Entrevista

Boulos: ‘Queremos levar a nossa indignação para dentro da política’

'A esquerda precisa saber separar unidade de diversidade', diz pré-candidato do Psol à Presidência. Ele define a campanha como um 'encontro de gerações'

Jose Lucena/Futura Press/Folhapress)
Guilherme Boulos

“Não defendemos o direito de Lula ser candidato apenas no gogó. Mas é importante também compreender que existem diferenças de projetos, de rumos, de caminhos”, diz pré-candidato do Psol à presidência

São Paulo – Em meio à crise institucional e ao golpe parlamentar que ataca os direitos dos trabalhadores, uma nova forma de fazer política deve surgir no país, espera o coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MTST), Guilherme Boulos, que teve no sábado (3) seu nome lançado como pré-candidato à Presidência da República. “Eu sou o pré-candidato mais jovem da história do país, e não acredito que isso seja um problema. Se tempo de participação na política institucional fosse credencial e garantia de avanços, o governo Temer seria o melhor da história do país”, diz Boulos, que se filiou ao Psol na tarde da última segunda-feira (5).

Ativista e idealizador da plataforma Vamos!, ele propõe “dialogar e construir política de um outro jeito”. “Achamos que parte da descrença e desesperança das pessoas com a política é porque ela se distanciou das pessoas. Hoje existe um abismo entre Brasília e o Brasil. Queremos levar a nossa indignação para dentro da política. Esse é o sentido dessa candidatura”.

Sobre as análises segundo as quais sua candidatura pode dividir a esquerda, ele obviamente discorda. “A esquerda precisa saber separar unidade de diversidade”, diz Boulos.

Segundo ele, a campanha que deverá fazer com a vice, Sonia Guajajara, o Psol e os movimentos sociais será uma proposta de “aliança com os setores mais dinâmicos da luta, da sociedade civil, um encontro de gerações, de setores que enfrentaram a ditadura a jovens como a Ana Júlia, que ocupou escola“, afirma, em referência à jovem paranaense que em 2016 foi um dos símbolos das ocupações das escolas secundaristas pelo país.

Ele voltou a defender o direito do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de ser candidato e acrescenta: “Não defendemos isso apenas no gogó. O MTST foi à frente da casa do Lula retirar o MBL quando eles foram lá provocar”.

 

 

Segundo algumas análises, sua candidatura é positiva por promover debate dentro da esquerda. Já para outras, sem Lula, seu nome pode fragmentar ainda mais a disputa eleitoral e a esquerda. Como vê essas análises?

Nós entendemos que a esquerda precisa saber separar unidade de diversidade. Temos vários pontos em comum: a luta contra Temer, a defesa da democracia, dos direitos, o enfrentamento do golpe. E nesses pontos temos que estar todos juntos. Como temos estado, nas ruas e nas mobilizações. Mas é importante também compreender que existem diferenças de projetos, de rumos, de caminhos, inclusive no sentido de tirar as lições do golpe.

No nosso entendimento, o golpe representou um fechamento de momento histórico no país, em que se aprofundaram as contradições, a sociedade e a política se polarizaram, e não há mais espaço para avanços sem conflito. Não há mais espaço para composições políticas com setores que deram o golpe. Essa diversidade é saudável para a esquerda e é importante que se apresente também no processo eleitoral.

Que diferenças haveria em sua campanha em dois cenários: com a participação de Lula e sem a presença dele na eleição?

Nós defendemos incondicionalmente o direito de ele ser candidato. A condenação do Lula foi sem provas, política, o judiciário se comportou como partido político ao condená-lo com o interesse evidente de tirá-lo do processo eleitoral. Não defendemos isso apenas no gogó. Temos feito na prática.

O MTST foi à frente da casa do Lula retirar o MBL quando eles foram lá provocar, mobilizou em peso as suas ocupações para todos os atos em defesa da democracia e contra a condenação dele. Esse é um posicionamento do qual a gente não abre mão. Agora, a minha candidatura tem a ver com a defesa de um projeto de país. Não com o fato de o Lula ser ou não candidato.

Alguns analistas consideram que você é muito pouco conhecido e não tem experiência eleitoral. Qual o peso disso?

Olha, eu sou o pré-candidato mais jovem da história do país, e não acredito que isso seja um problema. Se tempo de participação na política institucional fosse credencial e garantia de avanços, o governo Temer seria o melhor da história do país. Ele está há 50 amos na política e é um desastre. Então, ter experiência parlamentar e política não significa necessariamente uma boa credencial.

