Home Política Zé Celso: ‘Lula é mais do que se vê nele. É um xamã’
lula livre

Zé Celso: ‘Lula é mais do que se vê nele. É um xamã’

Em noite de lançamento da obra 'Lula Livre / Lula Livro', em um teatro Oficina lotado, o dramaturgo exalta ex-presidente ao lado dos autores e artistas
Publicado por Gabriel Valery, da RBA
16:54
Compartilhar:   
instagram/mari valadares
zé celso oficina

‘Estão querendo nos matar, mas temos que reagir com vida’, disse Zé Celso em teatro lotado

São Paulo – “Lula é mais do que se vê nele. É um xamã e temos que ter coragem de dizer essas coisas (…) Estão querendo nos matar, mas temos que reagir com vida”, disse o dramaturgo José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, que comanda o Teatro Oficina, no Bixiga, centro de São Paulo. Seu espaço recebeu na noite de ontem (13) o lançamento da antologia Lula Livre / Lula Livro. São mais de 90 autores, incluindo poetas, cronistas, fotógrafos e cartunistas, em defesa da liberdade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso desde 7 de abril.

O ato começou com a exibição de vídeos de Lula. “Não tenho medo do que está por vir. Enquanto me restar pelo menos um minuto de vida, ele servirá para lutar pela dignidade do nosso povo e defender nossa honra”, afirma em um deles. Na sequência, o escritor Ademir Assunção, um dos organizadores do livro, ao lado de Marcelino Freire, apresentou autores, que fizeram leituras de suas obras.

“Foi uma noite incrível, muito forte. Posso dizer mágica”, disse Assunção. “O teatro estava abarrotado e com muitos artistas. Tivemos leituras, por exemplo, de Chico César, Alice Ruíz, Roberto Estrela Dalva e Marcelino Freire. Tivemos participações especiais do Eduardo Suplicy (vereador e pré-candidato ao senado pelo PT), do ator Sérgio Mamberti e do anfitrião, Zé Celso.”

Os 550 livros postos à venda se esgotaram. Pouco antes do início do ato, a fila para conseguir um exemplar estava na calçada da Rua Jaceguai, no bairro da Bela Vista. “As pessoas que chegaram depois ficaram sem livro. Tudo isso com o desejo, a vibração pela liberdade de Lula.”

Para Assunção, Lula é um preso político. “É como se na Olimpíada você amarrasse o corredor que seria o possível ganhador para que outros possam ganhar. O que acontece com Lula é isso, uma covardia. É algo ridículo.” 

reprodução/FPAademir lula livro.jpg
Ademir Assunção: ‘Foi uma noite incrível, muito forte. Posso dizer mágica’

O ato

Lula Livre / Lula Livro é publicado pela editora da Fundação Perseu Abramo e conta com 190 páginas. Sua epígrafe traz um trecho de um texto do escritor português Luís de Camões. Foi com ele que Assunção inaugurou sua fala no ato. “Parece que foi escrito na semana passada”, disse.

Não mais, Musa, não mais, que a lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho,
Não no dá Pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza
(Camões)

Zé Celso fez críticas aos que estão no poder desde o golpe de 2016. “O que temos aí é um quadrado morto, uma fase do capitalismo que traz o momento de maior corrupção do mundo. Nunca na história da humanidade houve tanta desigualdade. Esses golpes todos, o endireitamento, são uma reação deles a todos nós que nunca permitimos isso. Tivemos um momento luxuoso com Lula.”

O dramaturgo abordou o tema da prisão de Lula, como de costume, de forma lúdica, divertida e ácida. “As abstrações do capitalismo não nos reconhecem como bicho humano. E Lula é um ser cosmopolítico. É um cara que sabe das coisas. Não é só um político, é um homem da vida, um ser da vida. Passou por tudo e está passando por um momento que se compara ao suicídio do Getulio. Ele prefere ficar preso a ser libertado e não concorrer às eleições. Muita gente não compreende a grandeza dessa luta.”

Em épocas de dificuldade o teatro cresce de relevância, observa o anfitrião do Oficina. “Tenho visto peças extraordinárias. Há um levante da condição humana, do bicho homem ligado à natureza. É um momento de assumir que você é um ser terráqueo e que você tem desejo e liberdade. A política precisa rebolar. Vivemos sob a tirania do juízo bíblico, do superego, da polícia interna. Por isso precisamos de uma forma de alegria. Precisamos de uma atmosfera de primavera brasileira (…) Por isso, Lula. É uma incorporação, uma macumba. Se baixasse o talento do Lula em todos nós… Tem que baixar a qualidade dele. Ele é uma entidade muito forte. Só o lado briguento da política não revela”, finalizou.

O ator Sérgio Mamberti fez uma ode ao teatro em tempos sombrios. “Nós, artistas de teatro, lutamos incansavelmente pela liberdade. Isso nos dá um prazer enorme, de poder acreditar e falar em esperança. Muita luta e muita certeza de que teremos Lula presidente. Em dias como esse, que poetas se levantam conosco, estamos mais fortes. Vejo movimentos por todo o país. É o momento de estarmos juntos nas ruas, nos teatros, nas praças, para fazermos com que esse país seja o dos nossos sonhos.”

Eduardo Suplicy relatou como conheceu Lula e se tornaram amigos na década de 1970. “Lembro em 1976 quando conheci Lula. Ele era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Ele tinha um assessor que estudava economia, era do Dieese. Certo dia ele disse para o Lula que eu ia falar na faculdade dele. Eu era professor, escrevia na Folha de S.Paulo, dava aulas na Fundação Getúlio Vargas.”

Na ocasião Brasil crescia com forte concentração da renda e da riqueza, disse Suplicy. “Uma forte diferença entre ricos e pobres. Eu disse que seria importante que eles, como estudantes, se um dia se tornassem ministros, agissem de forma diferente. Então, abri para perguntas. O Lula levantou a mão e fez uma série de observações. Eis que um professor disse: ‘O que dirá o diretor da faculdade a hora que souber que está aqui um perigoso líder sindical’. O Lula ficou um pouco sem graça e saiu da sala. Ao terminar de responder as perguntas, ele estava no pátio da faculdade. Então, começamos a conversar, uma conversa viva, e o Lula me chamou para ir no sindicato. Desde então, continuei a dialogar com o Lula.”

Por fim, Suplicy explicou que sentiu identificação com a proposta de Lula de tornar o Brasil um país mais justo e igualitário. “Participei da fundação do PT. Em todos os diálogos que tive nos mais de 40 anos ao lado do Lula, sempre que conversamos sobre problemas do país, ouvi dele que, para o PT, a questão ética era fundamental.” Diante disso, o político revelou esperança de que, se a justiça for feita, Lula poderá reverter sua prisão no Supremo Tribunal Federal, se tiver garantido o direito de se explicar. “Tenho a confiança de que será possível, nessas próximas semanas, que o Lula comprove sua inocência.”