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Primeiro clipe de campanha de Alckmin tem referência ao PCC em bandeira do Brasil

Facção criminosa surgiu, se fortaleceu e se expandiu para o resto do país durante os 24 anos de governo tucano em São Paulo. Equipe do ex-governador retirou vídeo do ar
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Cena passar no ponto 00:08 do vídeo e se repete 1:01. Número ‘1533’ é referência à organização criminosa

São Paulo – O primeiro clipe da campanha do ex-governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB) à Presidência da República trouxe, sem querer, duas referências à facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), organização que, segundo especialistas em segurança pública, surgiu, se fortaleceu e se expandiu para o resto do país durante os 24 anos de governo tucano em São Paulo.

Logo nos primeiros segundos do vídeo, uma jovem percorre as vielas de uma favela e uma bandeira do Brasil tem inscrito “1533” no lugar de Ordem e Progresso. O número é considerado uma referência à sigla da facção na ordem alfabética (“P” é a 15ª letra; “C” é a 3ª).

A mesma imagem aparece novamente com 1 minuto do vídeo. A organização criminosa surgiu em 1993, um menos de um ano depois do massacre em que 111 presos foram mortos pela polícia no antigo presídio do Carandiru. O PSDB venceu a primeira eleição ao governo de São Paulo em 1994. 

O crescimento da organização então conhecida como “partido do crime” ganhou projeção em 2001, durante rebeliões que ocorreram simultaneamente em 21 presídios do estado. E novamente em 2006, quando praticou atentados contra agentes de segurança e promoveu um toque de recolher generalizado na capital paulista, em represália à transferência de um de seus líderes.

À época já se sugeria a existência de um acordo entre o governo paulista e a facção para pôr fim ao levante. Em entrevistas, Alckmin evita comentar sobre o crescimento do PCC e diz que a organização não comanda os presídios da capital.

No entanto, o Anuário Brasileiro da Segurança Pública faz clara menção à expansão o grupo como um dos principais motivos para o aumento da violência e das mortes nas regiões Norte e Nordeste do país. Locais onde a facção tenta se estabelecer e assumir o controle dos negócios ilícitos.

Dois livros publicados recentemente também contam a história da organização e falam sobre um possível acordo de não agressão entre a facção e o governo paulista: A Guerra – A Ascensão do PCC e o Mundo do Crime no Brasil, dos pesquisadores do Núcleo de Estudos da Violência da USP Bruno Paes Manso e Camila Nunes Dias, e Irmãos – Uma História do PCC, do sociólogo Gabriel Feltran.

Manso e Camila entrevistaram um preso de uma facção criminosa rival do PCC em Santa Catarina, que questiona o porquê de Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, não estar em um presídio federal. “Por que todas as facções têm os seus líderes no federal, menos o PCC?”, diz. Para os autores, o motivo seria um acordo do governo paulista com a facção.

Um preso ligado ao PCC explicou a eles que a transferência da cúpula da organização poderia causar rebeliões no sistema federal. Além disso, o governo paulista prefere Marcola e outros líderes próximos para usar isso como ferramenta de barganha.

Camila e Manso reproduzem uma notificação do secretário de Administração Penitenciária de São Paulo, Lourival Gomes, ao poder judiciário, em 2016. Ali ele diz claramente que seguraria os chefes da organização se não houvesse a realização de rebeliões ou motins.

Alckmin costuma usar como bandeira de campanha a pequena taxa de homicídios em São Paulo, como se esta fosse resultado de sua política de segurança. Em Irmãos, Feltran argumenta que, se fosse este o caso, haveria uma queda semelhante nas taxas de roubos e furtos. Para ele, a redução dos homicídios foi resultado do forte controle do PCC sobre tráfico de drogas, bem como sobre o comércio de armas e de carros roubados.

O grupo também atua firmemente como “justiça” nas periferias, instituindo tribunais e acordos entre moradores, que reduzem os casos de violência.  

O vídeo foi substituído no canal oficial da campanha de Alckmin. Mas ainda pode ser visto no canal do site Poder 360:

ReproduçãoCrítica a Temer aparece no trecho 00:28
Crítica a Temer aparece no trecho 00:28

Alckmin trai Temer

O clipe do programa tucano também inclui segundos em que o PSDB tenta se desvencilhar de Michel Temer. A mensagem coloca no mesmo barco a ex-presidenta Dilma Rousseff, o candidato Jair Bolsonaro (PSL) e o presidente empossado a partir de um golpe Michel Temer. Alckmin foi um dos apoiadores do golpe, do qual seu partido foi um dos idealizadores.

O programa “Ponte para o futuro”, que conduz o governo Temer, é tido como uma reprodução do projeto tucano apresentando em todas as eleições que perdeu, de 2002 a 2014. Alckmin e o PSDB apoiaram as principais medidas trazidas por Temer: retirada da Petrobras do controle do pré-sal (projeto do Senador José Serra), lei da terceirização, “reforma” trabalhista, emenda do teto de gastos com saúde e educação (Alckmin adotou semelhante em São Paulo), entre outras.