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Para Marilena Chaui, polarização no país é entre a carência e o privilégio

Para a filósofa, é essa polarização que move a ideologia de “desmontar” programas de promoção de igualdade. 'E enquanto o trabalhador não se percebe como excluído e oprimido, não vai à luta”
Publicado por Redação RBA
09:52
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Reprodução/TVT
Marilena Chaui

Chaui diz que entre a carência e o privilégio, há o campo dos direitos universais, ainda não aceitos por parte da sociedade

São Paulo – Tão falada nos últimos anos, a polarização no cenário sociopolítico do Brasil é comumente explicada pela dicotomia direita x esquerda, ou PT x PSDB, como partidos representantes destes dois espectros políticos. Para a filósofa Marilena Chaui, entretanto, a polarização do país é melhor compreendida quando analisada como sendo o embate entre quem sofre da carência absoluta e quem detém os privilégios.  

Por esse olhar, a carência individual ou coletiva, quando resolvida, acaba, enquanto o privilégio é permanente. Entre um e outro, há o campo dos direitos civis, sociais e econômicos, que são universais. “Os direitos se opõem à carência e também ao privilégio, e por isso a sociedade está polarizada e não consegue avançar nestes direitos que são resultados de anos de luta”, explicou a filósofa e professora da Universidade de São Paulo (USP) no programa Entre Vistas, da TVT, apresentado na última terça-feira (17) pelo jornalista Juca Kfouri.

É desse modo que Marilena Chaui interpreta o papel da classe média brasileira, que vê os direitos sociais como obstáculos a sua ambição de ascender à elite. “A ideia de que é um direito humano as pessoas fazerem três refeições por dia, é insuportável”, ironiza. Para ela, inclusive, a classe média se arrependeu do impeachment de Dilma Rousseff, embora não goste de confessar. 

“É impossível que ela (a classe média) não veja todos os dias os resultados do governo Temer. Há essa percepção, mas ela é razoavelmente enrustida. Se você der visibilidade para o equívoco, a classe média recua. Acho que ela se deu conta de que foi um passo equivocado”, analisou Marilena Chaui. 

Durante o Entre Vistas, ela citou pesquisas acadêmicas que estudam os efeitos do Bolsa Família na região Nordeste, um dos programas sociais criticados por parte da sociedade brasileira. Entre os efeitos positivos estão a reestruturação da vida familiar, colocando em igualdade o homem e a mulher como consequência do benefício ser pago para ela; e a atividade econômica impulsionada na região com os recursos do programa. “As pessoas não se deram conta da revolução econômica, social e antropológica do Bolsa Família”, afirmou.  

Para a professora emérita da USP, os avanços sociais e econômicos obtidos durante os governos dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff não levaram ao surgimento de uma “nova classe média”. O que teria havido foi o surgimento de uma nova classe trabalhadora, já assimilada aos valores do individualismo e do “empresário de si mesmo”, ideias características do neoliberalismo. Segundo a filósofa, a esquerda brasileira precisa olhar e compreender essa nova classe social e ponderou que, nessas circunstâncias, enquanto o trabalhador não se perceber como excluído e oprimido, ele não irá “pra luta”.

Brasil quintal

Aos 76 anos, Marilena Chaui recordou ter visto, ao longo da sua vida, a democracia no Brasil ter sido periodicamente “cortada”, como nos casos do suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, no golpe civil-militar de 1964 e agora no impeachment de Dilma Rousseff. Para ela, o país voltou a ocupar a posição de “quintal, onde cada um joga o lixo que quiser”.

Com pesar, ela comparou a postura altiva que o Brasil outrora assumiu no processo de criação do Brics (bloco que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), com o momento atual, que mescla a atitude de subordinação com a humilhação.

“Não é por acaso que o primeiro ato (pós-impeachment) é quebrar a política externa, quebrar nossa autonomia e economia. O pré-sal poderia deixar o país de cabeça erguida em 50 anos, e hoje tudo é entregue a quem quiser e der mais”, criticou, citando possibilidades de investimentos em energia, tecnologia espacial e educação desperdiçadas.

Na visão da professora da USP, como o neoliberalismo percebe tudo como sendo uma empresa, inclusive o Estado, então as decisões são tomadas movidas por interesses privados e não públicos. A figura do “gestor”, em detrimento do indivíduo político, é consequência deste modelo. “Toda empresa que possa parecer soberania nacional, tem que liquidar”, sentencia.

No Entre Vistas, que além do apresentador Juca Kfouri, contou com a participação da jornalista Marilu Cabañas, da Rádio Brasil Atual, e de Júlio César Silva Santos, diretor do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, Marilena Chaui disse que a judicialização da política, tão normal atualmente, é também reflexo da visão neoliberal que tudo vê como uma empresa. Para ela, a prática comum dos litígios empresariais serem resolvidos na esfera jurídica, se transferiu para as questões deste Estado-empresa, onde o conflito é arbitrado pela Justiça e não mais pela política.

O discurso de ódio, fenômeno presente nas atuais relações sociais no Brasil, não ficou de fora do programa, gravado no Café dos Bancários, centro de São Paulo. De acordo com Marilena Chaui, tal característica está relacionada ao fato das pessoas serem “convidadas a realizar seus desejos”, aliado aos desejos também criados pelo sistema neoliberal, num processo que “infantiliza” a sociedade. “É como uma criança que não consegue suportar o tempo entre o desejo e a realização, não sabe lidar com a espera, com a frustração. É preciso uma bruta psicanálise para lidar com isto.”

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