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'confraria antipetista'

Manuela D'Ávila enfrenta conservadorismo machista no 'Roda Viva'

Longe de tentar informar ao público sobre as propostas da pré-candidata, debatedores insistiam em Lula e outros fantasmas do anticomunismo típico da Guerra Fria. Kotscho falou em "vergonha"
por Redação RBA publicado 26/06/2018 12h20, última modificação 26/06/2018 13h09
Longe de tentar informar ao público sobre as propostas da pré-candidata, debatedores insistiam em Lula e outros fantasmas do anticomunismo típico da Guerra Fria. Kotscho falou em "vergonha"
Divulgação
Manuela Roda Viva

Em meio as muitas interrupções, Manuela disse que "juiz não é deus" e que Lula está preso porque lidera as pesquisas

São Paulo – A entrevista com a pré-candidata à presidência do PCdoB, Manuela D'Ávila no programa da TV Cultura Roda Viva, nesta segunda-feira (25), se converteu em um show de slogans conservadores vazios que ressuscitavam antigos fantasmas comunistas típico dos tempos da Guerra Fria. Não bastassem as perguntas pretensamente capciosas que passavam longe dos temas mais importantes do país, à presidenciável não foi dado sequer o direito de responder às provocações.

Segundo levantamento de seu partido, Manuela foi interrompida 62 vezes pelos entrevistadores e demais debatedores convidados. Com Ciro Gomes (PDT), há cerca de um mês, foram oito interrupções, ainda de acordo com o PCdoB.

Ela também foi pressionada a responder sobre a hipótese de abrir mão da sua candidatura em função de uma aliança com outras forças políticas de esquerda. De zero a 10, Manuela disse que são "máximas" as chances de manter a postulação à presidência. "Para nós, o principal é tirar o Brasil das mãos de Temer e desse conjunto de candidaturas de ultradireita e direita que tentam destruir o Brasil e o estado brasileiro", frisou.

O coordenador do programa para o agronegócio do pré-candidato Jair Bolsonaro (PSL) foi um dos que tentou polarizar com a candidata, ao afirmar que o fascismo seria uma ideologia de esquerda. "Tu entendes de regimes antidemocráticos, sendo coordenador do Bolsonaro. Ele defende um país sem democracia, de torturadores. Todo mundo sabe que o fascismo foi um movimento de direita", rebateu Manuela. 

Outra marca da entrevista foi a insistência dos debatedores em fazer a pré-candidata incriminar o ex-presidente e pré-candidato pelo PT Luiz Inácio Lula da Silva. "Todos nós aqui sabemos por que o ex-presidente Lula está preso. Ele está preso porque é primeiro nas pesquisas. Todo o povo brasileiro sabe", afirmou, quando lhe foi permitido responder. 

Chamando a pré-candidata de "advogada do Lula", a colunista de O Estado de S. Paulo e da rádio Jovem Pan Vera Magalhães insistia na existência de provas e na condenação em segunda instância contra o ex-presidente. Manuela respondeu: "Não tinha. Juiz não é deus. Quando juiz quer fazer política, tem que tirar a toga. Minha defesa do Lula é assim porque decidi defender não o que era mais fácil, mas o que é certo." 

A entrevista com ares de interrogatório policial caiu mal entre políticos e jornalistas nas redes sociais. "Programa sem-vergonha e machista da ex-TV Cultura mostra triste faceta do jornalismo", criticou o jornalista José Trajano. Para o também jornalista Altamiro Borges, "não foi jornalismo, mas provocação". "Que mediocridade. Esses caras seguem com Cuba, bolivarianos...Será que é tão difícil terem ao menos uma ideia?", questionou Bob Fernandes. 

"Isso é jornalismo?"

Em seu blog, o jornalista Ricardo Kotscho disse que não conseguiu ver o programa até o fim, "tamanha a minha revolta com o que estava assistindo", usando o termo "massacre". 

"Na noite de segunda-feira, o novo Roda Viva, que tinha começado tão bem, desceu ao grau mais baixo do jornalismo de sarjeta, ao literalmente massacrar uma entrevistada. (... ) Tratada como se fosse uma criminosa de guerra no tribunal de Nüremberg, Manuela foi interrogada por uma bancada de fuzilamento, acusada de todos os crimes praticados por regimes comunistas ao longo da história. (...) Como havia na bancada também jornalistas, fiquei envergonhado com o que estão fazendo da nossa profissão, sem o menor respeito ao público que assistia ao programa e queria ser melhor informado sobre a candidata, que está há vinte anos na vida pública e não é uma paraquedista como tantos outros."

O deputado federal Jean Willys (Psol-RJ) foi outro a ressaltar o desempenho de Manuela e criticar a bancada de entrevistadores. "#RodaViva virou uma confraria de antipetistas, desonestos intelectualmente e mentirosos que agridem qualquer pré-candidato ou pré-candidata de esquerda em vez de realizar entrevistas", afirmou pelo Twitter.  

A deputada Benedita da Silva (PT-RJ) destacou a "alta dose de machismo" e afirmou que os jornalistas não queriam saber as ideias da candidata, mas desconstruí-las. "Não conseguiram, pois Manu mandou muito bem", emendou. 

Em nota, o PT lembrou que é o PSDB, que governa o estado de São Paulo há mais de 20 anos, o responsável pela gestão da TV Cultura, e responsável por transformar o Roda Viva "respeitado em outros tempos como espaço de debate democrático, em um “puxadinho” dos tucanos e do reacionarismo mais retrógrado que existe na sociedade Brasileira."