Brasil em debate

‘Temo que a intervenção no Rio de Janeiro seja uma pirotecnia’, afirma Lula

Ex-presidente acredita que Temer tenta se viabilizar candidato com o tema da segurança. 'Ele sabe que se eu disputar a eleição posso ganhar no primeiro turno ou que só tem uma vaga no segundo turno'

Ricardo Stuckert
Lula

Lula em acampamento do MST, em Minas Gerais. Mais cedo, em entrevista, disse que o povo não pode “perder a esperança”

São Paulo – Em visita nesta quarta-feira (21) ao estado de Minas Gerais para participar de ato de aniversário de 38 anos do PT, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu pela manhã entrevista à rádio Itatiaia. Durante a conversa, Lula falou sobre os recursos que tramitarão no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e no Supremo Tribunal Federal (STF), fez críticas e ponderações com relação a intervenção federal no Rio de Janeiro, analisou o cenário político para a eleição presidencial em outubro e afirmou que o Brasil precisa “voltar a sonhar”. 

A seguir, os principais momentos da entrevista:

Expectativa dos recursos no processo do triplex 

“Tudo o que eu quero é que essa gente analise os autos do processo, veja as testemunhas de acusação e de defesa, e essas pessoas me declarem inocente. Vou dedicar minha vida daqui pra frente pra provar o equívoco que estão cometendo. Estou sendo vítima de uma perseguição jurídica e institucional. A única unanimidade é que a elite não quer que eu seja candidato, fora isso, tudo é possível. E para isso eles vão tentar me colocar na ilegalidade. Quero provar minha inocência. Eu não posso dizer que você cometeu um erro e não provar o erro, se não eu seria um canalha.” 

 

O futuro do Brasil 

“Acho que eu poderia contribuir com o Brasil, ajudar o país a sair desse pantanal. O país precisa voltar a crescer, gerar emprego e sonhar. O Brasil está muito raivoso, é muito ódio espalhado em cada conversa. Acho que eu poderia contribuir, porque eu já fiz uma vez. Não vou pra uma campanha dizer o que eu acho ou penso, porque eu já fiz. O povo está perdendo a coisa mais extraordinária e que não pode perder, que é a esperança.” 

 

Intervenção no Rio 

“Temo que a intervenção no Rio de Janeiro seja uma pirotecnia, uma coisa de interesse político. O Exército já ficou um ano na favela da Maré e, quando saiu, os problemas voltaram. Se o Estado não está presente com políticas públicas nos lugares mais pobres, a violência aparece. O Exército não está preparado pra enfrentar o narcotráfico, lidar com bandido em favela. Colocar o Exército numa tarefa dessa, depois do espetáculo, o resultado pode ser negativo.” 

“É preciso ter clareza que mais ou menos violência está ligada à capacidade de desenvolvimento do Estado, e o estado do Rio de Janeiro está empobrecido, é a grande vítima da crise desse país”, afirmou o ex-presidente, citando os problemas da indústria naval e do setor de óleo e gás, o “baque” da Petrobras com a Lava Jato, além de com policiais, professores e servidores públicos sem receber salário. 

“Acho que o Temer está encontrando um jeito de ser candidato à Presidência da República e achou que a segurança pública pode ser uma coisa importante pra pegar um nicho dos eleitores do Bolsonaro. Como é só uma tese minha, vamos ver o que vai acontecer. O Temer sabe que se eu disputar a eleição posso ganhar no primeiro turno, ou vou pro segundo turno. Ele sabe que se eu disputar, só tem uma vaga no segundo turno pra todos os outros candidatos. Se eu não disputar, tem duas. Então ‘vamos tirar o Lula do jogo’. Acho que o Temer está fazendo uma aposta.” 

“A Marinha sabe que, se quiser diminuir o contrabando de armas e o tráfico, tem que ter estrutura pra controlar oito mil quilômetros de fronteira marítima. O Exército sabe que tem que ter estrutura pra controlar 16 mil quilômetros de fronteira seca. Essas coisas temos que discutir e apresentar pra sociedade um plano definitivo.” 

Eleição 2018 e alianças 

“Me parece que a Justiça está querendo cumprir o papel da elite política e econômica que não quer que o Lula seja candidato. ‘Temos que caprichar, afinal, tiramos a Dilma com um golpe pra deixar esse baixinho voltar? Não pode.'”

“Isso de ‘PMDB nunca mais’ é uma bobagem. Como o Pimentel vai governar Minas Gerais sem o PMDB? O PMDB de Minas é um aliado importante e boa parte se colocou contra o impeachment.O PMDB não é um partido nacional, é uma federação de grupos regionais e cada um é um PMDB.”

“Quero ganhar as eleições pra melhorar a vida do povo brasileiro, pra fazer mais escola, gerar mais emprego, aumentar o salário mínimo, fazer o povo mais humilde comer peito e coxa de frango, não pele e pescoço. Então tenho que construir uma aliança política que me permita fazer isso, se não, eu serei o melhor candidato do mundo e não ganharei as eleições.”

Depois da entrevista, o ex-presidente Lula foi visitar um acampamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Itatiaiuçu, na região metropolitana de Belo Horizonte. Na sequência, iria conhecer uma colônia de hansenianos, em Betim.