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Eleições 2018

‘Estou sentindo dor no coração’, diz Ciro sobre Lula

Pré-candidato do PDT evita criticar Judiciário, mas lamenta situação do 'velho camarada'. A sindicalistas, defende revogação da 'reforma' trabalhista e união de quem 'trabalha e produz' contra rentismo
Publicado por Vitor Nuzzi, da RBA
17:38
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Jaélcio Santana
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Ciro com Miguel Torres, dos metalúrgicos: “portas abertas” para alianças no campo progressista

São Paulo – Em um roteiro sindical nesta sexta-feira (27) em São Paulo, participando de eventos na UGT e no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo (Força), o pré-candidato Ciro Gomes (PDT) defendeu a revogação da “reforma” trabalhista e uma “aliança entre quem trabalha e quem produz” contra a especulação financeira, ao afirmar que o problema do país não são os salários, mas os juros. Sem criticar o Judiciário, lamentou a situação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva: “Estou sentindo dor no coração”.

Pouco antes de subir para discursar no lotado auditório dos metalúrgicos, na tarde desta sexta-feira (27), Ciro evitou falar de possíveis conversas com o PT sobre as eleições. “Não vou especular absolutamente nenhuma vírgula sobre Lula e o PT.” Chamou o ex-presidente de “velho camarada”, mesmo admitindo divergências, e disse respeitar o “tempo” do partido.

A uma pergunta sobre a possibilidade de ser vice em alguma composição, quem respondeu foi o presidente do PDT, o ex-ministro Carlos Lupi: “Nenhuma possibilidade. Zero”. No palco, Lupi chamou Ciro de candidato “imexível”, brincando com o ex-ministro Antônio Rogério Magri, que atualmente assessora a Força e foi cumprimentá-lo no final do evento.

Já quase no final da palestra, Ciro afirmou discordar do que chamou de “percepção” no campo progressista de que “o outro lado vai perder” a disputa eleitoral e que o debate se resumiria a “quem de nós vai ganhar”. “Eu não vejo assim. A eleição nem começou. Tem muitas variáveis ainda para acontecer.” Sobre uma unificação da esquerda, ele falou apenas em “deixar portas abertas”.

Além do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos e da CNTM (confederação nacional da categoria ligada à Força), Miguel Torres, o pré-candidato foi recepcionado pelo presidente da CSB, Antonio Neto, que é presidente municipal do PDT, pelo ex-prefeito de Guarulhos Sebastião Almeida e pelo ex-deputado Luiz Antônio de Medeiros, fundador da Força. Vários sindicalistas da central são filiados ao partido. O próprio presidente da entidade, o deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, foi do PDT até fundar o Solidariedade.

Para Lupi, Ciro é hoje o “principal porta-voz de um projeto de desenvolvimento nacional” e do resgate da luta dos trabalhadores. “Estamos no governo do atraso, do retrocesso, da retirada de direitos”, disse o ex-ministro do Trabalho.

Renda e juros

“Depois do que aconteceu com o presidente Lula, minha responsabilidade está aumentando muito. Tenho 38 anos de vida pública e nunca vi crise tão complexa, intrincada, como a que estamos vivendo”, disse o pré-candidato, para quem o Brasil precisa fazer alguns “acordos” prévios ao debate. “As coisas estão estruturalmente erradas no Brasil. Não é problema de Chico, Mané ou Maria.” Segundo ele, as mudanças implementadas agora “estão devolvendo o Brasil à selvageria econômica do século 19”.

Para o pedetista, o capitalista brasileiro, “selvagem que é”, ainda não se deu conta que o crescimento vem do consumo, “e consumo de massa se afirma na renda”. “O problema do Brasil não é a cunha dos salários, nunca foi. É mentira que o problema brasileiro é renda. O problema é juro.” 

O presidenciável pedetista chamou a “reforma” trabalhista de “fraude”, propondo sua revogação “pura e simples”, e afirmou que é preciso mudar a Previdência. “Esse sistema morreu, não é reformável.” Mas qualquer alteração, independentemente do tema, exigirá amplo debate, acrescentou, fixando em seis meses, a partir da posse do novo governo, o prazo para que isso aconteça. “É preciso que o tempo da reforma sejam os seis primeiros meses. A negociação aqui é no redesenho do pacto federativo.”

Com ênfase em propostas no campo econômico, Ciro afirmou que antes de mais nada é preciso controlar o câmbio, do qual derivam muitos dos preços do dia a dia. Afirmou que, com Lula, “o poder de compra do povo aumentou quatro vezes”. Disse não gostar do governo Dilma, mas que ficou com ela “até o fim”, por ser uma pessoa honrada e vítima de um golpe parlamentar, “com grande influência estrangeira”.

Plano de governo

Ele não detalhou o que seria seu plano de governo, adiantando que um documento deverá ser apresentado em junho. Relatou ter uma equipe de aproximadamente 500 técnicos empenhados nas propostas, sob coordenação do economista Nelson Marconi, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

A respeito do trabalhismo, Ciro afirmou que “as ideias de (Alberto) Pasqualini, Getúlio (Vargas), (João) Goulart, (Leonel) Brizola estão mais atuais do que nunca”. Segundo ele, “ninguém mais defende o neoliberalismo, nem o Fundo Monetário Internacional”. Um projeto de desenvolvimento nacional, acrescentou, não deve excluir a burguesia industrial nacional. “Se a gente não for inábil, eles vêm junto conosco”. 

Ele considera que a concentração do setor financeiro em poucas instituições “foi um erro grave que deixamos acontecer”, acrescentando que “cinco bancos concentram 83% de todas as transações financeiras”. Sugeriu que o Banco Central seja “estatizado”: “Hoje, quem manda lá é o Itaú”.