Caravana pelo Brasil

Retomada da democracia será maior desafio em 2018, diz Lula

'Temos que lutar para reverter essa situação. Aqui no Brasil, vamos ter eleições, um momento oportuno para que o povo possa fazer as mudanças', disse Lula no último dia da caravana que passou pelo Espírito Santo e Rio de Janeiro

RBA
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Lula, Celso Amorim e Lindbergh Farias subiram no ônibus da comunicação para uma coletiva

São Paulo – “A caravana foi a melhor forma que encontrei para que pudéssemos revisitar o Brasil, fazer uma análise profunda nas entranhas de cada região para discutirmos com o povo o que precisamos para recuperar nossa autoestima”, disse o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista coletiva concedida a jornalistas que acompanharam a terceira etapa do projeto Caravana Lula pelo Brasil. Ao lado de Lula, estavam o senador Lindbergh Farias (PT-RJ) e o ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim.

Lula percorreu, em cinco dias, 12 cidades nos estados do Espírito Santo e Rio de Janeiro. Já no último dia da caravana, na cidade da Baixada Fluminense de Nova Iguaçu, Lula subiu no ônibus da comunicação para conceder a palavra para os profissionais que o seguiam desde o começo da jornada. Entre os temas debatidos, a importância da caravana, a conjuntura política brasileira e latino-americana, saídas para a crise econômica, com foco no estado do Rio de Janeiro, a construção de um referendo revogatório das medidas de Temer, a democratização da mídia e projetos para a Educação.

De saída, Lula foi questionado sobre a conjuntura política do continente, em especial, sobre possíveis perseguições judiciais e midiáticas contra líderes progressistas que ascenderam nos últimos anos. “Além dos problemas que acontecem no Brasil, na Argentina, em El Salvador, em Honduras, há uma perseguição sistemática tanto do Judiciário quanto da imprensa contra a democracia. Da minha parte, acho que temos que reagir. Estou fazendo o que acho que devo do ponto de vista político e os advogados estão trabalhando do ponto de vista jurídico”, disse.

“Acho que, sinceramente, não dá para ficar apenas lamentando. Temos que lutar para reverter essa situação. Aqui no Brasil, vamos ter eleições em 2018, um momento muito oportuno para que o povo brasileiro possa fazer as mudanças que ele entende que devam ser feitas. Acho que se retomarmos o processo democrático no Brasil, com um governo progressista, o país tem chance de influenciar positivamente outros povos da América Latina que, certamente, estão com saudades do tempo em que esses setores governavam”, completou o ex-presidente.

O ex-ministro do Itamaraty completou a fala de Lula ao lembrar uma frase do escritor Millor Fernandes. “Ele dizia, no tempo da ditadura, que o fato de ele ser paranoico não significava que ele não estava sendo perseguido. Então, o fato de eu não acreditar em teorias da conspiração, não quer dizer que algumas delas não sejam verdadeiras. É muita coincidência todos os líderes da América do Sul passarem pelo mesmo processo. Alguns deles o poder econômico consegue derrubar, mas quando não conseguem, usam de outros meios, como aconteceu no Brasil contra a presidenta Dilma e agora contra Lula”, disse.

Amorim também citou o caso da ex-presidenta da Argentina e senadora Cristina Krchner que, no início do mês, foi condenada em primeira instância por “traição à pátria”, por supostamente tentar acobertar iranianos acusados de atentado contra centro judaico em 2012. Na verdade, ela é acusada por assinar um acordo com o Irã para que os acusados fossem interrogados em Teerã. A decisão foi expedida pelo juiz federal Carlos Bonadío, que vem promovendo investidas contra a ex-presidenta.

Para o ex-chanceler, a perseguição atinge mesmo quem não está no poder, “está na oposição, como é o caso da presidenta Kirchner, o presidente já se manifestou pelo Twitter e a presidenta do PT também. É uma coisa muito preocupante. Chegamos a fazer uma grande integração da América do Sul e isso é uma coisa que de fato incomodou. Isso aqui era um quintal.”

Contra a lógica do mercado: referendo revogatório

Questionado sobre as recentes declarações de uma possível articulação de um referendo revogatório, a fim de rever medidas tomadas pelo presidente Michel Temer (PMDB), consideradas prejudiciais ao povo brasileiro, Lula disse que a ideia está em processo de maturação. “O referendo é uma autorização que vamos ter que pedir durante a campanha para o povo brasileiro para exigir aprovação do Congresso”, disse.

“Ou você faz um referendo revogatório, ou faz uma Constituinte”, disse, abrindo para esta segunda possibilidade. “O que quero que o povo saiba é que vamos querer autorização para desfazer algumas coisas feitas no governo Temer que são muito prejudiciais ao Brasil. Faço questão de trabalhar essa ideia com a opinião pública para que o povo vote consciente. Se você ganhar as eleições e não mudar parte das coisas que foram feitas, você não governa o país”, completou.

