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ANÁLISE

Como fica o cenário eleitoral com Haddad candidato?

Especialistas avaliam transferência de eleitorado de Lula e conquista de votos das mulheres como desafios para chapa, que agora tem Manuela D'Ávila como candidata à vice
por Rute Pina, do Brasil de Fato publicado 12/09/2018 10h23, última modificação 12/09/2018 11h01
Especialistas avaliam transferência de eleitorado de Lula e conquista de votos das mulheres como desafios para chapa, que agora tem Manuela D'Ávila como candidata à vice
AGPT
Fernando Haddad

Articulações para inibir a candidatura de Lula podem beneficiar a transferência de votos do ex-presidente para Haddad

Brasil de Fato – Fernando Haddad (PT) e Manuela D'Ávila (PCdoB) foram os escolhidos para assumir a chapa presidencial do PT, nesta terça-feira (11), em cumprimento à decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que impediu o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de ser candidato. 

Agora, especialistas avaliam que o Partido dos Trabalhadores tem desafios pela frente: em especial, a transferência de votos do ex-presidente, que liderava as pesquisas de opinião com mais de 10 pontos percentuais de vantagem para o segundo lugar, e a conquista de novos votos em um eleitorado fragmentado. 

A cientista política Maria Socorro Braga, da Universidade Federal de São Carlos, pondera que a substituição de Lula ocorre por uma imposição do judiciário.

"Essa troca de candidato já era aguardada porque a gente sabia que a justiça já tinha resolvido que não ia aceitar a candidatura do Lula", diz. "Se sabe que se permanecesse com essa situação poderia haver alguma outra guinada do Judiciário, inclusive impugnando a própria chapa".

Mas, segundo ela, as articulações para inibir a candidatura de Lula podem beneficiar a transferência de votos do ex-presidente para Haddad. 

Ela também pontua que os retrocessos sociais e econômicos durante o governo de Michel Temer (MDB) vão acentuar os chamados "votos retrospectivos", ou seja, angariados por causa de uma memória positiva dos governos petistas. 

"Qualquer governo que assumir o país vai encontrar uma situação crítica. Então, se ele [Haddad] conseguir colar sua imagem ao ex-presidente Lula e às principais políticas sociais, de aumento do salário mínimo e de outras condições necessárias para que as pessoas tenham uma vida melhor, maior a chance desse eleitorado votar na proposta petista", avalia.  

Força partidária

O historiador Lincoln Secco, da Universidade de São Paulo (USP), afirma que o PT teve ganhos políticos e eleitorais com a estratégia de levar o nome do ex-presidente como candidato até o último momento possível pelo calendário eleitoral.

Ele avalia que é "inegável" que Lula permaneça como ator político determinante para transferir votos a Haddad, mas que há outros fatores que influenciam a disputa. 

"É muito difícil que um partido que tenha essa transferência do eleitorado não tenha um candidato no segundo turno, qualquer que seja ele. Mas não é só uma questão de transferência de votos do Lula. É a força que o Lula representa, e também a capilaridade nacional que o PT possui".

De acordo com o Ibope, o PT é o partido preferido de 29% da população brasileira. O índice supera as demais 34 legendas registradas no TSE somadas, e é o maior desde 2014. O professor da USP afirma que o partido recuperou seu prestígio porque "o projeto de direita naufragou".

"A direita enveredou pelo caminho do golpe parlamentar; depois, de aplicação de reformas altamente impopulares sem legitimidade do governo para fazer isso. Então, é óbvio que uma parte expressiva da população se voltaria para aquele instrumento político que ela já reconhece como representante de políticas sociais, de uma  posição progressista de esquerda, que é o PT", diz Secco. 

Para o professor, o grande desafio de Haddad, de perfil mais moderado, é conquistar votos em redutos não tradicionais do partido – o que, na visão do professor, foi o que determinou a sua escolha para substituir Lula.

"Eu acho que ele tende a fazer uma campanha conciliadora. Mas isso estaria em contradição com o programa atual do PT, que é o mais radical dos últimos tempos. Então, vamos ver como ele vai equilibrar a imagem de moderado com a radicalidade do programa".

Eleitores difusos

Já Maria Socorro Braga afirma que, para chegar ao segundo turno, o PT e os partidos coligados têm que definir uma estratégia para dar resposta a um eleitorado fragmentado.

"É um eleitorado que não se diz de direita, de esquerda, nem de centro. Ele se coloca como 'quem fizer melhor ou quem propor condições políticas para que minha vida melhore ou mantenha o patamar que eu alcancei' é a tendência do eleitor se voltar para essa força", afirma. "Eles tem que conseguir passar essa certeza para um eleitorado que é volátil."

Por isso, a professora pontua a importância do papel de Manuela D'Ávila na coligação O Brasil Feliz de Novo.

"Hoje é o eleitorado feminino que, por outro lado bloqueia a candidatura de Bolsonaro ascender, passar do patamar que parece que ele já chegou, que parece um teto. Então, esse eleitorado Haddad e Manuela, que é fundamental nessa chapa, têm que fazer um forte trabalho para atingir esse eleitorado feminino", finaliza.

A pesquisa de intenção de voto do Datafolha, publicada nesta segunda-feira (10), revelou que Jair Bolsonaro (PSL) tem dificuldades para conquistar votos entre os eleitores mais pobres, com menor nível de instrução e entre as mulheres.