Você está aqui: Página Inicial / Política / 2018 / 03 / Mais indígenas na política, só com mudanças estruturais, dizem especialistas

Domínio do capital

Mais indígenas na política, só com mudanças estruturais, dizem especialistas

Em uma política dominada pelo coronelismo do capital, os índios pauperizados e criminalizados estão excluídos
por Redação RBA publicado 11/03/2018 13h24, última modificação 11/03/2018 13h39
Em uma política dominada pelo coronelismo do capital, os índios pauperizados e criminalizados estão excluídos
Mídia Ninja
Sonia Guajajara, vice de Boulos

Candidatura de Sônia é uma novidade interessante, que pode mostrar que os povos indígenas estão distantes dos estereótipos que a sociedade teima em reproduzir

São Paulo – A presença de Sônia Guajajara como vice na chapa de Guilherme Boulos à Presidência da República, oficializada ontem (10), em conferência eleitoral do Partido Socialismo e Liberdade (Psol), só vai representar uma abertura para maior representação indígena na política se houver mudanças estruturais. A opinião é do professor de Antropologia na Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), Spensy Pimentel.

Em entrevista ao Deutsche Welle Brasil, o professor comparou a chegada do metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência, em dois mandatos seguidos, ao baixo número de parlamentares nordestinos, de origem operária, no Congresso. Clique aqui para ler a reportagem na íntegra.

"Apesar do simbolismo da chegada de Lula à Presidência, não tenho notícia de que tenha aumentado o número de trabalhadores nordestinos no Congresso. O mesmo vale para a Dilma, com as mulheres, e Obama, em relação aos negros nos EUA. Mesmo assim, sua candidatura é uma novidade muito interessante. Talvez, ajude a perceber que os povos indígenas estão muito distantes dos estereótipos que a sociedade teima em reproduzir”, disse Pimentel ao site alemão.

No entanto, ele destacou que a presença de indígenas em universidades brasileiras é cada vez maior, há duas gerações. "Eles estão buscando essas ferramentas do mundo acadêmico e isso se reflete no jogo político deles. Não quer dizer que essa escolarização se traduza necessariamente em uma participação no sistema político oficial. No nosso sistema político também é assim. Não necessariamente o candidato com melhor formação será mais votado”, afirmou.

A reportagem do Deutsche Welle Brasil abordou ainda o ineditismo da candidatura, que reaviva o debate sobre a presença de representantes de povos nativos na política. E destacou que em 1982, o PDT elegeu o cacique Mário Juruna à Câmara dos Deputados – o único indígena que chegou lá.

O veículo alemão ouviu também a professora da Escola de Ciência Política da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) Clarisse Gurgel, que destacou a força do poder econômico na política brasileira como um fator determinante para a participação reduzida dos indígenas na vida institucional.

"Não é preciso ir aos rincões do Brasil para identificar a política do coronelismo. Mesmo em uma metrópole como o Rio, isso é observado. Mas, em regiões que concentram reservas indígenas, como o Norte, essa realidade é muito agravada. Num contexto em que os índios estão pauperizados e criminalizados, a penetração na política se faz refém dessas práticas de pirataria da política”, disse ao Deutsche Welle.