram que ‘com Haddad dá pra conversar, buscar entendimento’. Falaram em on e em off.” Mais tarde, na Globonews, voltou a mencionar os encontros, voltou a provocar seus perguntadores. "Perguntem a eles (sobre programa econômico)."

Para o ex-prefeito, a gestão em São Paulo é uma demonstração de que a centro-esquerda sabe gerir a economia. “Entreguei ao meu sucessor R$ 3 bilhões de superávit. A cidade com grau de investimento. Na maior recessão do país, entreguei com recorde de investimento, 17 bilhões a valores de dezembro de 2016. Nós gostamos de investimentos, de progresso, não queremos confusão nas finanças.”

Ainda sobre especulações, o vice de Lula foi questionado sobre supostos boatos espalhados no mercado, segundo os quais Lula estaria “sacrificando” o próprio Haddad para se candidatar em 2022. Segundo Haddad, quem acredita em tais especulações mostra “total desconhecimento de quem é o presidente Lula”.

Ele lembrou que Lula desautorizou um projeto no Congresso que podia aprovar seu terceiro mandato a partir de 2011. “Lula, quando tinha 80% de aprovação, foi incitado a buscar um terceiro mandato. Ele desautorizou, sepultou o projeto (no Congresso). Essa não foi a atitude do (ex)-presidente Fernando Henrique, que buscou a Emenda Constitucional para permitir a reeleição. Lula recebeu centenas de empresários para que fosse candidato em 2014, e ele disse que só seria candidato se a Dilma não quisesse, porque era um direito dela se reeleger.”

Política

Questionado sobre se governaria com o MDB e os partidos do centrão, e como formaria maioria no Congresso, disse que o plano de governo do PT tem uma proposta para tentar resolver esse grande problema do sistema político brasileiro. A ideia é que a eleição para os parlamentos seja feita no segundo turno das eleições para presidente da República e governadores de estado.

“Porque no segundo turno você tem um ou dois candidatos. Isso vai ajudar a organizar a oposição e a situação de maneira mais transparente, pelo voto, do que o presidente ficar refém, como fica hoje, com os deputados já eleitos no primeiro turno.”

Apesar de ressalvar que os problemas brasileiros não serão resolvidos “num passe de mágica”, explicou que a proposta foi inspirada no modelo francês. O presidente francês Emmanuel Macron se elegeu na França (em 7 de maio de 2017) e quatro meses depois foi eleita a Assembleia Nacional. "E ele compôs maioria. Você não vê Macron fazendo negociação para fazer maioria, porque o voto permitiu a composição da maioria.”

Perguntado se, caso Lula não possa ser candidato, daria um indulto ao ex-presidente se eleito, Haddad afirmou que foi sondado pelo ex-presidente para ser o ministro da Fazenda. “Ele não pediu indulto. O que ele quer é que o STJ ou o STF julguem seu processo e reconheçam um erro jurídico.”

O ex-prefeito, que é advogado, disse que leu a sentença que condenou Lula. “Desafio a me indicar um parágrafo, dos 900, onde está a prova contra o Lula. Temos uma campanha internacional pela liberdade dele.”

A decisão sobre a oficialização da candidatura de Haddad à presidência pode ser anunciada na segunda ou terça-feira. Segundo Haddad, o país passa por um período “excepcional”. “Hoje subiu o recurso do Lula ao STJ, e nós já estamos pressupondo duas coisas: ou não será julgado, ou a sentença do Moro não será revista. A presunção de inocência no Brasil acabou.”

Para Haddad, as visitas que Lula tem recebido de autoridades, escritores e líderes políticos são significativas. “Na semana passada foi ninguém menos do que o ex-presidente do parlamento europeu, Martin Schulz, que deu um depoimento belíssimo, dizendo: ‘nós confiamos no presidente Lula’. Por que um presidente de parlamento europeu vai vir aqui em Curitiba dizer uma coisa dessa, colocar sua reputação em jogo, se não estivesse convicto de que tem alguma coisa errada nesse processo?”

Na Globo News, o ex-prefeito começou manifestando sua solidariedade ao candidato do PSL que foi esfaqueado, e lamentou a violência. “O PT tem um compromisso com a liberdade e uma campanha muito propositiva. Nosso programa procura fortalecer as instituições. Nunca jogamos no radicalismo. Mantemos um diálogo republicano com as instituições”, disse.

Assista à íntegra da entrevista na Globo News