briga por voto

Para diretor do Diap, PSB deve se posicionar pela neutralidade na eleição

De acordo com deputado federal Júlio Delgado, o partido tinha uma tendência 'muito forte para Ciro', mas essa posição está enfraquecendo. Legenda define sua posição no dia 5 de agosto

Agencia Câmara
Júlio Delgado

“Se houver o risco de perder a mão por causa de um dedo, é preferível perder o dedo”, diz Júlio Delgado

São Paulo – Considerado peça chave no tabuleiro das eleições de 2018, o PSB só vai definir seu posicionamento no limite, dia 5 de agosto, quando se esgota o prazo das convenções partidárias. A legenda está dividida em três grupos: a neutralidade, o apoio a Ciro Gomes (PDT) ou a Lula, que pode ser também outro nome do PT, a depender dos desdobramentos jurídicos em torno do ex-presidente.

Dono de bancadas de 26 deputados e quatro senadores, o PSB comanda ainda cinco governos estaduais: Ricardo Coutinho (PB), Paulo Câmara (PE), Daniel Pereira (RO), Márcio França (SP) e Rodrigo Rollemberg (DF).

A indefinição do partido em decidir para onde ir é “demonstração de que o PSB tem características regionais muito fortes”, diz o deputado federal Júlio Delgado (MG). Ele lembra, por exemplo, que no Nordeste há numa relação mais destacada com o PT, enquanto em São Paulo o governador Márcio França é ligado ao tucano Geraldo Alckmin e, no Ceará, a legenda tende a apoiar Ciro Gomes.

“Não conseguimos encontrar um consenso. A definição será no dia 5. Tudo é possível acontecer”, afirma o deputado. “O partido tinha uma tendência muito forte para Ciro, mas essa posição tem enfraquecido.” Delgado defende o apoio a Ciro com o ex-prefeito de Belo Horizonte Márcio Lacerda (PSB) de vice.

Há 10 dias, o presidente da legenda, Carlos Siqueira, declarou considerar “inaceitável e imperdoável” que o partido adote uma posição de neutralidade num momento de crise do país. Apesar disso, para Antônio Augusto de Queiroz, diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), a tendência do PSB é justamente a neutralidade.

“A posição que menos cria dissidência é a neutralidade. E eles vão caminhar nessa direção, também, por uma razão: o partido teve um problema traumático quando apoiou o processo de impeachment de Dilma. Houve uma cisão que baqueou o partido e eles não estão dispostos a passar por isso de novo”, avalia.

Na opinião do analista político, do ponto de vista do próprio PSB, uma decisão pela neutralidade, que liberaria as lideranças para adotar estratégias de acordo com cada região, tem a menor rejeição. “Qualquer outra, seja por Lula ou outro candidato do PT, seja por Ciro, provocaria divisão, que pode levar o partido de novo a uma situação traumática e de perda de quadros.”

Como apoiador de Ciro Gomes, Delgado afirma concordar com o presidente da legenda contra a neutralidade. Mas ressalva: “Se houver o risco de perder a mão por causa de um dedo, é preferível perder o dedo do que a mão inteira. Pode ser a realidade indigesta, indesejável, mas pode ser o possível para apaziguar os problemas internos”.

Segundo o deputado, a manutenção de Lula como candidato cria problemas nas negociações com o PT. “Lula tem dificuldade pela restrição da Justiça, pela Lei da Ficha Limpa, e acho difícil conversar com um partido sobre hipóteses.”

Em Pernambuco, estado do ex-governador Eduardo Campos, morto em 2014, o atual chefe do governo, Paulo Câmara, vice-presidente nacional do PSB, já declarou apoio a Lula, e afirmou que levará à convenção no dia 5 uma posição defendendo a “aliança formal com o PT”.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo publicada no domingo (22), a uma pergunta sobre o que faria o PSB fechar com Ciro, o líder do PSB na Câmara, Tadeu Alencar (PE), respondeu que seria “uma reunião do campo progressista e democrático em torno do Ciro”.

Já o governador Rollemberg defende o apoio a Ciro, enquanto Ricardo Coutinho não se definiu. “Apoio quem o meu partido decidir apoiar”, disse.

Nesta quinta-feira (26), em convenção estadual, o PDT de Ciro Gomes anunciou apoio a França na eleição ao governo paulista. Com isso, abriu-se a porta para o palanque de Ciro em São Paulo. O presidente do PDT, Carlos Lupi, afirmou que a ideia não é compartilhar o palanque com o ex-governador tucano. “O Alckmin colocou o França em segundo plano (em favor de João Doria). Então tenho esperança que ele se convença que o palanque dele é o do Ciro.”

“Fascínio”

Além de deter cinco governadores, para Queiroz, do Diap, o PSB exerce certo “fascínio” aos partidos por outro motivo. “Porque você não pode classificá-lo nem como esquerda, nem como direita. É uma centro-esquerda mais para centro, que foge ao debate de extremos dessa eleição. O partido acomoda diversas forças, se apresenta com uma visão social, nacionalista, defensor dos mais humildes, mas sem hostilizar o mercado.”

O problema do PSB é que não ele tem um nome capaz de assumir a candidatura. “Mas ele poderia definir a eleição, se se somasse à candidatura do Ciro ou a do Lula, ou PT. Para onde ele pender, a chance de ir para o segundo turno é muito grande, por passar à população que é um partido que não vai para um extremo, nem para outro”, diz o analista do Diap.

Uma ampla união de centro-esquerda “seria o melhor dos mundos”, diz Júlio Delgado. “Mas é muito difícil. O PCdoB fala isso, mas lançou a Manuela. O PDT também diz, mas lançou o Ciro. O PT fala, mas não abre mão da candidatura. E nós não temos candidato natural.” Para o deputado, seria necessário que todos conversassem para depois encontrar um nome. “Faltando 10 dias para (o fim das) convenções, acho muito difícil que isso possa prosperar.”