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Novos candidatos têm desafio de aglutinar tendências, diz cientista política

'A gente não sabe ainda se o ex-presidente Lula vai ser candidato ou não. Mas, num cenário em que ele não dispute, tanto para a direita, quanto para a esquerda, haverá fragmentação. Hoje, só o Lula é quem aglutina', diz Maria do Socorro Sousa Braga
Publicado por Eduardo Maretti, da RBA
19:11
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arquivo abr / divulgação
Maia e boulos.jpg

Maia e Boulos: falta de consenso na direita e nome que precisa se tornar mais conhecido entre progressistas

São Paulo – Com a recém-lançada pré-candidatura de Guilherme Boulos à presidência da República, pelo Psol, e a entrada no páreo do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que deve ser confirmado como postulante na convenção de seu partido nesta quinta-feira (8), o quadro eleitoral se torna imprevisível. Isso, caso o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva seja impedido de concorrer, já que, com ele na disputa, sua ida ao segundo turno é certa, segundo indicam as pesquisas.

“Hoje, só o Lula é quem aglutina, com cerca de 35% do eleitorado. Claro que, no segundo turno, é outra disputa, mas no primeiro ele leva fácil, aparentemente”, diz Maria do Socorro Sousa Braga, cientista política e professora da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar). Para ela, porém, sem o petista, os nomes de Maia e Boulos no cenário “aumentam a competitividade e a fragmentação do sistema partidário”.

“A gente não sabe ainda se o ex-presidente Lula vai ser candidato ou não. Mas, depois do julgamento do STJ, num cenário em que ele não dispute, tanto para a direita, quanto para a esquerda, haverá uma fragmentação, o que pode tornar esse pleito muito mais imprevisível. Porque nem à direita, nem à esquerda, teremos polos aglutinadores de um grande apoio eleitoral.”

Segundo pesquisa da Confederação Nacional do Transporte ( CNT ), no cenário em que aparece como candidato, Lula lidera com 33,4% das intenções de voto, seguido pelo deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) e Marina Silva (Rede-AC), com 7,8%. 

Na opinião de Maria do Socorro, ainda num cenário em que Lula seja alijado da disputa pelo sistema judiciário, não é possível prever quanto de seus votos o ex-presidente conseguiria transferir a um candidato que apoiasse. “Haddad teria mais chance do que Boulos”, diz.

Para ela, Boulos é pouco conhecido e não tem experiência “no campo da disputa eleitoral para conseguir fazer esse debate de forma a aglutinar forças”. Além disso, diz a analista, Haddad é “mais palatável do ponto de vista de um eleitorado mais amplo a que o PT teve acesso ao longo do tempo”.

No campo da direita, há muitas especulações, o que mostra que ela não tem candidato consensual. Segundo a mídia, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, por exemplo, seria cotado para vice do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. O ministro nega. Mas, segundo outra versão, o ministro estaria sondando as possibilidades de ser, ele mesmo, candidato pelo PMDB.

Para Maria do Socorro, o consenso que parece mais próximo “ainda é a candidatura do Alckmin”.

Quais as repercussões das pré-candidaturas de Guilherme Boulos, pela esquerda, e Rodrigo Maia, pela direita, no xadrez político das eleições de 2018?

O Boulos vem pela esquerda numa tentativa de aglutinar alguns setores e pode fazer a diferença. A gente não sabe ainda se o ex-presidente Lula vai ser candidato ou não. Mas, depois do julgamento do STJ, num cenário em que ele não seja candidato, a gente vai ter tanto para a direita, quanto para a esquerda, uma fragmentação, o que pode tornar esse pleito muito mais imprevisível. Porque nem à direita, nem à esquerda, a gente vai ter polos aglutinadores de um grande apoio eleitoral.  

Hoje só o Lula é quem aglutina, com quase 35% do eleitorado. Claro que no segundo turno é outra disputa, mas no primeiro ele leva fácil, aparentemente. Então, essas duas candidaturas (Maia e Boulos) vêm aumentar a competitividade e a fragmentação do sistema partidário. Logo, haveria muito mais dificuldade de haver o que tínhamos até então, um desenho muito polarizado entre PT e PSDB. A gente não sabe qual seria o candidato do PT nesse cenário. Alguns falam de Haddad.

Se Lula for candidato, a chance de se eleger é enorme. Se não for, ele conseguiria transferir votos suficientes para eleger Haddad ou mesmo Boulos?

