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DENÚNCIA

‘Temos a responsabilidade de autorizar o processo contra Temer’, diz Zarattini

Oposicionistas iniciam o dia com passeata pela Câmara e vão acompanhar início da votação do lado de fora do plenário. Governistas cantam vitória em público, mas prosseguem em busca de indecisos
Publicado por Hylda Cavalcanti, da RBA
08:35
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Alan Santos/PR
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Temer durante evento ontem (1º) em Brasília: reuniões com aliados para salvar o mandato

Brasília – O Congresso está preparado para viver, literalmente, um dia de batalhas entre a base aliada do governo e a oposição. Apesar da propagação antecipada de uma vitória dos governistas com a rejeição da denúncia contra Michel Temer, a batalha passa por apoios recebidos de última hora pela oposição, o anúncio, por muitos integrantes do PSDB, de que vão votar pelo acolhimento da denúncia e a timidez que ainda é demonstrada por vários indecisos, relutantes em mostrar a cara para os eleitores votando para salvar Temer.

Se não houver quórum, a votação será atrasada e os oposicionistas computarão uma pequena vitória nesta briga. Se houver votação com apenas os 172 votos suficientes para rejeitar a denúncia, o governo mostrará que sua fragilidade é maior do que o esperado.

Esta foi a principal avaliação feita por integrantes de vários partidos da oposição durante reuniões realizadas ao longo do dia de ontem (1º), detalhadas durante um jantar que reuniu boa parte deles. A oposição se programa para chegar na Câmara por volta das 8h30 e realizar uma passeata na Casa pedindo a saída de Temer. Vai protestar pelo rito da sessão, que abre brechas para que os trabalhos sejam encerrados rapidamente sem muita discussão, e pedir aos colegas governistas que votem pelo acolhimento da denúncia contra o presidente por ser a opção considerada mais democrática, de forma a esclarecer todos os fatos.

“Nós não teremos os 342 votos hoje para ganhar essa votação, mas sabemos, após todas as conversas que tivemos, inclusive com integrantes da base do governo, que a posição favorável a que o presidente seja denunciado é maioritária nesta Casa”, afirmou o líder do PT na Câmara, Carlos Zarattini (SP). Ele repeliu informações repassadas por vários oposicionistas de que a estratégia inicial deve ser deixar “o governo sangrar”.

Segundo o líder petista, votar a denúncia é urgente e importante para o país, mas a oposição não vai se incomodar de atrasar a votação por uma semana ou mais, para que seja atendido o anseio da população. “O povo não aguenta mais e quer ver o presidente fora. O país está sofrendo e temos a responsabilidade, enquanto parlamentares, de autorizar a abertura de processo contra Michel Temer”, disse.

Zarattini repetiu como foi o acordo firmado entre as várias legendas oposicionistas para o dia de hoje. Elas vão designar um pequeno grupo para registrar presença no plenário, de forma a garantir discursos para representantes desses partidos. Ao final da manhã, farão nova reunião para avaliar se o governo conseguiu colocar o quórum necessário na Casa. Só aí, a partir do resultado do quórum, decidirão se vão comparecer ou obstruir a sessão.

Com o mesmo pensamento, o deputado Henrique Fontana (PT-RS) destacou que a estratégia é importante para levar a sessão até o horário da noite, período em que os brasileiros estarão mais disponíveis e livres do trabalho para acompanhar a votação. De acordo com ele, os oposicionistas usarão todo o tempo necessário para garantir maioria.

“Está crescendo o número de deputados dispostos a votar pelo afastamento de Temer. Já temos maioria, mas ainda não temos segurança dos 342 votos que precisamos. Por isso, seguiremos fazendo o mapeamento e avaliação permanente até o último momento”, afirmou, mostrando que a guerra para virar o jogo vai até o final.

Uso da máquina pública

Por parte do governo, a situação é vista como mais confortável em função da liberação de emendas para os deputados, verbas diversas, promessas de renegociação de dívidas com setores como o agropecuário e acertos para mudança da estrutura dos cargos nos ministérios. O que acontecerá por meio de uma nova reforma ministerial que possa aquinhoar os que votarem para blindar o presidente.

Ontem, Temer teve um dia de candidato em véspera de eleição. Recebeu 31 deputados no gabinete, almoçou com os mais de 200 integrantes da Frente Agropecuária e terminou a noite participando de três jantares organizados por deputados aliados. Nestes encontros, onde ficou por um período máximo de 30 minutos, o presidente voltou a pedir apoios, se disse vitimizado pela oposição e afirmou ter sido ingênuo ao ter recebido o empresário Joesley Batista no porão do Palácio do Jaburu.

O governo usou todos os recursos de que dispõe o Executivo para buscar aliados em meio a essa briga e o PMDB endureceu a posição junto aos integrantes da sigla com a declaração do líder do governo, Romero Jucá (PMDB-RR), de que o partido fechou questão contra a denúncia e quem votar diferente será punido.

Apesar das negociações, não houve acordo com o PSDB, que continua dividido. A legenda liberou seus parlamentares para votarem como acharem melhor. Ontem, muitos já estavam declarando o voto pela abertura da denúncia – entre eles, Danilo Coelho (PE) e o líder tucano na Câmara, Ricardo Trípoli (SP).

Embora o clima, em termos de manifestações populares, seja de certa tranquilidade em comparação com outras sessões de votações polêmicas, o governo do Distrito Federal requisitou segurança especial para a área da Esplanada dos Ministérios. Já o Palácio do Planalto divulgou um texto assinado pelo presidente no qual ele pede o “apoio da população”. Com 5% de aprovação popular, Temer é o primeiro presidente da República alvo de uma denúncia para abertura de processo por corrupção passiva no uso do cargo.

Mesmo cansados e de olho no rito da votação, deputados de ambos os lados não deixaram de lembrar, com este último apelo do presidente, do erro da declaração, que lembrou o apelo público feito pelo ex-presidente Fernando Collor perto da crise do seu impeachment (que não foi consolidado porque ele renunciou antes ao cargo) na década de 1990. Quando Collor disse, de forma parecida à usada por Temer hoje: “Não me deixem só”.