Pelo Psol

Para analista, pré-candidatura de Boulos é coerente e incentiva debate na esquerda

'A posição é correta politicamente, de achar que é preciso mostrar as identidades, esclarecendo o que se tem em comum e o que é diferente. Isso não significa enfraquecer a esquerda', diz sociólogo do Ibase

Nunah Alle / Divulgação PSOL
Guilherme Boulos

Boulos mostra ficha de filiação ao Psol, em evento realizado em São Paulo na tarde desta segunda (5)

São Paulo – A confirmação da pré-candidatura de Guilherme Boulos à Presidência da República, pelo Psol, em evento no sábado (3), só trará benefícios ao campo progressista. “Eu estava esperando ele se apresentar, porque isso provoca debate dentro da esquerda. Acho que Boulos está sendo muito coerente”, diz o sociólogo Cândido Grzybowski, assessor especial do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase). “Ele sempre disse que defende o direito de Lula ser candidato, mas também o direito de outras vertentes de esquerda apresentarem candidaturas, com o compromisso de estarem juntas no segundo turno. É uma posição clara, a dele”, acrescenta.

Para o analista, o risco de os votos de esquerda se dividirem com candidaturas como a de Boulos e Manuela d’Ávila, pelo PCdoB, é uma falsa questão, considerando que as divergências de fato existem. “No interior da esquerda, há diferentes visões até mesmo sobre o que o impeachment (de Dilma Rousseff) significou. Há certas fissuras, diferenças de visões e de perspectivas, além de ter faltado uma autocrítica do PT. Mas a questão da unidade das esquerdas, na história política, não só nossa, mas da humanidade, sempre foi problema. Não se faz unidade simplesmente por sermos de esquerda.”

Na opinião do sociólogo, o elo que pode unir os diversos segmentos não se faz por oportunismo político, se faz debatendo ideias. “E o debate de ideias foi deixado para trás, nos último tempos.”

Grzybowski lembra que Manuela d’Ávila também tem defendido o compromisso de união dos candidatos progressistas no segundo turno. Mas as alternativas e as projeções de Boulos e Manuela apontam para o que se poderia chamar de maturidade da esquerda brasileira? “Essas candidaturas obrigam a uma negociação mais consistente no interior da própria esquerda. Todo mundo parte do princípio de que, se Lula participar, ele vai para o segundo turno. Isso não é problema, o problema é se Lula não disputar. E aí é necessário criar um candidato que não está claro quem é, na esquerda.”

Seria Boulos? Embora ache o nome do coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) positivo no cenário, ainda é cedo para responder a essa questão, já que, além de bastante jovem, com 35 anos, ele nunca disputou uma eleição e não se sabe qual é sua aceitação popular. “Mas ele tem um discurso bastante consistente. Acho que a posição dele é correta politicamente, de achar que é preciso mostrar as identidades, esclarecendo o que se tem em comum e o que é diferente. Isso não significa enfraquecer a esquerda, pelo contrário. Numa perspectiva de ter algum futuro, é o melhor caminho”, acredita Grzybowski.

Para o assessor do Ibase, seria oportuno que o PDT, pelo qual Ciro Gomes é pré-candidato, manifestasse posição semelhante à de Lula, Boulos e Manuela d’Ávila. Mas a postura de Ciro, que não perde a oportunidade de desferir ataques a Lula, não parece indicar isso.

Em depoimento gravado em vídeo, exibido no evento de lançamento da pré-candidatura de Boulos, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva manifestou apoio ao dirigente do MTST. “Nos encontraremos pelas ruas desse país, pelas ruas dessa cidade, fazendo campanha e falando bem de nós, e falando mal de alguns que nós não podemos reconhecer nunca, porque golpista não merece respeito”, disse. “Se depender da minha contribuição, eu quero te dizer que você merece todo o meu respeito”, emendou.

Grzybowski destaca ainda a necessidade de a esquerda se reconstruir com uma estratégia de longo prazo. “Não se trata só da eleição e, por outro lado, não adianta pensar em voltar atrás, porque não se pode voltar. A história não se repete. Estamos num contexto novo, no qual a direita também não sabe qual vai ser seu candidato. Não está resolvido nem mesmo o que o golpe pretendeu resolver. Ele não conseguiu consolidar uma direita.”

É aguardado para a próxima quinta-feira (5) o lançamento oficial da pré-candidatura do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, deve ser o postulante do PSDB. Especula-se que o presidente Michel Temer arrisque uma candidatura pelo MDB. E não se pode esquecer Jair Bolsonaro (PSL-RJ). “Um oportunista”, diz Grzybowski.