Eu não poderia agora dizer se o Lula conseguiria transferir ao Haddad todo o apoio que tem hoje. Acho que Haddad teria mais chance do que Boulos, que é muito pouco conhecido ainda. Teria de mensurar, nesse processo em que Boulos se desenvolveu politicamente, no movimento social que representa, quanto essa alternativa atingiria os setores nos quais o Lula tem maior influência. Nesses anos todos em que disputa, Lula acabou entrando num eleitorado que pode ser refratário ao Boulos ou a algumas de suas propostas mais radicais.  

Já o Haddad é mais palatável do ponto de vista de um eleitorado mais amplo a que o PT teve acesso ao longo desse tempo. A gente não pode esquecer que o PT é um partido que tem capilaridade e herança. Tem obviamente os setores muito críticos ao partido, mas também há os setores mais próximos de Lula e do PT, que ficariam com Haddad, que já ocupou cargos, tem mais projeção, inclusive pelo histórico dele dentro do PT. Boulos é um candidato palatável para setores como os intelectuais, artistas, mas a gente tem de esperar o projeto dele. Ele pode ocupar uma parte do espectro político ideológico. A esquerda está fragmentada, mas se ele vier com uma argumentação ou um projeto político alternativo ao PCdoB e mesmo ao Ciro Gomes, mesmo assim ele vem dividindo a esquerda, o que traria mais dificuldade para se tornar um polo aglutinador.

E o Rodrigo Maia?

É um absurdo o que a imprensa chama de centro. O Maia está na direita e, para mim, vem dividir ainda mais a direita. Hoje são vários candidatos por esse campo. Especula-se que o Alckmin teria como vice o Meirelles. Nesse caso, seria a defesa do que está no governo. O Maia viria rachar um pouco essa tentativa de consenso que se está tentando formar hoje, pela elite econômica e política ligada ao mercado.

Ou seja, a direita não tem um candidato no qual aposte de fato, no momento…

Estão em busca disso, mas o consenso que parece mais próximo, ou tem maior força, ainda é a candidatura do Alckmin com um vice que não seria o Maia. Eu acho que Rodrigo Maia desiste dessa candidatura mais para a frente. Mas, quando ele vem com a ideia de se candidatar, está sinalizando que quer se afastar do governo, numa tentativa de mostrar uma alternativa à direita. As duas candidaturas viriam dividir o sistema partidário mais ainda e aumentariam a imprevisibilidade.

Segundo alguns analistas, como Cândido Grzybowski, o nome de Guilherme Boulos não dividiria o campo progressista, mas, pelo contrário, seria positivo, na medida em que incentivaria o debate dentro da esquerda. Você concordaria com essa visão?

Não concordo. Claro, ele vai tentar fazer isso, aglutinar as forças menos satisfeitas com as opções à esquerda, se o Lula não estiver na disputa. Mas falta traquejo, experiência no campo da disputa eleitoral para que ele consiga fazer esse debate de forma a aglutinar forças. Minha posição é de que ele vem dividir.

O Boulos tem menos experiência em competição eleitoral do que a Manuela D’Ávila ou o Ciro Gomes. Depende da construção da retórica, do programa – porque todos eles falam, mas não têm ainda consistência, programa. Pode ser até que a Manuela seja mais aglutinadora do que o Boulos.

Com os ataques recorrentes a Lula, Ciro Gomes está querendo o apoio da direita?

Do centro. Aí a gente pode falar de um centro. Não seria a direita, mas um centro que, no espectro ideológico, se volta para a candidatura que tenha um programa de manter o ganho que o PT trouxe do ponto de vista social, por exemplo, mas que projeta algo de melhoria para o futuro. Ele não vai poder ser retrógrado, vai para o centro, com um discurso mediano, entre o mercado e o Estado sendo ainda promotor de políticas sociais. Um meio termo. Claro que ele vai tentar também beneficiar o mercado. Por isso que é centro. Quem deve fazer um discurso mais à esquerda é o Boulos, ou a Manuela. A própria Marina pode fazer esse discurso.

A Marina não parece um pouco queimada depois de 2014?

Sim, mas nas pesquisas ela está em terceiro, então é algo a ver. As pesquisas, por enquanto, dão algum sinal de que ela ainda tem chance, embora a saída do (Alessandro) Molon da Rede vá prejudicá-la (o deputado Aliel Machado também deixou o partido). Vamos ver como ela vai se virar com a retórica.