Mancha na história

Bresser-Pereira: impeachment é a origem do mal-estar e da vergonha do brasileiro

Para sair da crise, é preciso políticos e magistrados que 'priorizem o interesse público e a retomada da construção coletiva da nação e do Estado brasileiro, defende o economista

Beto Barata/PR
fraude

Governo de direita de Michel Temer parido pelo impeachment é uma fraude, sem qualquer apoio popular

São Paulo – Em artigo publicado nesta segunda-feira (6), o economista e ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira diz que um mal-estar generalizado, oriundo do impeachment que derrubou a ex-presidenta Dilma Rousseff e alçou Michel Temer, toma conta da sociedade brasileira, que se envergonha com os rumos dados à democracia que construímos. 

Segundo o economista, uma “quadrilha de políticos” se juntou a ideólogos neoliberais, que representam os interesses da elite financeira, para aplicarem uma agenda seguidamente derrotada de retirada de direitos. Ele cita a Emenda Constitucional 95, que congela por 20 anos investimentos em áreas como saúde e educação, e a aprovação da reforma trabalhista, que passa a valer a partir da próxima segunda-feira (13), são exemplos dessa agenda, que promete o paraíso e entrega destruição. 

Bresser-Pereira afirma que a atual crise nasceu do radicalismo e do ódio que eclodiram com as manifestações de junho de 2013, e impôs perdas, tanto à esquerda como à direita, mas que não é possível combater ressentimento com mais ressentimento, e que a saída é a política e negociação. 

Por fim, ele aposta nas eleições de 2018 para a “pacificação dos espíritos”, e diz que algum nível de “conciliação” também interessa às classes populares. Segundo ele, o país não precisa de um “salvador nacional”, mas de uma liderança “forte e corajosa”. 

Confira abaixo o texto completo:

Mal-estar e vergonha

Um mal-estar tomou conta da sociedade brasileira. As causas imediatas são a recessão econômica, a ilegitimidade do presidente da República, a desmoralização dos políticos, a corrupção generalizada, a violência contra os direitos civis praticada por um juiz e promotores de Curitiba, e a radicalização política da classe média tradicional, ressentida por avanços políticos e sociais como a regulamentação do trabalho doméstico e a política de cotas nas universidades.

Mais profundamente, estamos envergonhados porque não soubemos honrar a democracia que nós próprios construímos. Entre 1930 e 1980, formamos nosso Estado-nação e realizamos nossa revolução industrial e capitalista; em seguida, nos anos 1980, construímos a democracia, e a tornamos social. Isso tudo era motivo de orgulho. Mas, em 2016, um impeachment arranhou gravemente essa democracia.

O impeachment de Dilma Rousseff será para sempre uma mancha na história do Brasil. Para que fosse realizado, uma quadrilha de políticos convidou ideólogos para escreverem um plano de governo neoliberal, que foi o passe para garantir o apoio das elites financeiro-rentistas, da classe média tradicional e do partido político que as representa — o PSDB.

Em seguida, o governo passou a comprar deputados para aprovar reformas radicais, que, segundo os mesmos ideólogos, levarão o Brasil ao paraíso. Uma delas, aborto jurídico e econômico –a emenda constitucional congelando a despesa pública; outra —a reforma trabalhista—, uma vitória contra os trabalhadores a partir do diagnóstico absurdo de que a falta de competitividade das empresas brasileiras não decorre do juro alto e do câmbio apreciado, mas de salários altos.

O mal-estar que atinge a sociedade brasileira é geral. Seu fulcro está no impeachment. Se o Brasil fosse um Paraguai, onde a democracia não está consolidada, não ficaríamos indignados e envergonhados. Mas não somos. O impeachment derrotou a todos — a esquerda e a direita.

A esquerda, porque os erros do governo Dilma facilitaram o impeachment; e porque o principal partido de centro-esquerda, o PT, igualou-se aos demais partidos no financiamento de suas campanhas.

A centro-direita, porque sabe que a vitória foi de Pirro; porque o governo que inventou é uma fraude; porque, após ano e meio no poder, verifica não ter apoio dos eleitores; porque, ante o ódio e a perseguição, a figura de Lula se agiganta.

Como eu, imagino que muitos brasileiros estejam hoje indignados. Mas a indignação não justifica radicalismo ou enfrentamento. A crise que vivemos nasceu do radicalismo e do ódio que, de repente, emergiram nas manifestações populares de junho de 2013. Radicalismo não se enfrenta com radicalismo, nem ressentimento com ressentimento, mas com política e negociação.

Dentro de um ano, teremos eleições presidenciais, e o que importa agora é assegurar que elas sejam democráticas, que os candidatos apresentem programas de governo claros e factíveis e que desses programas faça parte o compromisso de cada candidato de trabalhar pela pacificação dos espíritos.

Mas não estarei eu voltando à velha “conciliação das elites”? Não, porque dessa conciliação fazem necessariamente parte as classes populares. Mas o Brasil não precisa de uma liderança forte e corajosa? Sim, muito, mas não precisa de um candidato de salvação nacional.

Precisa de um presidente que reconheça as restrições econômicas e políticas e procure contorná-las na medida do possível. Precisa de elites intelectuais e políticas que também reconheçam essas restrições e, portanto, saibam que um governo de centro-esquerda não poderá ser muito diferente de um de centro-direita, e vice-versa. Que o governo é sempre um governo de todos, e não apenas dos vencedores no pleito.

Precisa de políticos e magistrados que priorizem o interesse público e combinem coragem com prudência para, assim, retomarmos a construção coletiva da nação e do Estado brasileiro.