Eu milito há mais de 15 anos no movimento popular, construí a minha atuação política na luta social junto às pessoas e debatendo projeto e política, a exemplo do que fizemos na plataforma Vamos! no ano passado, com debates em todas as regiões do país – mais de 50 debates –, dialogando e construindo política de um outro jeito.

Achamos inclusive que parte da descrença e desesperança geral com a política é porque ela se distanciou das pessoas. Hoje existe um abismo entre Brasília e o Brasil. Queremos levar a nossa indignação para dentro da política. Esse é o sentido dessa candidatura.

Até onde sua proposta conseguirá ser bem sucedida na tentativa de aglutinar setores da esquerda em torno dela?

Veja, aglutinar os setores de esquerda e buscar fazer frentes, entendimentos sempre que possível, é algo importante. Nós vivemos um momento de retrocessos democráticos, de avanço de pautas conservadoras, de risco de retrocessos ainda maiores, como expressa a candidatura de Jair Bolsonaro, como expresso na intervenção militar no Rio de Janeiro.

Ou seja, há aqueles que querem impor para a crise da Nova República uma saída de ainda mais atraso. Em relação aos temas democráticos, à defesa dos direitos sociais, é preciso ter pontes amplas na esquerda. Mas reitero que isso não é contraditório com a necessidade de se colocar as diferenças que existem.

A esquerda precisa saber ter unidade naquilo que é comum e respeitar a diversidade em termos de programa e de projeto. Nós temos uma proposta para o país. Uma proposta de que é necessário centrar um programa no combate à desigualdade e no resgate da democracia. E combater a desigualdade no Brasil é enfrentar privilégios, é fazer por exemplo reforma tributária, enfrentar o poderio dos bancos, as grandes corporações.

Sem esse tipo de enfrentamento não é possível hoje um projeto popular para o país. Por isso, nosso programa é um programa de mudanças estruturais. Essa ideia de querer recompor um centro, de fazer um novo pacto de conciliação não é viável no país e não é o programa que defendemos. Isso não nos impede de estarmos juntos nas batalhas democráticas e nas batalhas amplas por direitos sociais.

Combater a desigualdade no Brasil é enfrentar privilégios, é fazer por exemplo reforma tributária, enfrentar o poderio dos bancos, as grandes corporações. Sem esse tipo de enfrentamento não é possível hoje um projeto popular para o país

Alguns setores do Psol receberam mal sua filiação, sua posição de pré-candidato, porque não teria sido debatido internamente no partido. Como vê isso? 

Em relação ao Psol, acho natural que existam posições diferentes sobre projeto e candidatura. Todo partido precisa ter pluralidade. Não queremos uma organização e um partido com pensamento único. Isso é uma coisa que a direita é que gosta de cultivar. Agora, minha pré-candidatura junto com a Sonia Guajajara tem o apoio de 70% da militância do Psol.

E o procedimento de escolha dessa chapa foi definido no congresso do Psol praticamente por consenso e será na conferência eleitoral, que vai acontecer no próximo sábado (10) com delegados indicados proporcionalmente pelo próprio congresso.

É natural que haja discussão, é importante que haja o debate, mas é ainda mais importante que estejam todos juntos a partir do momento que se defina quem será a candidatura que representará o Psol nessas eleições.

Para além disso, o projeto que defendemos não é uma candidatura estritamente do Psol. O que está se construindo é uma aliança do Psol com setores do movimento social, com o MTST, com a Apib, Midia Ninja, com um conjunto de movimentos que têm construído um acúmulo de debates de projeto para o país.

Isso se expressou na Conferência Cidadã, que nós fizemos no último sábado, uma conferência extraordinária. Ali estavam intelectuais, artistas, um conjunto de movimentos sociais como não se via há muito tempo na esquerda. Num projeto de pensar o futuro, de pensar o país, de resgatar a esperança.

Isso expressa o tipo de campanha que queremos fazer, em torno de uma ampla aliança, que não é aliança com os partidos tradicionais. É uma aliança com os setores mais dinâmicos da luta, da sociedade civil, um encontro de gerações, de setores que enfrentaram a ditadura a jovens como a Ana Júlia, que ocupou escola e estava na nossa conferência. De uma diversidade de vozes e de setores. Essa é a cara da campanha que nós queremos.

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