A necessidade repousa em medidas como a reforma Trabalhista, que retirou direitos dos trabalhadores, e a Emenda Constitucional 95, que limita investimentos em setores estratégicos como Saúde e Educação por 20 anos. Sem a reversão, de acordo com o ex-presidente, seria “governar para atender os interesses do mercado e não do povo”. Amorim completou a fala de Lula, ao afirmar que “só um presidente eleito com muita liderança vai conseguir isso”.

Crise nos estados

Além do referendo revogatório, as autoridades foram questionadas sobre como voltar a investir em nível estadual e reverter a lógica da austeridade. Lindbergh trouxe a questão para seu estado: “O Rio de Janeiro só vai sair desta crise dentro de um projeto nacional. Só Lula pode fazer isso. Precisamos acabar com esse discurso de ajustes fiscais. Temos que investir em infraestrutura”, disse.

“Então, primeiro vamos ter que pensar no papel do Estado. Segundo, a Petrobras investia no governo Lula R$ 45 bilhões por ano, a maior parte no Rio de Janeiro. Hoje, temos R$ 15 bilhões. Terceiro, Lula criou a política de conteúdo local para fazermos navios, plataformas e sondas. O governo Temer acabou com isso. Agora, votam a Medida Provisória 795 que zera impostos de importação para a cadeia de petróleo e gás. Ou seja, se eu comprar uma máquina fora, paga zero de tributação e, se comprar no Brasil, você paga. Isso é uma loucura. A consequência é o desemprego”, completou o senador.

Amorim reafirmou a preocupação do senador sobre a MP. “Os economistas ortodoxos são contra as políticas industriais, mas estamos fazendo isso, mas para os outros, para Cingapura, para a Coreia do Sul, porque estamos dando benefícios para eles”, disse.

O ex-chanceler teme que o estrago avance ainda mais. “Temos que ficar muito atentos porque não sei se esse governo não vai firmar nenhum outro acordo. Está tudo muito secreto, não sei como será o acordo entre a União Europeia e o Mercosul”, disse. O receio é da imposição de cláusulas que impeçam a autonomia industrial brasileira, tal como previa o Acordo de Livre Comércio das Américas (Alca), proposta derrotada durante o governo Lula.

“Uma das razões pelas quais não assinamos a Alca era para preservar a possibilidade de políticas industriais, é o que os outros países fazem. Os Estados Unidos têm isso. Todos os países têm. Teve agora um estaleiro na França e o Macron (presidente François Macron), com todo o liberalismo dele, nacionalizou. Então, temos que ter clareza de que a política de conteúdo local é fundamental para o desenvolvimento industrial e tecnológico. Os empregos industriais são importantes, mas o Rio também tem um enorme número de doutores que dependem dessa possibilidade industrial”, disse Amorim.

Educação em foco

Os avanços na educação e a atual conjuntura de abandono de algumas instituições de ensino foram temas abordados na entrevista. Lindbergh destacou o empenho da caravana em visitar escolas no Espírito Santo e no Rio de Janeiro. “Vocês viram a quantidade de institutos federais que foram feitos. No Rio de Janeiro só tínhamos oito escolas técnicas e hoje temos 30. Vocês viram a Universidade Federal rural do Rio de Janeiro em nova Iguaçu. São 3.500 estudantes. O presidente fez muito pela região”, disse.

“É muito importante para o presidente que mais cuidou da educação de universidades públicas, ter um olhar pelas universidades do Rio de Janeiro. A Uerj precisa de um socorro federal. Só Lula pode estender a mão para universidades tão importantes. A Uerj está em situação de abandono e, apesar disso, está entre as dez melhores do país”, completou.

Amorim completou a fala do senador, lembrando da autonomia universitária. O tema passa por polêmicas com investidas do Judiciário contra reitores, como aconteceu na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que chegou a influenciar no suicídio do reitor Luiz Carlos Cancellier. “É um fator de mobilização e resistência para impedir o sucateamento que está acontecendo no Brasil. Além de resistir sobre algo muito grave que é o estado policial em que vivemos, haja vista o que acabou de acontecer na UFMG. Então, a visita à Uerj tem esse simbolismo também”, disse.

Federalização

Um dos pontos de maior interesse nas falas do presidente durante a caravana teve relação com a possibilidade de federalização do ensino médio. “Uma das coisas que estou pensando e o Fernando Haddad já está fazendo o estudo junto com o Aloizio Mercadante e o Renato Janine Ribeiro, é a federalização do ensino médio nesse país. O ensino médio no Brasil é de má qualidade em quase todos os estados da Federação e o governo federal pode assumir essa responsabilidade. Seria um passo gigantesco, a gente melhor formar nossos jovens e prepararmos para a universidade. Estou convencido de que isso é possível”, disse.