Eleições 2018

Presidenciáveis hesitam na escolha dos vices

“A imprevisibilidade sobre quem vai para o segundo turno ajuda a explicar as hesitações', diz analista. Políticos procuram opções diante da insatisfação da população em relação aos partidos

Reprodução Youtube
Maria do Socorro Sousa Braga

“O papel do vice também está desgastado”, diz cientista política

São Paulo – A indefinição dos postulantes ao Palácio do Planalto na escolha de seus vices para as chapas que concorrerão nas eleições é determinada por dois fatores. Por um lado, a conjuntura política do país passa por uma situação inédita, que se prolonga desde o impeachment de Dilma Rousseff até a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Além do fator Lula, há uma insatisfação muito grande da população em relação aos partidos, desgastados, que estudam muito bem o cenário antes de definir uma posição.

“A elite política pensa em quem poderia ajudar a ter melhor posicionamento diante dessa conjuntura. Um fator importante vem da articulação dessas elites partidárias num momento de grande ‘baixa’. O papel do vice também está desgastado. Com isso tudo, há também dificuldade em atrair um apoio explícito”, diz a cientista política Maria do Socorro Sousa Braga, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Como fator preponderante no atual jogo de dissimulações, conversas e estudos, está a questão da candidatura do ex-presidente. “Com a dúvida sobre se ele vai ou não ser candidato, o quadro ficou instável. Apoios e chapas têm muito a ver com a candidatura ou não do Lula. Se ele for candidato, é um cenário. Se não for, o quadro fica mais imprevisível”, avalia. “Se a candidatura já fosse clara, evidentemente isso ajudaria na escolha dos vices. A imprevisibilidade sobre quem vai para o segundo turno ajuda a explicar as hesitações.”

Para ela, sendo candidato, o petista “já está no segundo turno”. Mas quem seria a outra força? “Aparentemente, Bolsonaro tem mais chance, mas ninguém o apoia.” 

O empresário Josué Alencar (PR), filho do ex-vice de Lula José Alencar, foi cortejado pelo tucano Geraldo Alckmin e pelo próprio PT, com o qual ele comporia uma chapa de vice na campanha à reeleição do governador petista Fernando Pimentel, de Minas Gerais.

Após rejeitar ser vice de Alckmin, Josué Alencar teria um encontro na tarde desta terça-feira (24) com o governador petista, mas a reunião foi adiada. Segundo a campanha do petista, “é certo que o Partido da República em Minas Gerais irá apoiar a candidatura de Pimentel, mas os dois preferiram aguardar as definições do quadro político mineiro”.

Especulações não faltam. A mídia corporativa se apressou a ressaltar que, embora tenha recusado ser vice na chapa do tucano, o filho de José Alencar teria garantido seu apoio ao ex-governador paulista. O empresário estaria sofrendo pressões da família para não concorrer a cargos políticos.

Na tarde de hoje, por sua vez, o PR negou que Josué tenha descartado a composição com Alckmin e o Centrão. Segundo o partido, “ainda não há registro de qualquer decisão do republicano Josué Gomes”.

Ciro Gomes, pelo PDT, passou a ser outra incógnita, após ter cortejado e perdido o apoio do Centrão – DEM, PP, PR, PRB e Solidariedade. Depois disso, Ciro fez discursos mais à esquerda

“Não sei o quanto a posição de Ciro de aproximação com o DEM e o Centrão, muito à direita, vai afetar os apoios que poderia ter à esquerda. Sem o Lula, ele seria o candidato de centro-esquerda com mais chance”, diz Maria do Socorro.“Talvez ele consiga agregar os setores de centro e à esquerda, sem o (Guilherme) Boulos, bem mais à esquerda. Me parece que até o PCdoB apoiaria o Ciro, a depender da Manuela ser vice dele, ou algo dessa natureza.”

Para a cientista política da UFSCar, a campanha de Alckmin tem cerca de um mês para conseguir demonstrar que vai enfim decolar. “Se com todo os trunfos que conseguiu, com o apoio do Centrão e do mercado, ele não passar dos 10% nos próximos 30 dias, não teria muito o que acrescentar.”

A analista lembra que a opção do Centrão por Alckmin poderia dar ao tucano condições de entrar no jogo, já que esse apoio traz uma rede de deputados, prefeitos e vereadores que poderiam ajudar a alavancar a candidatura tucana nos estados onde Alckmin “não tem força nenhuma”, como no Nordeste, onde Lula é imbatível.

Há duas semanas, o governador Paulo Câmara (PSB) anunciou apoio à pré-candidatura Lula, “por tudo que ele fez por Pernambuco”. Assediado por Ciro Gomes e pelo PT, o PSB deve tomar uma decisão sobre seu caminho na eleição no dia 30. O ex-prefeito de Belo Horizonte Márcio Lacerda (PSB) é hoje um alvo de Ciro. O prazo final para o registro das chapas é 15 de agosto.

Já Marina Silva (Rede) parece enfrentar dificuldades cada vez maiores. Depois que Maria Alice Setúbal, a Neca, herdeira do banco Itaú, anunciou seu afastamento da campanha, hoje foi a vez de a mídia informar que a pré-candidata fechou o Instituto Marina Silva, por falta de recursos.