Falência

‘A tal da democracia liberal chegou no limite’, diz Miguel Nicolelis

Na USP, neurocientista brasileiro diz que o mundo está dividido em dois modelos antagônicos. E que os países em que ele apostou – Estados Unidos e Brasil – estão afundando

CC 2.0 Wikimedia
Miguel Nicolelis

Nicolelis: ‘Fiquei chocado de ver o aumento do fascismo na Suécia’

São Paulo – O sistema político em que os direitos e liberdades individuais são oficialmente reconhecidos e protegidos, e o poder respeita os limites estipulados pelo estado de direito, está falido. A avaliação é do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis. “A tal da democracia liberal chegou no limite”.

“Em cada país que visito, há uma clara divisão, com modelos antagônicos. Fiquei chocado com o aumento do fascismo na Suécia, onde estive há pouco tempo. Nos Estados Unidos, onde vivo há 30 anos, as pessoas andam armadas, se atiram umas nas outras. Os dois países em que eu apostei, estão afundando”, disse o cientista, referindo-se aos Estados Unidos e Brasil, durante palestra no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB), da USP, na tarde desta quinta-feira (27).

A escalada do fascismo nos dois países, na sua avaliação, ganha espaço em  meio à apatia dos cientistas. “A economia americana do pós-guerra se desenvolveu a partir da pesquisa científica. E a ciência vem perdendo prestígio nos Estados Unidos, onde um executivo do mercado financeiro tem mais status do que já tiveram os pesquisadores. No Brasil, as academias de ciência, que tiveram papel fundamental na resistência à ditadura, hoje não passam de cartório. Elitistas, não fazem ciência e nem resistência política. Aliás, política virou palavrão no Brasil”, comparou.

O mesmo não acontece na China, país em que Nicolelis tem colaboradores e para onde tem viajado recentemente. “Lá os cientistas são valorizados, têm distinção, prestígio e seu trabalho é incentivado. Não é a toa quem em 2020 o orçamento chinês para a ciência vai ultrapassar a dos Estados Unidos. Será um momento histórico que marcará o início de repasse público de US$ 140 bilhões anuais para a ciência”.

Um dos maiores cientistas do mundo na atualidade, ele desenvolve tecnologias que aos poucos estão devolvendo o movimento dos membros inferiores a pessoas há anos paralisadas por lesão medular. Seus estudos, divulgados nas revistas científicas mais importantes do mundo, podem ser acompanhados pelas redes sociais do cientista, um dos mais ativos em comunicação. É dele o projeto do exoesqueleto, que pelo acordo deveria ter sido responsável pelo pontapé inicial de uma pessoa com paralisia no jogo de abertura da Copa do Mundo do Brasil, em 2014. No entanto, a Fifa não permitiu. Em vez disso, uma plataforma foi instalada na lateral do campo, e o chute de Juliano Pinto, que garante ter sentido a bola, teve segundos de cobertura na TV.

O passo gigante da ciência brasileira foi boicotado pela transmissão da Fifa. E o valor do vídeo foi inflacionado pela federação internacional: 8 mil euros por segundo, que Nicolelis não pagou. As cenas “piratas” que ele exibe foram obtidas por seu próprio celular.

Nicolelis é também uma das vozes mais importantes na defesa da frágil democracia e contra o golpe de estado no Brasil, que destituiu a presidenta eleita Dilma Rousseff em maio de 2016. Um apoio que custou caro a projetos de cunho científico, educacional e social que ele coordena.

No começo de dezembro, com dez dias de antecedência, o Ministério da Educação (MEC) comunicou o corte de recursos para as três escolas de educação científica para estudantes da periferia de Macaíba, no Rio Grande do Norte, e em Serrinha, na Bahia. Sem conseguir recursos no exterior – as fontes temem interferência do governo – o jeito foi suspender as atividades.

Foram prejudicados mais de 1.400 alunos do 6º ao 9º ano dessas localidades, que tinham acesso ao ensino de tecnologia, física, química, biologia, robótica, meio ambiente, história, artes e comunicação não em salas de aula convencionais, mas em laboratórios com equipamentos de ponta. Igualmente perderam professores e gestores de escolas públicas parceiras do projeto, que recebiam ali formação continuada. 

“Apesar de preenchermos todos os requisitos, o MEC afirmou não ter mais interesse de financiar educação em ciência. Eles renunciaram a projetos, a acordos firmados. Se o ministério não tem interesse, quem vai ter?”, questionou o cientista, que busca alternativas para reabrir as escolas.

Vinculado ao Instituto Internacional de Neurociências Edmond e Lily Safra (IIN-ELS), criado em Natal para estimular o crescimento da pesquisa científica de ponta e o desenvolvimento educacional, social e econômico do Rio Grande do Norte e do Nordeste, o programa implementado em 2003 por Nicolelis recebia recursos do governo federal. 

“Como Santos Dumont, que inventou o voo controlado, as 11 mil crianças que passaram pelas escolas aprenderam a construir aviões e a voar, mas para elas falta um aeroporto”, disse, de maneira simbólica. “O MEC fechou as três escolas. Quem está no MEC passa, quem é Santos Dumont, fica. Nas federais do Nordeste, há filhos de Macaíba, que pela primeira vez puderam entrar nas federais”.